Os estereótipos do gênero na ciência

por | set 16, 2022 | Textos | 1 Comentário

    Alguma vez durante as aulas de ciência você aprendeu sobre as descobertas feitas por cientistas mulheres? Sua resposta muito provavelmente foi não, pois durante anos as mulheres foram, e continuam sendo, ofuscadas na ciência, tendo seus feitos, muitas vezes, não recebendo os créditos necessários independente de suas contribuições.

    Então, gênero e ciência são temas muito mais conectados do que  se pensa. Neste  texto, traremos informações sobre como tem sido a luta das mulheres por direitos no meio desse campo e entrevistas com mulheres que estão no mundo atual da ciência e as dificuldades que elas enfrentam. 

Isadora Souza Moralez, Larissa Leme Magalhães, Júlia Fernandes da Cruz, Júlia Camargo Simões, Gabriel Henrique

Colégio Objetivo Sorocaba Unidade Norte

As esquecidas da história?

    Você já  deve ter aprendido a respeito das definições relacionadas ao sexo biológico e suas relações com os cromossomos X e Y, certo? Alguma ideia de quais pesquisadores / pesquisadoras contribuíram para esta descoberta?

Nettie Stevens

    A maior parte dos livros apontam para um homem chamado Thomas Morgan, embora grandes contribuições para a identificação deste conhecimento tenham sido dadas pela cientista Nettie Stevens. 

    Ela estudou a determinação do sexo em larvas de farinha e logo percebeu que ele dependia dos cromossomos X e Y. Apesar dela ter sido reconhecida por trabalhar com Thomas Morgan, quase todas as suas observações foram feitas de forma independente.

    Morgan foi posteriormente creditado com o Prêmio Nobel pelo trabalho. Ainda,  posteriormente o pesquisador postou um artigo na revista Science onde descreveu que Nattie Stevens agiu mais como uma assistente do que como uma cientista durante todo o experimento.

Figura 1: Cientista Nettie Stevens.

Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/Nettie_Stevens.jpg

De bactérias a medicamentos

    E sobre colônias bacterianas? Elas são de extrema importância para a decomposição de organismos e na fabricação de substâncias que podem ser utilizadas como medicamentos, dentre outras possibilidades de estudos. A técnica de reprodução em massa dessas colônias foi também desenvolvida com contribuições marcantes de uma pesquisadora.

Esther Lederberg

    A cientista Esther Lederberg fez descobertas na biologia e genética e foi a primeira a desenvolver a técnica “replica plating”, para a reprodução de colônias bacterianas em massa. Seu marido, Joshua, recebeu um grande reconhecimento por meio da descoberta conjunta, enquanto Esther foi, em muitos momentos, discriminada por seus parceiros da comunidade acadêmica. 

    Embora as descobertas fossem feitas com o companheiro, o crédito foi dado apenas ao marido. Em muitos momentos Esther foi rebaixada e ofuscada por seu marido, mesmo fazendo uma grande descoberta no desenvolvimento permanecendo sem o conhecimento através de seus trabalhos.

Figura 2: Cientista Esther Lederberg.

Fonte: https://wikiimg.tojsiabtv.com/wikipedia/commons/1/15/Esther_Lab.jpg

Figura 3: Uma colônia de bactérias.

Fonte: https://br.freepik.com/

    Os casos trazidos anteriormente são apenas dois exemplos de situações já ocorridas com diversas mulheres durante toda a trajetória da ciência até os dias atuais. A luta para que tais situações não se repitam é fundamental. Não se trata apenas de elencar nomes, mas buscar reconhecer a importância histórica das mulheres na Ciência com foco a garantir que novas gerações possam se interessar pela carreira científica e ter as oportunidades apropriadas.

Cientistas na atualidade

    Quais são as dificuldades na atualidade? Como pensar em caminhos para superá-las? Para comentar um pouco sobre tais aspectos, trazemos na sequência trechos de entrevistas com as professoras Heloisa Cristine e Letícia Moraes.

    Heloisa Cristine é Graduada em Licenciatura Plena em Química pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – Campus Sorocaba. Durante a graduação foi bolsista da Tutoria PAAEG (Química Geral), do Programa de Monitoria (Química Geral) e do Programa de Residência Pedagógica (2018-2019). Atualmente é professora na Rede Particular de Ensino.  

    Sala V na escola:  Você acredita  que, nos momentos, atuais a mulher sempre vai ser discriminada no meio profissional?

    Heloisa: Acredito que em muitos ambientes profissionais a mulher ainda é discriminada, muitas vezes, ganhando menos pela mesma função/cargo. Porém, é possível perceber que essa desigualdade vem melhorando (graças à luta das mulheres) e que nos dias atuais a situação já está bem melhor do que antigamente.

    Sala V na escola: Já percebeu dificuldades ou barreiras na sua carreira simplesmente por ser mulher? Como enfrentar essas barreiras?

    Heloisa: Já percebi. Nas ciências naturais (hard sciences: química, física e biologia) a maior parte dos pesquisadores ainda é homem, porque há essa crença de que eles podem se dedicar mais à pesquisa, uma vez que “não tem” outras responsabilidades, tendo em vista que funções como cuidar da casa e dos filhos ainda são, infelizmente, atribuídas às mulheres. 

    Heloísa retorna dizendo o quanto até em bolsas de pesquisa isso é levado em consideração, além de muitas mulheres que são questionadas em situações como maternidade e vida pessoal “As mulheres são questionadas sobre o tempo que terão disponível, enquanto os homens não. Também são questionadas sobre maternidade e outras escolhas pessoais que deveriam caber somente à elas.”

    Agora, na minha carreira como professora, não vejo discriminação por ser mulher. O que eu percebo, é que existem escolas, principalmente de nível médio e superior, com mais professores homens do que mulheres, mas não na escola em que trabalho. Mas conheço lugares que dão prioridade para a contratação de professores homens, sim.

    Sala V na escola: Que conselhos você daria para as jovens que querem ingressar na carreira científica?

    Heloisa: Que, por mais difícil que seja, se é o sonho dela, ela deve ingressar. Não vai ser fácil, vai haver muita discriminação e pré-conceitos estabelecidos apenas pelo gênero. Mas que ela é a única que pode provar a todos que eles estavam errados. Precisamos, urgentemente, de mais mulheres nas ciências e de mais mulheres fazendo pesquisa.

    Letícia Estevão Moraes é licenciada em Física pela Universidade Federal de São Carlos, campus Sorocaba (2014). Mestra e Doutora em Ensino de Ciências e Matemática pelo Programa de Pós-Graduação Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática (Pecim) da Universidade Estadual de Campinas. Participa do Grupo de Pesquisas em Ensino e Divulgação da Ciência (GPEDIC), da Universidade Federal de São Carlos, campus Sorocaba.

    Sala V na escola: Quais dificuldades que uma mulher cientista enfrenta no Brasil?

    Letícia: Nós, mulheres, sofremos dificuldades diariamente, mas especificamente na vida acadêmica, há algumas expectativas que nós cientistas sofremos, como por exemplo: 1) a Física é majoritariamente masculina. Um exemplo disso é, em média, haver dez homens para cada uma mulher matriculada no curso. Isso não se deve ao fato do curso ser difícil, mas por já desde pequena nós mulheres ouvirmos que as ciências no geral ser uma área para homens, enquanto que a área da saúde ser mais para mulheres, pelo fato de ser “cuidadora”; 2) ser cientista necessita um tempo muito grande dedicado aos estudos, isso consequentemente influencia na sua idade. Então, há muitas cientistas que chegam ao nível mais alto como cientista com uma idade próxima aos 40 anos Essa idade, para a sociedade é vista como velha para ser mãe, então, nós mulheres cientistas basicamente temos que fazer escolhas sobre muitas coisas, e consequentemente, ser julgada pela sociedade; 3) Há pouco incentivo para estimular a entrada de mulheres na ciência. Tal fato acaba isolando ainda mais as mulheres na ciência, bem como acaba reforçando ainda mais o estereótipo que mencionei no item 1.

    Sala V na escola: Que conselhos você daria para as jovens que querem ingressar na carreira científica?

    Letícia: Eu diria que não é um caminho fácil, você vai enfrentar muitos desafios em se tornar uma cientista, mas que o principal é encontrar outras mulheres e estabelecer uma rede de contato e incentivo. Posso afirmar que, os melhores momentos sendo Cientista foram justamente quando tive o apoio e também apoiei outras meninas/mulheres a ingressar a vida acadêmica na área da Ciência.

    Sala V na escola: Você já teve um momento que se sentiu julgada pela escolha da carreira?

    Letícia: Se eu fosse enumerar quantas vezes já fui julgada pela escolha da minha carreira eu ficaria aqui escrevendo por 1 hora, pois foram várias. Bom, posso dizer que com o ingresso na pós-graduação (mestrado e doutorado) isso não ocorreu tão diretamente, mas na graduação em física aconteceu MUITAS vezes. Vou citar um caso meio leve, mas que me marcou muito. Uma das disciplinas muito complicadas da graduação, e também uma das mais importantes é o Cálculo Diferencial e Integral; naquela época, o professor já no primeiro dia de aula apresentou o programa da disciplina, falou como seríamos avaliados e qual livro seria usado, após toda sua explicação ele “soltou” a seguinte frase: “bom, já aviso que apenas 25% de vocês irão passar na minha disciplina, e até hoje nunca nenhuma mulher passou comigo” e olhou para as 3 mulheres que estavam na sala de uns 30 alunos. Bom, eu passei!

Onde estamos então?

    Após conversarmos com as professoras, percebemos que, ainda há uma grande dificuldade no ingresso na carreira, ainda que nos dias atuais as possibilidades tenham se ampliado. Mesmo com todas as dificuldades que essas duas cientistas relatam, elas continuaram a perseguir seus objetivos. É nesse sentido que queremos incentivar as meninas que almejam seguir a carreira de cientistas. É não somente por seguir objetivos, mas também por ser uma força de resistência dentro de um campo ainda preconceituoso.

    De acordo com dados oficiais de agências que regulamentam a pesquisa no Brasil e no mundo, 43,7% das e dos pesquisadoras e pesquisadores no Brasil são mulheres. Esse valor desce para 30% mundialmente segundo a ONU. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) aponta que dentro de uma década o número de mulheres cientistas será maior do que o de homens, porém o mesmo não é dito quando se trata de cargos de liderança dentro da ciência e aponta que menos de 10% dos membros da Academia Brasileira de Ciência são mulheres e que apenas 21% dos coordenadores de projetos temáticos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pertence ao gênero feminino.

    Tais dados relatam que há um caminho a ser percorrido e desafios fundantes a serem superados. Deste modo, colocar o tema em pauta constante em discussões dentro e fora da universidade é fundamental.

Referências:

BORTOLETTI, Mariana. A participação das mulheres na ciência: cenário atual e possibilidades. In: A participação das mulheres na ciência: cenário atual e possibilidades. Paraná: PUC-PR, 7 jan. 2022. Disponível em: https://ead.pucpr.br/blog/mulheres-na-ciencia. Acesso em: 15 set. 2022.

SILVA, Ruan Bitencourt. Esquecidas pela história: cientistas mulheres inovadoras que tiveram suas descobertas “roubadas” por seus colegas homens. Santa Catarina, Brasil: Universo Racionalista, 25 ago. 2020. Disponível em: https://universoracionalista.org/esquecidas-pela-historia-cientistas-mulheres-inovadoras-que-tiveram-suas-descobertas-roubadas-por-seus-colegas-homens/. Acesso em: 15 set. 2022.

CNPQ. Currículo do sistema de Currículos Lattes. Informações sobre a doutora Letícia Estevão Moraes. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/4358189417039369

CNPQ. Currículo do sistema de Currículos Lattes. Informações sobre a mestranda Heloisa Cristine. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/0943903617159757

1 Comentário

  1. Samuel

    Muito bom.

    Responder

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