No Zero a gente leu “Matemática: o que você quer saber?” de Anne Rooney

Interessante como na história da Matemática vemos que várias descobertas (chamemos assim) ocorreram de formas completamente independentes por um simples progresso da ciência/sociedade. Não é como se uma pessoa/grupo tivesse encontrado aquele resultado e os demais copiassem. Claro que hoje com o desenvolvimento dos meios de comunicação instantânea, fica cada vez mais fácil descobrir o que já se desenvolveu em uma determinada área do conhecimento evitando assim “descobertas repetidas”. Uma descoberta Matemática realizada aqui na Terra ou num planetinha a bilhões de anos luz daqui, terá a mesma validade, dado que os conceitos são idênticos. Mas esse é um ponto interessante de se pensar na perspectiva da pesquisa, principalmente em Ciências Humanas, pois o “repetir” só perde o interesse quando os objetos de estudo apresentam características muito similares. Se pensarmos no aspecto humano por trás das divulgações científicas de matemática, um mesmo tema pode ser abordado da mesma maneira por diferentes pessoas (que não se conheçam) e ainda assim, produzir resultados muito diferentes.

Para ilustrar essa situação, ontem maratonei o livro Matemática: o que quer saber? da autora Anne Rooney e senti essa mesma sensação de que embora eu e a autora nunca tivessemos conversado ou conhecessemos o trabalho um do outro, vários dos posts desse blog se relacionam muito com os capítulos desse livro. Vi temas muito semelhantes àqueles que já discuti nesse blog, mas a forma como apresentamos e exploramos os assuntos se distancia bastante.

Não é como se um tivesse copiado o outro, ou que um de nós fosse o “verdadeiro autor” por trás daquela ideia. O fato é bem mais simples, que o progresso científico ocorre por diferentes frentes alavancado por fatores comuns à sociedade. Por exemplo, mediante a pandemia de COVID-19, houve um estímulo muito grande de diferentes partes para a produção de conteúdos de divulgação científica relacionados à pandemia e outros aspectos comuns. Do mesmo modo que com o interesse pelo xadrez, muitas pessoas vêm a escrever materiais sobre esse tema, não necessariamente que as ideias “repetidas” produzidas sejam uma cópia de outros autores, mas simplesmente um indício de que o conhecimento sobre aquele tema se desenvolve em direções semelhantes, tal como ocorreu no progresso científico na história da Matemática e de outras Ciências. Claro que meu jeito de escrever é bem diferente do jeito dela, mas em vários textos que lia, reconhecia as mesmas ideias e propostas de inquietação sugeridas ao leitor.

Achei um livro muito legal, a autora conseguiu com um forte domínio da história matemática interelacionada a outros assuntos do cotidiano, apresentar dos mais diversos aspectos da matemática em uma leitura suave e instigante, sem se prender a proposta de explicar que um livro de matemática teria. O único contra desse livro, é que os capítulos são muito curtos, você está no meio da leitura, querendo saber mais e ver mais sobre o tema, quando ele termina, te deixando na vontade. Mas talvez isso seja um problema da minha parte como matemático, que gosto de ler livros-textos de Matemática (que não são muito palatáveis), de modo que pensando no objetivo do livro como instigar a curiosidade e o interesse do leitor no tema, é um sucesso.

Considero esse um trabalho muito bacana para quem gostaria de entender melhor sobre essa suavidade que envolve a divulgação científica de matemática. Mas sugiro que dê uma lida primeiro no outro livro dela “História da Matemática”, pois juntos formam uma combinação bem mais proveitosa. A autora em si demonstra um domínio absurdo na História da Matemática e uma noção incrível sobre quanto de seriedade é necessário inserir em seu texto para deixá-lo estimulante e com conteúdo que nos faz refletir sobre nossa vida.

Inclusive, tem um capítulo sobre a questão da COVID-19 que é bastante pertinente no sentido do papel da vacinação e do risco de uma pandemia. Esse talvez seja um tema não tão simples de se entender assim à primeira vista, mas vale muito a pena fazer aquele esforço. Inclusive, o professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Unicamp, Samuel Rocha de Oliveira (meu orientador de doutorado), deu em 2020 no começo da pandemia de COVID-19 uma excelente palestra sobre Oportunidades de ensino de matemática no contexto da COVID-19 que casa bem com esse capítulo da Anne Rooney.

Assim, fica como recomendação a leitura desse livro tanto para você que gostaria de começar a se aventurar em divulgação científica de matemática, quanto para você que nunca foi muito com a cara da matemática, mas gostaria de repensar essa relação de amor e ódio que a escola as vezes nos proporciona 🙂

Agradeço à Editora M.Books pelo livro cortesia “Matemática: o que você quer saber?” de Anne Rooney, que possibilitou a produção desse texto.

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