Isso não é comigo, eu ensino matemática
Essa semana durante o planejamento docente, foi discutido a quem interessa as Inteligências Artificiais. Embora esse pareça um tema ligado a grandes corporações e que pouco diz respeito a atitude de 30 professores de um instituto federal, há no nosso uso constante (e as vezes até inconsciente), um peso ao compreendermos a direção que esse uso nos leva. Você pode até pensar, ah, mas eu uso para fins cômicos, criar memes, ou meu colega que usa para resumir artigos, ou outro amigo que usa para programar. O ponto é, mesmo na melhor das intenções, usar esses recursos demanda um custo que não está sendo diretamente pago por nós. Isso significa que a alguém interessa, e que de alguma forma, enxergam essa “generosidade” como lucrativa.
Contudo no planejamento docente, um professor cogitou se não seria a ocasião de se criar uma inteligência Artificial que não atenda a interesses corporativos. E por assim dizer, fosse “limpa” de vieses. Mas logo ele foi questionado de que não há como uma posição ser realmente neutra, somente existe a percepção de uma neutralidade, e isso representa inclusive um perigo social.
Entre professores que ensinam matemática, vejo que essa percepção de neutralidade em relação a suas disciplinas costumam ser mais fortes do que em outras áreas do conhecimento. Por vezes pensamos que existe uma pureza na matemática que a faz livre de interesses, um campo de estudos limpo de vieses, perfeito e harmônico, que existe pelo simples deleite humano de compreender o universo com formas de quantificação…
Mas longe dessa utopia, o motor de qualquer desenvolvimento coletivo traz sempre um combustível que reconhece naquela ação uma finalidade além dela mesma. Ressalto o coletivo nesse caso, pois o individual ainda pode se sustentar por propósitos menores, mas o coletivo requer um objetivo de interesse direto e prático.
Lembre por exemplo de suas aulas de matemática na escola. Sempre (ou quase sempre) exemplificam a relevância do cálculo de áreas a medição de terrenos. Legal, terrenos… Pedaços de terra abaixo do sol…
Mas se puxar um pouco mais na memória, talvez se lembre que as técnicas de medição de áreas foram desenvolvidas no Egito Antigo. Uma região que dependia das cheias dos rios para nutrir a terra e deixá-la em condições de cultivo.
Como nem toda a população trabalhava na terra, haviam diferentes funções que precisavam ser sustentadas pelo produto daqueles que cultivam. Ou seja, era necessário recolher impostos. Porém como dimensionar o quanto cada pessoa deveria pagar de imposto?
Sabendo aproximadamente o quanto se produz por unidade de área, e conhecendo a área total que aquela pessoa dispõe, podemos determinar o total de sua colheita, e estipular a parte que deveria ser paga.
Mas rios não são estáticos e nem lineares, eles mudam de tamanho, suas margens se alteram e com isso o terreno também se modifica. Ou seja, surge a demanda de contabilizar com maior precisão áreas não retangulares. O erro nesses cálculos poderia trazer prejuízos a gestão, que arrecadaria menos do que tinham direito, ou insatisfação da população que seria cobrada de mais do que deviam.
Esse exemplo mostra que não há uma motivação nobre e poética nem mesmo em um campo do conhecimento cujos docentes costumam “lavar as mãos” frente a qualquer questão social, dizendo “isso não é comigo, eu ensino matemática”.
Imagem de capa extraída do filme Pôncio Pilatos, de 1962, dos diretores: Gian Paolo Callegari e Irving Rapper.
