O THE FLASH E A SUPER VELOCIDADE

O poder que concilia ausência e presença de atrito em um mesmo corpo.

O The Flash está entre os personagens mais conhecidos do mundo dos quadrinhos. O herói mais rápido da editora DC Comics se tornou um ícone através de diferentes escritores e ilustradores e, atualmente, ganha ainda mais espaço nas telas do cinema e da televisão. Existem diferentes versões sobre a história e os poderes do velocista, falaremos aqui de alguns tópicos da versão mais conhecida.

1. Surgimento dos poderes

Barry Allen, formado em química orgânica e criminologia, começou a trabalhar no Departamento de Polícia Científica, em Central City (uma cidade do universo da DC Comics).

Certa noite, Barry estava trabalhando em seu laboratório, quando um raio acertou a janela. O químico foi atingido pelos destroços e banhado por vários produtos químicos. Aos poucos, ele foi descobrindo que aquele acidente havia lhe dado uma velocidade sobre-humana.

2. A super velocidade e a aura anti-atrito

Fan-art do The Flash correndo na estrada, por Andres Nieto

Se algum dia, por motivos que com certeza serão muito estranhos, você puder ter o poder de um super herói, lembre-se de não escolher a super velocidade, a não ser que ela venha acompanhada de uma aura anti-atrito.

Isso é MUITO importante!

E eu explico:

Se soltarmos uma formiga de um prédio muito alto sua velocidade aumentará em 35 Km/h a cada segundo, pela ação da força da gravidade. Ou seja, no final de 10 segundos ela deveria ter 350 km/h de velocidade. No entanto, quanto mais rápido um corpo está mais ele sofre resistência do ar.

formiga
Fig 2. Uma simpática formiga

No caso da nossa formiga, que é extremamente leve, quando a sua velocidade chega a aproximadamente 10 km/h (e isso acontece em menos de 1 segundo de queda) a força de atrito que o ar exerce sobre a formiga se iguala à força da gravidade e, por causa disso, a sua velocidade se torna constante.

Portanto, se a formiga cair de 40 cm de altura, ou se ela cair de 800 m, chegará com a mesma velocidade no chão.

O que isso tem a ver com a super velocidade do flash?

Quanto mais rápido estamos correndo, maior será a força de resistência do ar. No caso do Flash, que atinge velocidades até maiores que a da luz (em algumas edições), o ar poderia se tornar o grande vilão do seu principal poder. Na medida que uma pessoa vai correndo, ela vai empurrando o ar à sua frente e fazendo-o condensar em uma massa de ar cada vez mais densa. Com velocidades muito altas, o ar se comportaria quase como uma parede, o que faria qualquer pessoa comum ser completamente esmagada pelo ar.

No entanto, vemos que ele não parece sofrer nenhum efeito de resistência quando está correndo. A explicação dada pelos editores é que o Flash possui uma aura anti-atrito, que cria uma espécie de blindagem aerodinâmica, impedindo que ele sofra qualquer força do ar.

Não deixa de ser uma explicação!

3. Correndo pelas paredes e a aura “(anti)anti-atrito”

Quando estamos fazendo uma caminhada (ou corrida), nosso pé faz uma força contra o chão, empurrando-o para trás, e o chão reage nos empurrando para frente. O que nos impede de deslizar no solo, como deslizaríamos se estivéssemos em um piso escorregadio, é o atrito.

A força de atrito que o chão faz em nós sempre depende de duas coisas:

plano horizontal
Fig 3. Empurrando uma caixa
  • Coeficiente de atrito: que determina o quanto uma superfície é resistente a outra quando são arrastadas;
  • Força Normal: que é a força aplicada pela superfície de apoio no corpo.

Suponhamos que você precise empurrar uma caixa muito pesada sobre o asfalto. Com certeza não será tarefa fácil, pois como o peso dela é grande, a força normal (N) com que o chão a empurra para cima é igualmente grande.

Além disso, o asfalto é uma superfície bastante rugosa, portanto seu coeficiente de atrito é alto. Esses dois fatores levarão a uma força de atrito enorme.

plano inclinado
Fig 4. Caixa em um plano inclinado

No entanto, se pudermos inclinar a superfície, cada vez mais, na direção que queremos movimentá-la, a dificuldade vai diminuir. Se chegarmos ao máximo de inclinação (formando 90º – como na figura 5) o corpo vai cair livremente.

Por que o atrito foi diminuindo com a inclinação?

Quanto mais inclinada estiver a superfície, menor é a força que a caixa faz sobre ela, e consequentemente, menor é força de reação do solo. Logo, o atrito tem força máxima na situação da figura 3, enquanto na figura 5 ele é nulo, pois mal há contato entre a caixa e a parede.

vertical
Fig 5. Caixa em uma superfície vertical.

O que isso tem a ver com a corrida nas paredes do flash?

Como vimos que para andar é preciso existir atrito entre o seu pé e o chão e que o atrito vai diminuindo na medida em que aumentamos a inclinação da superfície, então nos perguntamos:

COMO O FLASH CORRE PELAS PAREDES? Quando o chão está totalmente vertical (como na figura 6) ele não exerce nenhum atrito que empurre o Flash para frente. Que força, então, é essa que faz o velocista escalar a parede correndo? Será que nos pés dele há uma aura anti-anti-atrito, ou anti-não-atrito, ou simplesmente uma aura de atrito, que faz os pés dele empurrarem a parede para baixo (enquanto ela o empurra para cima)?

Fig 6. Flash subindo um paredão

4. Como derrotar o Flash?

Pelo pouco que vimos até aqui, as leis da física não parecem atrapalhar os planos do herói apressadinho (ou pelo menos dos editores da DC Comics). Mas acredite se quiser a super velocidade tem uma fraqueza.

A sua suposta aura de atrito nos pés (que acabei de inventar, para explicar a corrida nas paredes) não parece ter efeito quando a superfície é de gelo. Será que a aura fica congelada?

O fato é que quando Flash enfrenta um dos seus mais populares inimigos, o Capitão Frio, ele é surpreendido por um raio congelante no seu caminho, inutilizando por completo a sua velocidade.

5. Por fim

Percebemos com essas análises que esse poder do The Flash possui alguns problemas no campo da ciência, em particular, da física. Um banho de produtos químicos e a aquisição de uma super velocidade não é o suficiente para explicar como ele consegue ignorar o atrito com o ar e ao mesmo tempo criar um atrito artificial para andar numa parede totalmente vertical.

E você, consegue encontrar uma explicação que concilie essas duas maneiras diferentes de interagir com o atrito?

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Este artigo foi inspirado na pesquisa “A Física dos Super Heróis de Quadrinhos” feita por Luiziana Gonzaga (e equipe) da UNIARARAS e publicada no Caderno de Física da UFES em 2014. Quem quiser, pode conferir aqui.

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