Amor, morte, robôs e cultura

Séries e TV

Muitas são as análises possíveis em torno de produções midiáticas contemporâneas. Tais produções permeiam nosso cotidiano, colaboram na construção de nossas narrativas pessoais e nos ajudam a nos entender como sujeitos. Um dos fenômenos recentes que vêm sendo parte de nosso cotidiano, rodas de conversa entre familiares e amigos, são seriados em plataformas de streaming.

Para aqueles que, dentro deste panorama cultural, são fãs de ficção científica e distopias futuristas, há uma nova série de animações, na plataforma Netflix, chamada “Love, Death + Robots”. Esta série apresenta debates interessantíssimos sobre nossa sociedade! Ela é composta por episódios independentes. Suas histórias passam-se em cenários ficcionais, cujos temas relacionam-se aos pilares centrais que nomeiam a série: amor, morte e robôs.

No episódio “Os três robôs” somos apresentados, obviamente, a três robôs! Eles estão em um contexto pós apocalíptico. Os humanos, por sua vez, foram extintos e as antigas cidades são pontos turísticos para estas máquinas “sobreviventes”. O interessante deste episódio é que estes robôs descrevem e analisam a cultura humana a partir desta visita turística. Tal como um antropólogo estudando uma cultura a que não pertence.

Como nerd que têm buscado referências no campo dos Estudos Culturais, este episódio específico me fez pensar em várias relações com o que venho estudando. Em especial, a questão da centralidade da cultura, abordado por Stuart Hall, como objeto de estudo e análise a partir da segunda metade do século XX.

O autor aponta que os seres humanos podem ser compreendidos como seres interpretativos. Isto é, não apenas estamos no mundo, mas vivemos a partir de como agimos e – especialmente – pensamos este mundo. Desta forma, entender nossas práticas envolve entender os variados sistemas de significado utilizados para definir nossas condutas em sociedade. Este conjunto de significados, sistemas e códigos que dão sentido às nossas ações é o que definimos como “cultura”.

Uma cena que pode ser pensada a partir desta noção de cultura é quando [cuidado, contém spoiler] estes três robôs encontram uma bola de basquete, que é referida por um deles como “esfera de entretenimento”. Para qualquer ser humano minimamente incluído na cultura ocidental, uma bola de basquete remete aos mais diversos significados e seu uso tem objetivos claros nas disputas esportivas. Quicá-la parece o óbvio e tentar arremessá-la em uma cesta é o que todos fariam. No entanto, estas máquinas ao executarem esta ação, a concebem como enfadonha. Eles narram que não conseguem entender como nós, seres humanos, podíamos passar tanto tempo entretidos com ações como esta. Isto é, as interpretações dos robôs para estas ações concretas não fazem sentido dentro do sistema de significados da sua cultura.

Neste caso, a ficção inventa uma cultura própria para os robôs, que se diferencia completamente da nossa. Isto nos mostra que o “basquete” só pode ser “basquete” dentro da nossa cultura. Fora deste âmbito, muitos outros significados poderiam ser atribuídos à prática de quicar uma bola: inclusive nenhum. Além disso, a própria noção de entretenimento vai além de “quicar uma bola e arremessá-la”, mas parte de uma atividade que é interativa e considerada divertida quando executada em um grupo social, seja para criar laços, seja para competir, seja para torcer para algum time específico. Isto é, quicar uma bola e arremessar configuram-se como parte de um conjunto maior de significados, que para estes robôs da série, nem são mencionados por não serem sua cultura.

Posteriormente, os robôs vão a uma lanchonete e uma discussão a respeito de alimentação se inicia. Eles não conseguem entender para quê fazemos isso! Os robôs se interrogam sobre as razões de colocarmos, por exemplo, um hambúrguer em nossos “orifícios” para transformá-los em uma pasta, a partir das ações que ocorrem em uma parte interna do corpo que contém ácido, simplesmente para gerarmos energia.

Com esta descrição, eles questionam: “qual o sentido disso para seres que usam baterias?” “Por que simplesmente não depositamos estes alimentos em um balde de ácido e evitamos todo este custo com estruturas internas?”. Estas são perguntas que só fazem sentido em uma cultura diferente da nossa. Por tal motivo, nunca seria feita por um ser humano!

A animação apresenta bem o seu papel em colocar a humanidade no centro de uma nova visão de mundo que só seres que “vivem” de maneira completamente diferente da nossa podem ter. Isto é, mostra que até o mais “biológico” dos atos só pode ser interpretado dentro da nossa rede de significados culturais. “Comer” para a nossa cultura não é simplesmente gerar energia. Uma gama de outros sentidos acompanham este ato que normalmente vemos como “natural”. Alimentar-se é um hábito cultural. Como assim? É uma ação vivenciada coletivamente, parte de uma rotina. Assim, mais do que nutrientes, envolve prazer, convivência, pausas em dias de trabalho, motivos de reuniões familiares e entre amigos, tradição, etc.

Retomemos a ideia de cultura, abordada anteriormente. Compreendo que não é cabível estudar as ações humanas sem localizá-las dentro de um conjunto de regras específicas que em que uma pessoa, ou um grupo social, está inserida. Ou seja: sem observar sua cultura! Isto não significa que as ações concretas não existam! Mas, simplesmente, que as suas interpretações são arbitrárias. Desta forma, o que entendemos, por exemplo, como “bom” ou “mau”, “divertido” ou “enfadonho”, só são classificados desta forma devido às interpretações específicas que damos a cada ato!

E este episódio tem muito mais detalhes legais de nossa cultura – urbana e ocidental, ao menos. Mas… Por enquanto, chega de spoilers. Se me empolgar, logo começo a falar da cena dos gatos (ops…).

Para saber mais

HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação & realidade, v. 22, n. 2, 1997.

MILLER, Tim. Love Deaths + Robots. Netflix, 2019. [indicação 18 anos]

2 thoughts on “Amor, morte, robôs e cultura

  1. Muito interessante e de fácil compreensão sua análise. Não conheço a série mas fiquei curiosa e interessada em assisti-la. Parabéns!!!

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