Veja as diferenças do apagão desta semana e o de 2001

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http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/01/22/termoeletricas-garantem-energia-hoje-veja-diferencas-do-apagao-de-2001.htm

O cenário energético do Brasil é preocupante com a falta de chuvas, mas não é o mesmo que em 2001, quando o país viveu um período de racionamento de energia após uma série de apagões, apontam especialistas ouvidos pelo UOL. Atualmente, disseram os especialistas, o país dispõe de um parque termoelétrico que foi criado para compensar a pouca produção de energia pelas hidrelétricas.

Sem chuvas, os reservatórios baixaram e desde a metade do ano passado a capacidade das hidrelétricas foi reduzida. Por isso, o país passou a usar mais energia gerada por usinas termoelétricas.

Na última segunda-feira (19), em um pico no consumo por causa do calor, por volta de 15h, houve desligamento de redes para evitar uma queda em todo o sistema. Naquele dia, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) determinou às distribuidoras de energia que cortassem o fornecimento de 5% da carga do sistema. O corte de cerca de uma hora afetou dez Estados e Distrito Federal.

“As hidrelétricas têm pouca água em seus reservatórios, cerca de 17% da capacidade de armazenamento, era para estar acima de 30% nesse período para chegar em abril com boa capacidade. Mas isso não vai acontecer, vamos passar um ano muito difícil e a demanda de energia será suprida pelas usinas termoelétricas”, disse Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe (Coordenação de Pós-Graduação em Engenharia da UFRJ) e ex-presidente da Eletrobras.

As usinas termoelétricas são mais caras, poluem mais e tem baixa eficiência, por isso só utilizadas como uma espécie de plano B, para evitar que os reservatórios das hidrelétricas não reduzam tanto.

“Normalmente, usa-se 80% a 85% de energia produzida por hidrelétrica. No ano passado foi de 60% o uso de hidrelétrica, o que significa que 40% foi de termoelétrica”, disse Pinguelli.

Outro fator preocupante é a falta de sintonia entre ações para evitar a escassez de água e a geração de energia.

“Há extrema interconexão entre o problema da água e da energia. Quase 60% da água que abastece o setor energético vem do Sudeste, que está sofrendo estiagem. E não foi só no ano passado, vem de antes. Se a gente tivesse economizado água e investido no setor lá atrás, nós teríamos mais oferta de energia. O problema de água em São Paulo é um problema de energia no Brasil”, afirmou Gilberto Jannuzzi, professor de pós-graduação em planejamento energético da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Para Jannuzzi, é preciso planejamento integrado dos sistemas elétrico e hídrico e isso não foi feito de forma eficiente. Ele afirma que o processo pode ser agravado se os governos estaduais e federal não assumirem que há um problema.

“É evidente que há restrição. Ela vai ser mais grave quanto mais tempo a gente a gente demora para tomar medidas sobre elas”, disse.

“A palavra racionamento tem sido amaldiçoada pelo trauma de 2001, mas uma racionalização do sistema precisa ser feita urgentemente. O brasileiro precisa consumir menos e de forma eficiente. Esse desligamento seletivo de segunda-feira mostra que o sistema é vulnerável. É diferente de 2001, mas igualmente grave”, disse Pinguelli.

Em 2001, o país também vivia períodos de estagiam e diminuição da geração de energia e dependia quase que exclusivamente de hidrelétricas. Naquele ano, a economia estava bem e o consumo da indústria estava alto, mas o sistema elétrico não era compatível com a demanda. O setor enérgico não recebeu investimentos do governo de Fernando Henrique Cardoso e sem meios alternativos – que não dependessem apenas de hidrelétrica, o sistema entrou em colapso. Com a crise enérgica, o governo determinou o racionamento de 20% do consumo.

Veja outras diferenças entre o apagão de 2001 e o cenário atual:

Padrão de consumo: Em 2001, parte do aumento da demanda se dava pelo consumo da indústria. Hoje, o quadro econômico não é dos melhores e a indústria não é mais a responsável pela alta no consumo, sendo o ar condicionado o grande vilão em um verão atípico. Essa alteração no comportamento de consumo ocorreu após o lançamento de incentivos fiscais do governo para a compra de equipamentos da linha branca como eletrodomésticos.

Eficiência e desperdício: no apagão de 2001, a classe média não acessava os produtos que hoje são responsáveis pelo aumento da demanda. Há produtos bons e ruins no mercado, mas o ideal seria que só estivessem disponíveis os aparelhos com eficiência enérgica que economizam eletricidade no seu consumo sem perder potência.  Especialistas  criticam a falta de ações do governo para conscientizar a população sobre a importância da aquisição de produtos com eficiência.

“É importante garantir que a classe média tenha acesso a esses produtos, mas precisa ensinar a comprar os bons. Também seria bom exigir das indústrias só fabricarem produtos com eficiência garantida para reduzir o desperdício. Outra medida seria haver uma limitação da temperatura do ar condicionado. Se você entra em um estabelecimento e ele estiver muito gelado, frio mais o que o necessário, é multado no Japão”, disse Pinguelli.

Investimentos no setor: além de usinas termoelétricas, o Brasil também conta atualmente com um parque eólico e tem mais hidrelétricas que em 2001. O problema é que as obras para a instalação de todo esse sistema elétrico estão atrasadas e as que funcionam não conseguem fornecer energia porque ainda não foram instaladas boa parte das linhas de transmissão. Especialistas dizem que melhorou muito em relação a 2001, mas que o planejamento e investimento no setor precisa ser contínuo.

Gilberto

Professor Titular em Sistemas Energéticos do Departamento de Energia, Faculdade de Engenharia Mecânica da UNICAMP (Universidade de Campinas), Pesquisador Sênior do Núcleo Interdisciplinar de Energia da UNICAMP (NIPE-UNICAMP). Diretor Executivo da International Energy Initiative-IEI, uma pequena, organização não-governamental internacional, independente e de utilidade pública conduzida por especialistas em energia, reconhecidos internacionalmente e com escritórios regionais e programas na América Latina, África e Ásia. O IEI é responsável pela edição do periódico Energy for Sustainable Development, da editora Elsevier.

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