Tem eficiência energética no The Sims 4?

Realizar simples ações de eficiência energética, utilizando a energia de forma racional, está ao alcance de muita gente — inclusive dos chamados “Sims”. Isso mesmo! Eles são personagens da famosa franquia de jogos de simulação da vida, o The Sims, que completou 20 anos em fevereiro de 2020. 

No game, o jogador ou a jogadora podem criar livremente seus Sims e suas personalidades. Depois, é só colocá-los no mundo, criar suas histórias, suas casas e jogar! Mas, como nem tudo são flores e como esse é um simulador da ~vida~, os boletos chegam também para os Sims — e eles precisam trabalhar e economizar para deixar todas as contas em dia. De quebra, algumas atitudes que eles tomam também ajudam a preservar o planeta (no caso deles, as vizinhanças). 

Em The Sims 4, a quarta geração da franquia, as contas dos Sims chegam toda semana e são colocadas na caixa de correios. Como na “vida real”, elas têm um prazo para serem pagas e são baseadas nos valores dos objetos que os Sims têm em suas casas, no tamanho do lote e no uso que se faz dos produtos e dos equipamentos como geladeira, computador, televisão, luzes entre outros. Um detalhe interessante é que as contas não são pagas em dólares ou em real, mas com os simoleons, a moeda utilizada no jogo (eles também têm sua própria linguagem, o “Simlish”).

Se as contas não são pagas no período correto, os serviços de eletricidade e de água são cortados. Essa é uma novidade do The Sims 4, já que nas edições anteriores os inadimplentes recebiam a visita de um cobrador que levava embora os itens da casa que tivessem o mesmo valor das contas — ou que custassem até mais, em alguns casos!

Neste contexto, é interessante observar noções de economia de energia que estão presentes no game e que podem ser adotadas com uma mudança de comportamento dos Sims – e dos jogadores. Muitas vezes elas podem passar até despercebidas. Mas são atitudes que, quando tomadas dentro do jogo trazem consequências, como a economia de energia que se reflete nas contas – e não só nelas. Essas ações podem despertar um olhar mais atento para os nossos próprios hábitos e perceber como podemos contribuir para, além de economizar dinheiro, também dar uma mãozona para o meio ambiente.

Sem mais delongas, vamos conferir algumas dessas noções que o jogo traz:

Termostato: 

Os Sims podem comprar um termostato para instalar em suas casas. Ele tem duas funções: manter o lar aquecido quando o tempo está frio (como um aquecedor), e mantê-lo geladinho quando está aquele calorão (como um ar-condicionado). Quando o jogador clica nele para acioná-lo, o game faz alertas sobre o reflexo de sua utilização da conta de luz, dependendo da estação do ano:

  • Verão

Quando a temperatura lá fora está quente e o ambiente precisa ser resfriado, há um consumo maior de energia para que essa mudança de temperatura ocorra, como é o caso do nosso ar-condicionado. O game alerta que isso aumentará o valor da conta (clique na imagem abaixo para ampliá-la). 

Reprodução/The Sims 4

Pensando no uso que fazemos dos nossos aparelhos, quando menor é a temperatura que escolhemos, maior será o consumo de energia. Por isso, a dica é tentar usar o ar com um grau um pouco maior, permitindo que o ambiente chegue a uma temperatura confortável mas economizando no consumo energético.

  •  Inverno

No inverno, quando o sim decide deixar sua casa mais quentinha e aconchegante, o mesmo alerta é feito. Isso porque ocorre o oposto: a temperatura lá fora está bem mais baixa e o ambiente precisa ser aquecido, consumindo mais energia (clique na imagem abaixo para ampliá-la). 

Uma dica que nós podemos adotar e que guarda semelhanças com essa questão: regular o termostato da nossa geladeira utilizando a mesma lógica, principalmente nas estações menos quentes. Se está mais frio, podemos deixar o termostato em uma posição menor evitando que a geladeira trabalhe mais para chegar em uma temperatura muito baixa – o que gastaria mais energia.

Opção de deixar as luzes dos cômodos no automático

Quantas vezes saímos de um cômodo e nos esquecemos de apagar a luz? Em The Sims 4, apesar de não existirem interruptores, todas as luminárias são inteligentes! Elas possuem uma opção que, se ativada, deixa todas as luzes de um cômodo — ou da casa inteira (até abajures!) —  no modo automático. Assim, quando não há ninguém naquele local, elas desligam sozinhas. Isso é uma mão na roda, né? Ou mão no interruptor hehe (clique na imagem abaixo para ampliá-la). 

Fora do game também é possível ter essa comodidade, mas, diferente dos Sims, que não precisam pagar mais por esse sistema, nós precisamos fazer um investimento. Seja utilizando lâmpadas com sensores de presença ou mesmo instalando um sistema de automação, que permite o controle pelo celular ou por comando de voz, por exemplo.

Tamanho da casa

O último pacote de jogo lançado, o Vida Compacta, traz novos objetos e novas jogabilidades para o game. Nele, os Sims são incentivados a morarem em casas menores, com menos cômodos e menos objetos. Caso eles optem por esse estilo de vida mais sustentável, são liberadas algumas vantagens, que são considerados “bônus” do lote onde moram, como: habilidades que são desenvolvidas mais rapidamente; móveis mais confortáveis e, dentre essas vantagens, estão as contas menores. O game explica que, ao optar por um imóvel menor, o sim gastará menos energia e por isso os boletos serão mais suaves (clique na imagem abaixo para ampliá-la). 

Essa constatação faz sentido: quanto menos cômodos, menor é a área que precisa ser iluminada e, por consequência, menos lâmpadas. O mesmo serve para ares-condicionados. Isso, somado ao menor número de aparelhos eletrônicos, pode refletir em uma boa economia de energia. É claro que nesse quesito também entra o comportamento do consumidor, ou seja, o uso que será feito tanto dos aparelhos quanto das luzes. Mas, no caso dos Sims é um pouco mais fácil: desde que eles optem por morar nesses lotes menores, já estão economizando. Tá fácil ser um Sim, né?

Há gerações anteriores do game que também mostram essa relação com a energia e incentivam algumas ações de economia. No The Sims 2, lançado em 2004, e no The Sims 3, de 2009, havia a possibilidade de adicionar painéis solares e sistemas eólicos que permitiam a redução do valor das contas. Mas esse pode ser assunto para um outro post.

E você, já reparou em outras jogabilidades que abordem o uso racional de energia em The Sims? Ou em outros games? Conte pra gente!

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Compreender os padrões de calor nas regiões urbanas pode melhorar a qualidade de vida nas cidades

 

Texto por:  Maximilian Kadzioch*
Tradução e edição: Sarah C. Schmidt 
Revisão técnica: Rodolfo Gomes

Desde 2007, o número de pessoas no mundo vivendo em cidades ultrapassou o número de pessoas vivendo em áreas rurais. Hoje, a população urbana é estimada em quase 4,2 bilhões de pessoas. Esse número é apenas um retrato da tendência atual de urbanização, um dos principais processos de mudança global. Embora a urbanização possa ser vista em todo o mundo, os países em desenvolvimento, em especial, experimentaram uma forte tendência de urbanização nas últimas décadas. A América Latina, por exemplo, mostra uma taxa significativamente maior de população urbana (quase 80%) do que a média mundial (cerca de 55%), como pode ser visto na Figura 1, abaixo.

Figura 1: Percentage of urban population of the total population in Latin America & Caribbean and the world average. Fonte: The World Bank Group, 2018 

O processo de urbanização leva a um crescimento das cidades, tanto em termos de expansão de sua área como do adensamento das edificações. Além das oportunidades socioeconômicas de geração de emprego e renda, a aglomeração de pessoas nas cidades é acompanhada de um aumento da vulnerabilidade a doenças, desastres naturais e catástrofes antropogênicas (causadas pela ação do ser humano). Este é um problema ainda maior nos países em desenvolvimento, onde as possibilidades de mitigação (redução dos impactos) e adaptação são mais limitadas do que nos países desenvolvidos, geralmente devido à falta de recursos financeiros e estruturas de governança adequadas.

Uma das maiores ameaças para a saúde da população nas cidades é o calor, especialmente na chamada ilha de calor urbana – ICU (urban heat island – UHI, em inglês), que tem uma temperatura significativamente mais elevada do que a do seu entorno. Em geral, regiões urbanas maiores e/ou mais densas apresentam temperaturas mais altas do que sua periferia rural, principalmente devido às características térmicas dos materiais de construção (que podem acumular mais ou menos calor do sol ao longo do dia) e da geometria urbana, bem como ao aquecimento ativo  (gerado pelos veículos, ares-condicionados e máquinas em geral ) (Figura 2). Esse fenômeno é conhecido como efeito de ilha de calor urbana e ele tem grandes impactos na saúde humana e no consumo de energia em cidades de todos os tamanhos.

Figura 2: Schematic heat island profile for different types of urban density. Fonte: Fuladlu et al., 2018

Além disso, os efeitos combinados da urbanização crescente e das mudanças demográficas (por exemplo, crescimento populacional e envelhecimento) aumentam o risco de estresse térmico, taxas de mortalidade, expansão de doenças infecciosas ou podem ser vetores de vírus, como, por exemplo, Zika ou Malária. Esses problemas são potencializados pelas mudanças climáticas, que estão levando a um aumento da temperatura global e a aumento na frequência e na intensidade de eventos extremos, incluindo ondas de calor. Essa tendência de aquecimento global pode ser observada para a cidade de São Paulo, por exemplo, onde se vê ao longo dos anos o aumento do número de dias com onda de calor por ano (Figura 3). 

Fugura 3: Number of heat wave days (NHWD) in the city Sao Paulo for the period of 1960 to 2015. Fonte: Geirinhas et al., 2017

O conhecimento sobre o desenvolvimento temporal de ilhas de calor em regiões urbanas, comparado com informações sobre a mudança e a expansão da infraestrutura, permite encontrar estratégias de adaptação e mitigação aos padrões de altas temperaturas dentro das cidades. Neste sentido, os dados de sensoriamento remoto (levantamento de informações sobre a superfície terrestre realizado por meio de sensores distantes ou remotos, como em satélites) oferecem a grande oportunidade de investigar simultaneamente a temperatura de uma cidade inteira e seus arredores. 

Para isso, o Landsat Missions se mostra como o recurso mais importante para obter esses dados, já que fornece informações contínuas para se pesquisar o que vem acontecendo a longo prazo com a temperatura da superfície da Terra, com registros desde 1972. Seus – por enquanto – nove satélites oferecem uma série temporal única de padrões de temperatura de qualquer cidade no mundo (Figura 4) com uma resolução espacial de até 60 metros, o que significa que a medição da temperatura é feita para uma área de 3.600 m². Essa combinação de consistência temporal e alta resolução espacial tornam os dados do Landsat uma fonte valiosa para analisar padrões de temperatura. 

Figura 4: Temporal overview of all nine satellites of the Landsat Missions.

Os sensores da frota Landsat são multiespectrais, ou seja, registram em diferentes faixas do espectro eletromagnético. Os dados da banda térmica (10,40-12,50 µm) podem fornecer uma medição da temperatura da superfície terrestre para qualquer região. A comparação das informações de temperatura das áreas rurais do entorno permite separar o impacto do efeito das ilhas de calor  do impacto da mudança climática na tendência de temperatura das cidades. Isso é importante para vincular as alterações no padrão de temperatura às alterações de infraestrutura urbana. 

Nos próximos meses, o projeto de pesquisa “Estimando a futura demanda por refrigeração na cidade de Campinas (SP): análise das tendências de temperatura a partir de dados climáticos e de sensoriamento remoto” (Estimating the future cooling demand in Campinas by analyzing urban temperature trends from climate and remotely sensed data) analisará o desenvolvimento da temperatura da região urbana da cidade  com dados obtidos pelo Landsat Missions, cobrindo os últimos 30 anos. 

O objetivo é reunir informações sobre o desenvolvimento temporal e espacial da ilha de calor urbana e conectar essas informações a questões práticas como demanda, consumo e distribuição de energia, bem como questões de saúde pública. O planejamento urbano pode aplicar conhecimentos relacionados para melhorar a infraestrutura urbana e o padrão de vida de uma população em constante crescimento. Os resultados desse projeto fornecerão importantes informações para a realização desse planejamento.

À medida em que a pesquisa avançar, traremos novos posts sobre o assunto, com resultados preliminares e conclusões.

*Maximilian Kadzioch é mestrando da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique e realiza um projeto de pesquisa em nome da RLS-Network  na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Graduado em geografia, suas pesquisas são focadas nas possibilidades de monitoramento, modelagem e gerenciamento de sistemas ambientais em questões que envolvem mudanças climáticas e sustentabilidade. 

 

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