Projeto “Meninas na Ciência” busca a inserção de meninas e permanência de mulheres na ciência

Programa criado pela UFRGS tem como principal objetivo criar ações capazes de atrair meninas para as carreiras de Ciência e Tecnologia.

Tempo de leitura: 10 min

Representatividade feminina, por que é importante? 

Durante muito tempo, as mulheres ocuparam espaços fechados e restritos, como o ambiente doméstico, sendo responsáveis pela criação dos filhos e pela casa. Também ocuparam depois o ambiente de assistência à saúde, como as enfermeiras nos períodos das Guerras Mundiais. Já os homens sempre trabalharam em espaços abertos e públicos,  ocupando altos cargos na sociedade. 

É fácil reconhecer que as mulheres ainda não possuem uma representação significativa nos níveis superiores de administração das empresas e têm uma presença tímida como palestrantes em congressos e até mesmo em sala de aula e, em especial, nos cargos de direção de universidades. 

Mesmo que vagarosamente, esse cenário vem mudando. Um estudo feito em 2015 no Brasil mostrava que 7% das mulheres tinham o cargo de CEO (Chief Executive Officer – Diretora Executiva) em empresas. E, em 2019, a porcentagem de mulheres diretoras já aumentou para 10% [1]. Mesmo assim ainda é uma parcela muito pequena ao considerar que, em 2019, mais da metade da população do Brasil era de mulheres (51,8%) [2]. Por uma participação igualitária, tal proporção deveria ser refletida na distribuição dos cargos.

Uma das justificativas para o aumento da representatividade feminina é o surgimento de exemplos de mulheres em funções que antes eram atreladas aos homens, tal como às áreas de ciência e tecnologia. Inclusive, é o que as pesquisas apontam, a pesquisadora e professora Carolina Brito explica :

“uma das causas apontadas por pesquisas para a baixa procura de cursos relativos a C&T, por mulheres, é a ausência de modelos (RAO et al., 2002; IVIE, CZUJKO e STOWE, 2002). Muitas meninas não se enxergam seguindo estas carreiras porque não conhecem outras pessoas que tenham seguido este caminho” [3]

A divulgação de mulheres que atuam nessas áreas antes centralizadas nos homens é uma importante ação para um efeito espelho na sociedade, de modo a incentivar que outras mulheres se sintam capazes de também conquistarem por elas mesmas mais espaços de poder. Por isso, se você está lendo este post e quer fazer parte da mudança, convide uma mulher para fazer palestras, vote em uma mulher, defenda uma mulher quando alguém a estiver agredindo – verbal ou fisicamente -, incentive uma menina a sonhar além! 

Acredite, juntas somos mais! e lembre-se que “Lugar de mulher é onde ela quiser!”

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O projeto Meninas na Ciência é um projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que incentiva meninas e mulheres a entrarem e permanecerem em áreas como a ciência e a tecnologia (C&T).

O que é o projeto

O projeto Meninas na Ciência é um programa de extensão do Instituto de Física da UFRGS, iniciado no final de 2013 com o objetivo de atrair meninas para as áreas de ciências exatas e tecnologia, além de estimular mulheres que já escolheram essas áreas a persistirem e se tornarem agentes no desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.

Para que projetos como este se tornem uma realidade, é essencial o investimento financeiro, como explicam as coordenadoras: “O projeto foi catalisado pela abertura de um edital do CNPq/MCTI/Petrobrás intitulado ‘Meninas nas ciências exatas, engenharia e computação’. Este edital foi, digamos, a ‘gota d’água’ que precisava para colocar no papel as ideias e começar a executá-las!”.

Para quem é o projeto?

Como indicam o lema e os objetivos do projeto, ele é destinado principalmente a qualquer menina/mulher interessada ou atuante na área de ciência e tecnologia, sem distinção de classe social e faixa etária. O programa inclui desde a formação de estudantes até a orientação de professoras ou, em geral, de qualquer pessoa disposta a aprender sobre o protagonismo feminino, especialmente na ciência. Para isso, há o incentivo para que alunos de graduação ensinem disciplinas em escolas públicas, além de atividades diversas realizadas com a comunidade acadêmica e comunidades carentes para promover a desconstrução da visão de um papel estereotipado da mulher na sociedade.

Inscrições e condições para participar

As ações do programa são diversas, portanto, não há uma maneira única de participar, sendo o mais indicado acompanhar o site e as redes sociais (Instagram, Facebook, Flickr), como explicam as professoras que desenvolvem o projeto:

Temos muitas ações e para cada tipo de ação a seleção pode ocorrer de maneira diferente. Um dos principais tipos de ações que realizamos ocorre em parceria com escolas. Por exemplo, nos anos de 2018 e 2019 realizamos a oficinas de robótica na escola Odila Gay, onde as meninas se inscreveram na oficina por um questionário e foram posteriormente selecionadas com ajuda da professora da escola.

Dentre as ações realizadas, incluem-se:

(informação copiada do site Meninas na Ciência)

Atualmente como está sendo o projeto? 

O projeto está estruturado como extensão da UFRGS, pois o objetivo é a consolidação como referência em educação científica e de gênero. A principal ação realizada é a oficina de ciência e discussão de gênero em escolas públicas, pois a educação básica é o ponto de partida para a formação das primeiras expectativas de futuro e planejamento de carreiras. O estímulo à produção científica pelas mulheres continua no ambiente universitário, onde são realizadas reuniões quinzenais e mesas redondas entre alunos e alunas de graduação para debater temas relacionados às questões de gênero [3].

Uma importante iniciativa do projeto que está em execução é um mapeamento de ações similares que promovam a igualdade de gênero, conforme informam as professoras do projeto:

“Estamos com várias campanhas em andamento nas redes, um projeto de mapeamento de ações Mulheres e Meninas Cientistas no Brasil. Pesquisas como a de impacto do Lugar de Mulher, um programa em parceria com a UFRGS TV e a campanha #NaUFRGSTemNegras que visa mapear o números de alunas negras na UFRGS e incentivar a entrada de mais meninas negras na universidade.”

Outra ação desenvolvida frequentemente pelo projeto é a produção audiovisual “Lugar de Mulher”, que tem como objetivo divulgar entrevistas com mulheres que trabalham em profissões relacionadas à área de exatas. Por exemplo, nesse ano de 2020, os vídeos que estão sendo produzidos são entrevistas com cientistas que abordam temas para desvendar mitos. Tais vídeos podem ser acompanhados no canal de YouTube do projeto [4].

Resultados e experiências 

Uma das atividades com destaque durante o desenvolvimento do projeto foi o curso de Robótica. A área está concentrada nos meninos e também em escolas privadas. O Meninas na Ciência levou o curso para a rede pública de ensino com formação de turmas em sua maioria de alunas, como apontam as Professoras Diana e Daniela ao relembrarem a oficina de robótica realizada no Colégio Odila Gay da Fonseca:

“Em 2018 foi meu primeiro ano no projeto, e no final do ano as meninas da escola Odila realizaram uma exposição com os projetos que trabalhamos com elas durante o ano. Foi muito bonito ver elas apresentando para os colegas o trabalho que fizeram e tinham meninos que perguntavam “porque só meninas” e queriam mostrar que eles sabiam dos programas, o famoso mansplaining. E elas sabiam se impor e argumentar e mostraram que elas também entendiam de robótica. É bom ver essas meninas tão jovens empoderadas.”, diz a Diandra da Silva Machado, aluna de licenciatura em física, bolsista do projeto. 

“Para mim um dos momentos mais marcantes foi a roda de conversa que realizamos no Colégio Estadual Odila Gay da Fonseca no encerramento das ações financiadas pelo edital Elas nas Exatas, com a presença de avaliadoras do projeto representando o Fundo Elas e a Fundação Carlos Chagas. Neste dia as meninas participantes das oficinas nos contaram como foram impactadas em suas vidas, no âmbito familiar e escolar, bem como criaram uma rede de solidariedade e sororidade entre elas. Me impactou a força dos depoimentos e como elas passaram a de fato se enxergar como pessoas capazes de definir sobre suas vidas. Como passaram a perceber que muitas das coisas que aconteciam a elas e das relações as quais estavam envolvidas e que inicialmente eram “normais”, são fruto do contexto sócio-cultural em que estão inseridas e que, portanto, não são naturais, mas construídas.”, enfatiza a Professora Daniela Pavani.

Já a Professora Carolina Brito destaca a importância da aproximação de alunas da escola pública com o ambiente universitário, de modo que elas considerem a graduação uma opção:

“um dos momentos mais marcantes para mim foi quando levamos aproximadamente 40 alunas de uma escola pública que fica há aproximadamente 2km do campus da universidade e nenhuma delas conhecia alguém que tivesse ido à universidade. Muitas nem sabiam que a universidade é gratuita! Neste momento, elas se dão conta de que a universidade é um caminho possível!”

Dentre tantos exemplos, é possível notar que o projeto tem alcançado o seu objetivo de tornar a ciência uma opção para as meninas. 

Impacto

Muito já foi discutido sobre a importância de tornar o ambiente da ciência e tecnologia mais diverso, visto que a multiplicidade de origens e experiências de vida garante uma variedade de pontos de vista que podem beneficiar o processo científico e a resposta para problemas que antes nunca haviam sido levantados.

Estudos apontam [4] que desde cedo meninas se sentem menos confiantes em relação ao seu desempenho em exatas e até mesmo professores tendem a dar notas melhores para os meninos, quando sabem o nome dos alunos, e maiores para as meninas quando a correção é anônima.  

⊳ Isso impacta diretamente na visão que as mulheres têm de suas capacidades e nas escolhas que fazem para suas profissões, a chamada segregação horizontal. Promover o encontro dessas meninas com mulheres que já estão inseridas nas universidades e trabalham na área permite a elas conhecer exemplos de sucesso e se inspirarem para seguir carreiras de C&T.

O projeto “Meninas na Ciência” da UFRGS ainda tem o benefício de focar na permanência de mulheres nessas áreas, e não somente em sua entrada. Dados do Pnad (2009) [5] apontam que 79% das mulheres que ingressam em formações relacionadas à área de TI abandonam a faculdade ainda no primeiro ano, devido ao ambiente machista e pouco receptivo. 

⊳ E isso impacta de maneira ainda mais cruel mulheres negras, que têm que enfrentar um combo de machismo e racismo, além da falta de exemplos. Para se ter uma ideia, um levantamento realizado pelo Grupo de Gênero da Escola Politécnica da USP revelou que, em 120 anos de existência, a instituição não havia formado nem 10 mulheres negras.

Portanto, é essencial que projetos como o da UFRGS inspirem outras universidades e se espalhem por todo o Brasil e nós, do Incentivando Elas na Ciência, buscamos dar visibilidade a esses trabalhos, para que as meninas e mulheres possam conhecer cada vez mais as suas opções.

Se você ou sua instituição trabalham com projetos de incentivo, entre em contato conosco. Ficaremos muito felizes em divulgar o seu trabalho. 

Para saber mais informações do projeto, acesse o site: https://www.ufrgs.br/meninasnaciencia/

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Agradecimentos

Agradecemos às integrantes do projeto pelas respostas do questionário:

Coordenadora Dra. Carolina Brito e Vice-Coordenadora Dra. Daniela Pavani.

Bolsistas em 2020: Ana Landgraf Rizzato, Diandra da Silva Machado, Francini da Silva Santos, Isadora Schneider Junqueira, Katieli Abreu Rodrigues.

Voluntárias: Marlise Moreira e Vitória Gomes.

#MulheresEmAção #NaUFRGSTemNegra #IncentivandoElasNaCiência #Feminismo #Equidade 

(imagens compartilhadas com o blog pelas coordenadoras)

Autoras: Gabriela F. Ferreira, Carolina F. Ferreira, Luisa Fernanda Ríos Pinto, Regiane A. Oliveira, Paula Penedo.

Referências

[1] https://gptw.com.br/conteudo/artigos/representatividade-mulher/

[2] https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18320-quantidade-de-homens-e-mulheres.html#:~:text=Segundo%20dados%20da%20PNAD%20Cont%C3%ADnu,estimativa%20superior%20a%20das%20mulheres.

[3] BRITO, Carolina; PAVANI, Daniela; JÚNIOR, Paulo Lima. Meninas na ciência: atraindo jovens mulheres para carreiras de ciência e tecnologia. GÊNERO, Niterói, v. 16, n. 1, p. 33-50, 2. Sem. 2015.

[4] https://www.programaria.org/especiais/mulheres-tecnologia/ 

[5] https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/176888/TCC_Daiani_Fagundes.pdf?sequence=1 
Plataforma (mapa): https://www.ufrgs.br/meninasnaciencia/mnc-no-brasil

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