11 de fevereiro – Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência

Hoje é dia de comemorar as nossas vitórias 

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O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, comemorado em 11 de fevereiro, foi implementado pela UNESCO e pela ONU Mulheres em 2015. A data foi estabelecida como uma oportunidade para promover o acesso pleno e igualitário e a participação de mulheres e meninas na ciência, garantindo educação e que suas ideias sejam ouvidas e alavancas para o desenvolvimento e a paz.

Atualmente, apenas 30% dos pesquisadores em todo o mundo e 35% dos alunos matriculados em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) são mulheres. Além disso, mulheres nessas áreas publicam menos, recebem menos por suas pesquisas e não progridem tanto quanto os homens em suas carreiras.

Frequentemente, as meninas são levadas a acreditar que não são inteligentes o suficiente para estudar e trabalhar com STEM ou que meninos e homens têm afinidade natural com a área, mas apesar desses contratempos, mulheres continuam a liderar pesquisas inovadoras. Ao criar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a ONU Mulheres acredita que “nosso futuro será marcado pelo progresso científico e tecnológico, que só pode ser alcançado quando mulheres e meninas são criadoras, proprietárias e líderes da ciência, tecnologia e inovação. Reduzir a lacuna de gênero em STEM é vital para criar infraestrutura, serviços e soluções que funcionem para todas as pessoas.” Afinal, lugar de mulher é onde ela quiser!

Caso polêmico da revista Nature em 2020

A desigualdade de gênero na Academia é abismal, especialmente nas áreas de Exatas. E apesar de pequenos avanços nas universidades e na políticas públicas contra a discriminação, as mulheres ainda são muito subrepresentadas. 

Comparativamente, mulheres ganham menos, levam mais tempo para obter estabilidade, ocupam menos cargos de alto nível, além de receberem menos subsídios e bolsas de estudo, entre outros [1]. Ao mesmo tempo, espera-se que as mulheres na Academia trabalhem mais, produzam mais pesquisas, participem de vários projetos, assumam mais horas de serviço e ensino, cuidem de seus alunos, ouçam e mostrem compaixão por seus colegas e superem os acadêmicos do sexo masculino, apenas para talvez ter oportunidades e tratamento iguais. Essa pressão desigual e constante sobre as mulheres também pode desencadear a síndrome do impostor, causando muitas vezes o burnout (cansaço extremo) e a depressão.

Neste contexto, o machismo estrutural pode ser notado até em publicações em revistas renomadas como a Nature, que deveriam passar por uma avaliação rigorosa que inclui editor(es) e revisor(es) e a governança de inclusão. Um estudo da Nature Communications, publicado em 17 de novembro de 2020 por pesquisadores da Universidade de Nova York em Abu Dhabi, propôs avaliar o impacto da orientação acadêmica. Nele, os autores sugeriram que cientistas mulheres com mentoras têm piores resultados na carreira, indicando que o gênero poderia ter alguma implicação no desempenho acadêmico dos alunos [2], o que provocou indignação na mídia social e críticas aos métodos adotados. 

Após uma repercussão enorme, o artigo tornou-se um dos 20 mais visualizados no site da revista [3], porém com diversos pesquisadores (inclusive brasileiros) apontando o sexismo por trás das conclusões e as falhas na metodologia [4,5]. A Nature abriu então uma investigação que culminou na retirada do artigo no dia 21 de dezembro de 2020.

Apesar do estudo duvidoso que reforçou o machismo, este se tornou um exemplo positivo para demonstrar que a Academia e a sociedade em geral estão dispostas a combater preconceitos. 

Artigo que foi retirado

Vieses cognitivos 

O caso da revista Nature é um ótimo exemplo de como os vieses cognitivos podem influenciar a ciência. Frequentemente, ouvimos que a ciência não deve discutir questões de gênero porque ela deve ser neutra e objetiva, mas é na ausência dessas discussões que corremos o risco de termos resultados impactados pelo sexismo. 

Pesquisadores são seres humanos e não estão imunes às influências das mesmas emoções e preconceitos que permeiam as relações sociais. Mas, se nos recusamos a pensar no assunto, não temos como enxergar as formas com que essas relações influenciam o fazer científico. 

A pesquisa da Nature apresentava diversas falhas metodológicas que foram apontadas pelos revisores, mas desconsideradas pelos editores na hora de publicar. Chamam atenção as escolhas questionáveis e arbitrárias, como a definição de “senioridade”, feita com base em quantos anos haviam se passado desde a primeira publicação do autor ou a conclusão de que havia uma relação de mentoria entre dois pesquisadores apenas pelo fato deles terem publicado um artigo em conjunto, sem levar em consideração que é comum haver parcerias entre pessoas com pouca ou nenhuma interação na academia [6]. 

Além disso, o estudo se baseou no número de citações dos artigos para avaliar o sucesso na carreira dos cientistas. Além de não ser o único modo de medir o sucesso profissional, outras pesquisas já mostraram que homens citam os próprios trabalhos com mais frequência do que as mulheres [7] e que acadêmicos tendem a considerar que um artigo tem melhor qualidade quando acreditam que ele foi escrito por homens [8]. 

No final, os dados encontrados pela pesquisa apontavam a existência de um possível sexismo na avaliação dos artigos pela Academia. Mas, o viés de gênero dos pesquisadores os levou a concluir que o problema era a presença de mulheres nas pesquisas, a ponto de sugerir que elas deveriam evitar parcerias com outras mulheres, e não a existência de um sistema que desvaloriza as contribuições femininas. 

Ciência e a imparcialidade

A realização da ciência deve ser possibilitada a quem pretender produzi-la. A história demonstra que houve uma predominância masculina no protagonismo científico. Mas isso nunca decorreu de qualquer ineficiência da mulher. Ao contrário, a mulher foi preterida de tempo e de contexto político e social para se dedicar à ciência, eis que ela foi submetida aos cuidados da família. Com advento dos direitos fundamentais, por exemplo, o direito político de votar, os direitos sociais ligados à saúde, ao trabalho, à educação, as mulheres passaram a conquistar espaço na comunidade científica. 

Na produção da ciência, a metodologia de pesquisa não pode apresentar qualquer juízo particular de valor e de discriminação. Ou seja, a pesquisa não pode ter uma perspectiva de valor que corresponda ao interesse subjetivo e privado do pesquisador. A investigação deve ser feita com base nos resultados alcançados com o objeto de análise baseado em fatos concretos. Fatos que contenham neutralidade e que não violem um ambiente democrático, eis que a ciência exige um espaço de convivência múltipla de opiniões para o devido debate [9].

Por isso que a pesquisa veiculada pela revista Nature sobre a orientação acadêmica por mulheres causou espanto na comunidade científica. O objeto da pesquisa envolveu um juízo de valor utilizando-se um critério pessoal sobre o gênero. Já houve um julgamento antes mesmo de realizar a investigação. O juízo de valor de que as mulheres não sabem orientar, prejudicando o ensino. O resultado violou o ambiente democrático, pois excluiu as mulheres da ciência quando, na verdade, deveria incluí-las. 

Nesse sentido, percebe-se que é extremamente importante a existência de dias como o de hoje que incentivem as mulheres e as meninas na ciências, pois elas são capazes de produzir conhecimento, tal como os homens. A produção da ciência não está ligada ao gênero de uma pessoa, mas na sua dedicação e estudo. Ainda bem que as mulheres estão cada vez mais empoderadas para assumir pesquisas e produzir ciência. O protagonismo das mulheres é tão importante para que pesquisas como a publicada pela Nature não permaneçam mais no mundo acadêmico. 

É preciso a mobilização social para que não haja qualquer retrocesso. Aliás, a mobilização pode começar pelos comportamentos, a exemplo de uma menina que quiser realizar uma pesquisa procurar por uma mulher para orientá-la. 

Mulheres e meninas na ciência

Já vimos que ainda enfrentamos muitos preconceitos, mas estamos caminhando por um bom caminho e temos tido bons resultados, o que se deve ao movimento atual de promover o trabalho entre mulheres e ao apoio recebido por outras mulheres. Trabalhos como os que fazem a Marcia Barbosa e a Carolina Brito em questão de mulheres na ciência fazem com que tudo valha a pena. Elas mostram que as mulheres representam 60% das pessoas com ensino superior no Brasil, mas onde estão todas essas mulheres? Segundo Carolina Brito, a desigualdade em cursos é muito relevante e existe uma segregação por áreas. As mulheres vão maioritariamente para as áreas de sociais, representando 37%, para as biológicas 14% e para as exatas somente 4%.

Realmente não vemos muitas mulheres para nos representar pois em suas carreiras profissionais acontece um fenômeno denominado “teto de vidro”, o qual pressupõe que a produtividade das mulheres é menor que a capacidade de produção dos homens, e por isto, são os homens que chegam em maior porcentagem a cargos elevados em todas as áreas. Como muitas mulheres infelizmente acreditam na baixa produtividade e não questionam esses estereótipos da sociedade, não rompem esse teto de vidro não ocupando cargos superiores. Para que as mulheres consigam romper este fenômeno, precisamos primeiramente superar os preconceitos e acreditar cada vez mais em nós mesmas, aprendendo a trabalharmos juntas e nos ajudarmos.

As convidamos para que façam a inscrição no curso “Feminismos – algumas verdades inconvenientes” da plataforma Lúmina de cursos online da SEAD/UFRGS e produzido pelo NAPEAD – produção multimídia para a Educação. Através deste link.

Feliz dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência!

Juntas somos mais fortes!

Por mais mulheres na ciência!

Por mais meninas na ciência!

Agradecimentos

Agradecemos a Mônica Morais Lima pela arte.

Autoras: Paula Penedo P. de Carvalho, Luisa F. Ríos Pinto, Carolina F. Ferreira, Gabriela F. Ferreira, Regiane A. de Oliveira

Referências

[1] https://medium.com/the-faculty/women-under-representation-in-academia-3e950e02d699

[2] https://www.sciencemag.org/news/2020/12/researchers-retract-controversial-female-mentorship-paper

[3] https://www.batepapocomnetuno.com/post/como-validar-o-machismo-estrutural-com-uma-publica%C3%A7%C3%A3o-mal-feita

[4] https://jornal.usp.br/radio-usp/as-falhas-metodologicas-de-artigo-que-associa-genero-a-impacto-cientifico/

[5] https://noticias.ufsc.br/2020/12/professoras-da-ufsc-comentam-falhas-metodologicas-e-sexismo-de-artigo-publicado-em-revista-cientifica-internacional/

[6] 

WESSEL, Lindzi. After scalding critiques of study on gender and mentorship, journal says it is reviewing the work. Science Mag, nov. 2020. Disponível em: 

https://www.sciencemag.org/news/2020/11/after-scalding-critiques-study-gender-and-mentorship-journal-says-it-reviewing-work

[7] 

FÁBIO, André Cabette. Por que acadêmicos homens citam mais os próprios trabalhos do que mulheres. Nexo Jornal, Ago. 2016. Disponível em: 

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/08/02/Por-que-acad%C3%AAmicos-homens-citam-mais-o-pr%C3%B3prio-trabalho-do-que-mulheres?trk=pulse-det-art_view_ext

[8] 

Knobloch-Westerwick S, Glynn CJ, Huge M. The Matilda Effect in Science Communication: An Experiment on Gender Bias in Publication Quality Perceptions and Collaboration Interest. Science Communication. 2013;35(5):603-625. Disponível em: 

https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1075547012472684 [9] LACEY, Hugh. A imparcialidade da ciência e as responsabilidades dos cientistas. Sci. stud., vol. 9, nº 3, São Paulo, 2011. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662011000300003 Acesso em 08 fev 2021.

Fonte da Imagem: Banco de Imagens

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