Como conter um apocalipse zumbi?

Apocalipses zumbis são temas muito comuns em filmes, séries, animes e jogos. Vários podem ser os motivos que levam a um apocalipse zumbi, desde um macaco-rato-da-sumatra, exposição à radiação, materiais extraterrestres, misticismo/feitiçaria, nanorrobôs, até o favorito da mídia e dos fãs de Resident Evil, um fator biológico (como um vírus ou a cura de um vírus). Outras produções simplesmente não mencionam (ou não percebi se mencionam) uma origem, por exemplo, Madrugada dos Mortos 1, 2, 3, … nestes filmes os zumbis aparecem do nada e a história segue.

Porém vamos estragar um pouco da “diversão” que seria viver em um apocalipse zumbi do tipo biológico. Sim, este é um tema divertido e esperançoso para várias pessoas que sonham sair por ai com armas em mãos, lutando contra hordas zumbis e vivendo as aventuras estilo “Walking Dead” (e é claro, sobreviver).

Para facilitar nossa análise e dar uma chance pros nossos zumbis, vamos supor de forma super otimista, que a mesma energia do corpo seja aproveitada na forma de alimento por quem consome (sabemos que isso não é verdade, mas mostraremos que mesmo se fosse, a coisa não ficaria boa para os zumbis).

Consideraremos também que eles comam apenas a carne de humanos… pois se eles comessem a carne de outros animais, seu “controle de natalidade” seria simplificado, e se eles comerem vegetais ou fungos, bom, ai já começaria a virar piada (por favor, sirva um prato de brócolis com alcaparras ao vinho para este zumbi).

Sabemos que o recorde mundial de tempo sem comer, é do ilusionista carioca Ericson Leif, que ficou 51 dias a base de água. Assim, podemos dizer que uma pessoa em condições ideais e com metabolismo suficientemente lento, possa sobreviver este período com uma carga energética inicial de X calorias (sendo X o número de calorias que Ericson Leif tinha acumulado antes de ficar este período em jejum).

De forma ultra otimista, diremos que todos os seres humanos antes de virarem zumbis, tenham a disposição estas X calorias. E que após virarem zumbis, seu metabolismo funcione de forma suficientemente lenta para manterem em atividade sem ingerirem nenhum alimento por até 51 dias (Ericson Leif ficou em repouso, mas estamos dando uma chance aos zumbis, por isso assumimos que eles podem se mover livremente neste mesmo período).

Assim chegamos a nossos zumbis e dois comportamentos representativos.

  1. O zumbi apenas “mordisca” outro ser humano para que ele vire um zumbi com reserva energética muito próxima de X;
  2. O zumbi come a carne de outro ser humano até que sua reserva energética retorne a X.

ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 1

Neste contexto, um zumbi não come para repor seu estoque energético e sim para proliferar o fator biológico. Assim, cada zumbi começará sua jornada com X de energia, e o zumbi que mordeu a pessoa, manterá seu Y de energia restante, sem reposição.

A vantagem para os sobreviventes diante este comportamento, é que podemos determinar quanto tempo resta para os zumbis conhecendo as datas e quantidades de vítimas em cada ataque. Por exemplo:

Dia 0 – Existiam 10 zumbis;
Dia 14 – 3 pessoas foram atacadas; (total 13 zumbis)
Dia 26 – 1 pessoa foi atacada; (total 14 zumbis)
Dia 38 – 2 pessoas foram atacadas; (total 16 zumbis)
Dia 42 – 15 pessoas foram atacadas; (total 31 zumbis)
Dia 51 – os 10 zumbis do dia 0 pararam de funcionar; (total 21 zumbis)
Dia 53 – 4 pessoas foram atacadas; (total 25 zumbis)
Dia 65 – os 3 zumbis do dia 14 pararam de funcionar; (total 22 zumbis)

Nessa perspectiva, diante um volume intratável de zumbis localizado em uma mesma região, vamos supor que toda a população da cidade de São Paulo virou zumbi, ou seja aproximadamente 12.195.000 de zumbis, o que fazer?

Uma pessoa em caminhada leve movimenta-se a 4 km/h. Um zumbi caminhando nesta velocidade por rodovias e sem interrupções, percorreria 96 km ao dia, dando-lhes um pouco mais de vantagem vamos arredondar esta distância para 100 km ao dia. Em seus 51 dias de energia, ele poderia percorrer até 5.100 km. Como zumbis não usam GPS, não se orientam com mapas e nem tem um propósito muito claro, estamos lidando com uma cadeia de Markov, ou seja, eles podem mover-se em qualquer direção (para simplificar, digamos norte, sul, leste e oeste apenas). Assim, digamos que a cada dia um zumbi tomaria uma decisão sobre para qual direção seguir.

Simulando este comportamento para um número menor de zumbis, 243.900 (apenas 2% do total), chegamos que em seus 51 dias de caminhada, apenas 4.619 zumbis (1,8% dos 243.900 analisados) afastaram-se da origem a uma distância de pelo menos 1.500 km.

Aplicando o resultado desta simulação para o contexto de São Paulo capital, podemos estimar que 219.510 zumbis percorrerão a uma distância de pelo menos 1.500 km.

Distribuindo estes zumbis pelo perímetro de um círculo com 1.500 km de raio, temos 219.510 zumbis a serem distribuídos por 9.424 km. Isso nos dá cerca de 23 zumbis a cada 1 km.

Assim, em cidades localizadas a 1.500 km de São Paulo, como por exemplo Cuiabá (MT), que tem aproximadamente 26 km na sua maior dimensão, poderíamos esperar a aparição de aproximadamente 600 zumbis (pode parecer muito, mas lembre-se que estamos falando de um surto inicial na faixa de 12 milhões).

ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 2

Neste contexto, o zumbi ao encontrar um ser humano, repõe sua energia para X, fazendo com que o novo zumbi comece sua “jornada” com uma reserva energética inferior a 51 dias. Não há uma diferença entre este comportamento e o anterior, pois se considerarmos que os zumbis são fisicamente iguais, quando o zumbi com Y de energia restante, encontra uma pessoa, no momento seguinte passamos a ter um zumbi com X de energia e um zumbi com Y de energia. A situação é igual aquela apresentada no comportamento 1 a menos de uma comutação entre zumbis.

CONCLUSÃO

Assim, a melhor estratégia para sobreviver no caso de um conglomerado de zumbis de natureza biológica, é nos afastarmos do epicentro, mantermos uma vigilância rígida nas fronteiras e termos paciência até que a quantidade de zumbis seja mais fácil de controlar.

PÓS-CONCLUSÃO

A ideia de viver uma pandemia zumbi não é incomum em conversas banais entre amigos, bem como as estratégias de sobrevivência… mas será que seguiríamos mesmo as estratégias de sobrevivência em uma pandemia zumbi, em que contatos precisam ser evitados ao máximo e qualquer saída na rua para buscar suprimentos básicos já pode ser considerado um risco potencial?
Ou será que faríamos como os filmes e não acreditaríamos no que está acontecendo e tentaríamos fingir normalidade promovendo saídas de casa para encontrar pessoas sem saber se elas foram infectadas ou não?

Uma pandemia biológica requer afastamento dos epicentros, vigilância rígida de fronteiras, contenção e tratamento de doentes, no mínimo isolando-os e muita, muita paciência para nos mantermos bem e saudáveis até que a quantidade de infectados por Coronavírus, digo, zumbivírus seja possível de ser controlada (com vacinas, por exemplo!).

Agradeço a meu amigo Mago do Código, por insistir veemente que um apocalipse zumbi do tipo biológico como acontecem em filmes/séries/jogos seria insustentável, tais discussões renderam a elaboração deste post 🙂

Também agradeço à professora Ana Arnt, pela pós-conclusão, que conecta o cenário hipotético de um apocalipse zumbi às medidas de contenção para pandemias biológicas gerais, tais como aquela em que estamos vivendo pelo Coronavírus.


Como referenciar este conteúdo em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023/2018):

SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Como conter um apocalipse zumbi?. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Zero – Blog de Ciência da Unicamp. Volume 3. Ed. 1. 1º semestre de 2020. Campinas, 11 jun. 2020. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/zero/2183/. Acesso em: <data-de-hoje>.

6 thoughts on “Como conter um apocalipse zumbi?

  • 11 de junho de 2020 em 15:38
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    Interessante… Mas acho precisamos mudar algumas premissas:
    – Movimento aleatório: várias fontes mostram que zumbis tem certa inteligência. É mais provável que o movimento de exploração seja uma caminhada aleatória autocorrelacionada e/ou siga o caminho de menos resistência (estradas) e ao detectar uma fonte de alimento seja direcionado a ela.
    – Metabolismo: seres humanos são animais de sangue quente e mesmo em repouso têm um mooonte de coisa acontecendo, que zumbis não têm. Um zumbi em repouso basicamente precisa impedir sua decomposição. Assim é provável que consiga ficar mais dias ainda 🙂

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  • 11 de junho de 2020 em 19:29
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    Vejo algumas falhas nas suas premissas…
    – Movimento aleatório: estou supondo (ou pelo menos na minha cabeça quando escrevi o texto estava supondo), que houve uma evacuação de São Paulo em um raio de 1.500 km. Logo, a movimentação deles é induzida por elementos, porém não de fator humano. Por isto estipulei que fosse até um certo grau aleatório. Outro ponto, estipulei na simulação que cada decisão dele repercutisse a direção para caminhar aquele dia inteiro, ou seja, sorteia-se a cada dia para qual sentido ele se moverá 100 km. Não estou pensando em zumbis bobos-alegres que andam de um lado para o outro da rua por 24h seguidas, mas também estou assumindo que mesmo uma pessoa, chegaria em um ponto que se não tivesse orientação nenhuma para onde ir, poderia não saber se esta andando em círculos (suponha que não utilize o sol como referência).
    – Metabolismo: estou comparando “um ser humano” bastante peculiar, que resistiu 51 dias em repouso ingerindo apenas água, com zumbis que por definição caminham 100 km por dia sem descanso e sem água… por isso acho que o limite de 51 dias parece mais do que justo para os zumbis. Estipular um período maior é um tanto exagerado, é como se ele fosse um “exterminador do futuro”.

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    • 16 de fevereiro de 2021 em 12:30
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      Como assim???????????

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      • 2 de maio de 2021 em 20:09
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        Eles iriam correr ou só andar?

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        • 2 de maio de 2021 em 21:46
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          Oi Miguel, dado que nessa ‘suposição’, eles percorreriam 100 km por dia, sairia um pouco mais de 4 km/h, o que é uma velocidade de caminhada.

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