Você enganaria seu Personal Trainer?

Se imagine na academia, quando seu Personal Trainer te pede para fazer determinado exercício (tipo flexões, abdominais, agachamentos, …). Porém você percebe que o Personal Trainer está distraído, você tentaria enganar seu Personal Trainer dizendo que fez, enquanto na verdade ficou descansando?

Não. Pois não faz sentido enganá-lo, uma vez que o principal beneficiado pelo treino é você mesmo. Enganar o Personal Trainer não vai te deixar mais próximo de alcançar o que você busca frequentando aquela academia.

Agora imagine uma aula de matemática, seja na Educação Básica ou no Ensino Superior. O professor trabalha um conteúdo durante determinado período e então entrega para cada estudante uma prova, o gabarito e pede que façam a prova nas suas casas no prazo de uma semana, corrijam-na com base no gabarito e tragam na semana seguinte com a nota que cada um obteve. Você engaria seu professor copiando as respostas do gabarito, ou se dando uma nota alta independente das respostas estarem realmente certas?

Nesta situação a moral pode nos levar a dizer que não faríamos isto… mas a tentação parece existir, né? Assim, a questão que trago para você leitor é, o que diferencia esta situação da prova de matemática com a do treino da academia?

Não vamos mentir, a situação parece muito diferente sim XD

Vamos propor outra situação para enxergar melhor este problema. Seu professor de matemática do cursinho pede para a turma resolver provas anteriores de um exame e que tragam dúvidas para ele na aula. Faz sentido simplesmente copiar os gabaritos destes exames e dizer para o professor que não há dúvidas?

(vou copiar parte da resposta usada no caso do Personal Trainer) Não. Pois não faz sentido enganá-lo, uma vez que o principal beneficiado pelo treino é você mesmo. Enganar o professor não vai te deixar mais próximo de alcançar o que você busca frequentando aquele cursinho.

Agora olhando nestes três casos, o que muda?

Toda a questão parece girar na falta de um sentido para o que está sendo realizado na aula de matemática, ao mesmo tempo que há uma cobrança de apresentar determinado desempenho. Se esta cobrança não existe, chegamos na situação do cursinho ou da academia. No momento em que obter uma nota elevada é difícil, ela passa a ter um objetivo por si mesma. Fica de exemplo um trecho da música do Gabriel o Pensador de 1995, chamada “Estudo Errado”.

Manhê! Tirei um dez na prova
Me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem me reprova
Decorei toda lição
Não errei nenhuma questão
Não aprendi nada de bom
Mas tirei dez (boa filhão!)
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi

Nessa música fica evidente que o objetivo de aprender pode se confundir com o objetivo de tirar uma boa nota. Assim chegamos no ponto crucial desta discussão, tirar notas boas é o mesmo que aprender? Na teoria deveria ser, mas na prática não!

Isto porque diversos fatores podem te levar a obter uma boa nota, você pode ser bom em memorizar, você pode ser bom em colar, você pode ter sorte de estudar o conteúdo exato que ia cair na prova… assim como diversos fatores podem te levar a aprender e não ter uma boa nota, como a sua memória não ser boa, confundir notações, levar mais tempo do que o disponível para responder a prova, não dormir direito, não se alimentar direito, sofrer de ansiedade ao ser avaliado, ou simplesmente estar em um péssimo dia.

Mas então chegamos no ponto mais divertido desta discussão, se não aplicarmos as provas durante as aulas, como podemos ter certeza de que os estudantes serão honestos na hora de resolvê-las? A resposta é que não teremos certeza e não vejo nisso um problema.

Você deseja tirar a nota máxima no momento em que precisa dela para algo, ou que obtê-la é uma tarefa difícil, ou que ela é uma condição para você ser aprovado numa disciplina. Mas se você puder controlar esta nota, exaurimos a insegurança de não conseguí-la. Você simplesmente pode determinar se considera-se apto a avançar ou não para a próxima disciplina do curso. De maneira semelhante ao professor do cursinho perguntar se você tem alguma dúvida sobre Matrizes ou se deseja avançar para o próximo conteúdo? O principal beneficiado nisto é o próprio estudante. Se ele não enxerga uma necessidade real desta disciplina para sua formação, ok, ela foi oferecida, e ele afirmou ter entendido… se isto trará consequências como profissional no futuro, a questão é que ele mesmo não foi honesto ao dizer que havia entendido. Isto pode parecer meio estranho, mas é análogo a alguém que é bom em colar nas provas.

Acho que a principal questão que resta, é se este método funcionaria para os estudantes aprenderem? Se com esta liberdade para fazer a prova e se autoavaliar de forma honesta, os estudantes viriam a aprender os conteúdos. Pra isto a resposta está no próprio estudante, se ele considera necessário aprender, ele aprenderá… uma comparação é pensarmos na inserção de aulas de esgrima obrigatórias com testes rigorosos. Veríamos os estudantes de todos os cursos e anos estudando a fundo sobre esgrima, não necessariamente porque acham legal aprender sobre esgrima, mas porque são cobrados de terem bons resultados nas avaliações. Se souberem por exemplo que os avaliadores só consideram aspectos práticos da esgrima, deixariam então de estudar os aspectos teóricos, ou o contrário. A cobrança rigorosa por meio de testes acabaria assim direcionando sua aprendizagem ao objetivo de alcançar bons escores.

Enfim, dentre em breve (se nada der muuuuuuito errado) devo assumir como professor de matemática/estatística do Instituto Federal do Rio de Janeiro :3 e pretendo dar avaliações semanais acompanhadas de gabaritos, para que os estudantes façam em casa e tragam-as corrigidas na semana seguinte. Espero que funcione, mas de todo modo, se agora que estou para ocupar a posição de docente não me colocar a tentar métodos diferentes, estarei me conformando em reproduzir a situação descrita na música “Estudo Errado”.

Para encerrar este ensaio sobre exames/testes de matemática, enxergo que o precioso tempo e espaço compartilhados entre professores e estudantes na sala de aula de matemática deva ser utilizado para aprender e ensinar matemática. Podemos nós mesmos medir nossos “rankings” ao simular as condições em que exames padronizados são realizados, tais como vestibulares, olimpíadas de conhecimento ou concursos públicos.

Créditos da imagem de capa à tjevans por Pixabay


Como referenciar este conteúdo em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023/2018):

SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Você enganaria seu Personal Trainer? In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Zero – Blog de Ciência da Unicamp. Volume 8. Ed. 1. 2º semestre de 2022. Campinas, 26 set. 2022. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/zero/4660/. Acesso em: <data-de-hoje>.

2 thoughts on “Você enganaria seu Personal Trainer?

  • 29 de setembro de 2022 em 03:45
    Permalink

    Parabéns pelo post! Essa questão tem me inquietado há muitos anos. Já dei aula de tudo quanto é tipo e, nas últimas décadas, tenho trabalhado no ensino superior. O problema é que os alunos precisam não apenas aprender o conteúdo e as habilidades ensinadas em diferentes disciplinas, mas também ser avaliados de alguma forma, por diversas razões. Primeira, porque nós, professores, precisamos testar se os nossos métodos de ensino estão mesmo funcionando. Segunda, porque os alunos precisam receber um feedback para terem certeza de que aprenderem mesmo cada tópico. Terceira, porque a sociedade precisa ter acesso a algum tipo de validação institucional dos profissionais formados por escolas, institutos e universidades. OK, mas como partir dessas motivações para uma operacionalização da avaliação, concreta, ali no chão da sala? Penso que, antes de partirmos para uma nova operacionalização, precisamos discutir o sistema educacional como um todo, e não apenas as avaliações, tomando como base a confiança mútua e a automotivação, como proposto por você.

    Resposta
    • 29 de setembro de 2022 em 09:30
      Permalink

      Bom dia Marco, realmente esta é uma questão que certamente não chegará em uma solução única, mas tentarei me posicionar quanto a cada uma das suas três situações em separado (fazê-las juntas acredito ser impossível no momento).
      Primeira: Testar se o método de ensino funciona está relacionado ao que “esperamos” ter ensinado. Se acreditamos estar ensinando fatos, queremos observar fatos, se acreditamos estar ensinando procedimentos, queremos observar procedimentos, mas se acreditamos estar ensinando a pensar, a ser crítico, a se reflexivo, não deveríamos esperar estas características? Ao colocar uma avaliação em um período de aula, sem consulta, sob vigilância e outros aspectos de pressão, estamos esperando observar a habilidade de trabalhar sob pressão, sem possibilidade de acesso a bancos de dados, e em situações desconfortáveis… será que estamos ensinando isto, para querermos observar isto? Estamos formando profissionais, ou agentes secretos?
      Segundo: Você sabe programar? Você precisa que alguém te dê o feedback se você sabe programar? Ou simplesmente você se vê diante de problemas e reconhece “se sabe” ou “se não sabe”. É necessário ter um feedback, concordo, porém isto é algo que não necessariamente está ligado a fazer uma avaliação em sala. Ouvir o feedback de um especialista é importante, claro, o especialista dirá coisas sobre meu método, fará observações que me permitem entender melhor a situação de acerto/erro/confusão… mas podemos obter feedbacks sem a presença de um especialista. Você pode não saber programar bem o bastante para criar um sistema tipo dropbox, mas você sabe disto… assim como consegue dizer quantos quilos você pode levantar na academia, o personal trainer te dará orientações sobre o jeito, a técnica, a postura, a forma de treinamento… mas você não depende dele para ir lá olhar o total de quilos que você está levantando só para garantir que você consegue mesmo fazer isto. Mas nas aulas de matemática parece que precisamos ouvir de alguém se acertamos ou erramos o exercício, porque? Por que não temos o gabarito? Não temos acesso a uma resolução detalhada do exercício? Não sei.
      Terceiro: Sobre a validação institucional que a sociedade precisa ter, eu acho que é algo totalmente relevante. Penso no caso da O.A.B. você fez Direito, e quer exercer a profissão de advogado? Ótimo, faça o exame da O.A.B.! Isto é uma validação institucional que garante que você pode exercer a função de advogado. Como é uma avaliação padronizada, não terá influência se você fez o exame no Acre ou em São Paulo. Mas pensar em provas nas aulas como esta validação é bastante subjetivo, posso fazer uma prova “tranquila”, uma prova “moderada” ou uma prova “impossível”. Que validação eu darei pra sociedade de ter aprovado ou reprovado alguém? Por exemplo, o programa de mestrado profissional em matemática em rede nacional (PROFMAT) tem provas padronizadas, você ser aprovado na qualificação deste mestrado é uma validação de que você alcançou os requisitos, independente de ter feito a prova em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Manaus, em Fortaleza…

      Sobre a última questão, de discutir o sistema educacional como um todo, acho que este é o “cenário ideal” e por vezes utópico. Quando a mudança ocorre de cima para baixo, ela é diferente de quando ocorre de baixo para cima. Acredito que na minha futura posição, eu possa tentar esta ideia, e consequentemente ela pode falhar, e eu vou entender o que falhou e o que funcionou. Quando um colega perguntar, posso responder o que vivenciei ou porque sigo determinado método, em vez de simplesmente colocar a responsabilidade da mudança para alguma instância superior imaginária… do tipo, precisamos que “Eles” mudem as regras, precisamos que isto seja decidido por “Eles”, cabe a “Eles” gerar as mudanças significativas… enfim, eu não sou “Eles”, mas faço parte do “Nós”, e para quem nos vê, “Nós” somos “Eles”.

      Viajei muito nas ideias? XD

      Resposta

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