L, você sabe para que servem sistemas de equação?
Essa semana fui com minha filha comprar ovos, e o dono do estabelecimento durante aquela conversa social comentou que o filho dele estava para começar a ver Equações, complementando que essa parte seria difícil e não sabe sequer para que serve. Pensei se valia a pena fazer uma defesa sobre o tema, pois matemáticos são a 4a pior raça que defende com unhas e dentes a sua causa (1o lugar – usuários de Linux; 2o lugar – apreciadores de café sem açúcar; 3o lugar – fãs da geração I de Pokemon), mas preferi uma resposta evasiva, disse que era difícil se ver propósito em qualquer conteúdo quando o adolescente está sendo bombardeado a semana inteira por 10 disciplinas diferentes.
Agora com calma, e sabendo que não estarei jogando pérolas aos ornitorrincos, vejo que a maior utilidade de equações não é achar o famigerado X, e sim, para um conjunto de fatos observados e mensurados, determinar um comportamento para aquele evento.
Para quem já assistiu Death Note, deve lembrar de como o L construiu sua última linha de raciocínio após tomar conhecimento do caderno (na verdade eu duvido que lembre, mas finja que lembra). A inocência do Raito era apoiada em duas situações que pessoas morreram sem que ele fizesse nenhuma ação observável. Uma delas quando haviam dezenas de câmeras em seu quarto, e dentro do pacote de batatinha frita tinha uma mini-tv, um pedaço do caderno e uma caneta, e aproveitando-se de um ponto cego, ele via o nome dos criminosos e escrevia no papel sem que as câmeras o vissem. A outra situação foi no helicóptero, logo após segurar o caderno do 3o Kira, quando ele ao recobrar momentaneamente suas memórias, ainda algemado ao L, aproveita-se de um ponto cego para destravar o compartimento secreto do seu relógio e escrever com uma agulha usando o sangue do seu dedo, o nome do 3o Kira.
Após tomar conhecimento do caderno, L se depara com uma das regras falsas, se o caderno for danificado, todos que o tocaram morrerão, e também nota que faltava um pedaço de uma das páginas (que Remu arrancou para tocar em Misa, pra que ela pudesse vê-la e ouví-la e assim protegê-la do 3o Kira). Na ocasião, L pergunta para Remu sobre o efeito de escrever o nome de alguém num pedaço removido do caderno, mas Remu (já combinada com Raito) nega saber se o efeito se aplicaria. O legal dessa cena, é que L especula sobre isso descartando a impossibilidade de Raito ter feito isso naquelas duas ocasiões mencionadas.
Mas o que isso tem a ver com sistemas de equações?
Embora tenhamos o hábito de pensar equações como equações lineares, o termo é bem mais amplo. Havendo uma ou mais incógnitas associadas por quaisquer operadores matemáticos e submetidos a uma igualdade, temos então uma equação. Por exemplo:
a) x – 1 = 0
b) sen(x) – 1 = 0
c) x² – 1 = 0
Nos três exemplos acima, temos equações, todas com soluções Reais. O item a) com apenas uma solução, o item b) com infinitas soluções, e o item c) com duas soluções.
Agora imagine que tenhamos valores observados, e saibamos a qual classe pertence a função que gerou aqueles valores. Podemos determinar então os coeficientes específicos que atendem à igualdade observada. Por exemplo, com dois pontos (x1, y1), (x2, y2) e sabendo que se trata de uma reta, temos:
a*x1 + b = y1
a*x2 + b = y2
Resolvendo este sistema, encontramos a reta que cruza esses dois pontos.
Porém, se soubessemos que se trata de uma parábola, teríamos:
a*x1² + b*x1 + c = y1
a*x2² + b*x1 + c = y2
Sem o conhecimento de um terceiro ponto, teríamos infinitas parábolas possíveis.
Agora por exemplo, se fosse acrescida a informação sobre uma terceira posição da parábola, conseguiríamos restringir seu movimento, e garantir exatamente de qual parábola estamos falando.
No caso do L, quando ele tomou o caderno em mãos, conseguiu completar as informações que faltavam para determinar que o Raito é o Kira, mas antecipando isso, o Raito inseriu regras falsas que anulavam essa hipótese.
Um paralelo a isso, seria pegar três pontos de um objeto em lançamento obliquo, por exemplo: (0, 0), (1, 1), (2, 4), que se montarmos o sistema de equação, ficaria:
a*0² + b*0 + c = 0
a*1² + b*1 + c = 1
a*2² + b*2 + c = 4
Que corresponde à função f(x) = x².
Mas se alterarmos um desses pontos, por exemplo, (2, 4) para (3, 3).
a*0² + b*0 + c = 0
a*1² + b*1 + c = 1
a*3² + b*3 + c = 3
Isso passa a corresponder à função f(x) = x, que não é uma parábola.
No caso, as regras falsas faziam com que o sistema de evidências e comportamentos analisados pelo L, chegassem que a solução do Raito ser o Kira, fosse impossível.
O mais legal é que esse é um truque que o L também usa, ao mostrar pro Raito na cafeteria, 3 fotos de mensagens escritas por vítimas do Kira, que formavam a frase “L, você sabia que Shinigamis só comem maçãs?”. Mas atrás das fotos haviam números que se colocados em ordem, a mensagem não fazia sentido. O Raito explica isso, e o L diz que é uma linha de raciocínio errada, que o mais lógico seria deduzir a ausência de uma parte da mensagem. Não deduzir isso (para alguém com um potencial dedutivo tão alto quanto o L) era um indício de que a pessoa sabia que aquela mensagem tinha apenas 3 partes, e que a suposta 4a parte era falsa.
Créditos da imagem de capa a Martin por Pixabay
Como referenciar este conteúdo em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023/2018):
SILVA, Emanuelly de Paula Dias da. L, você sabe para que servem sistemas de equação?. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Zero – Blog de Ciência da Unicamp. Volume 16. Ed. 1. 2º semestre de 2026. Campinas, 5 de agosto de 2026. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/zero/6428/. Acesso em: <data-de-hoje>.
