Será que Tenho Perfil para o Mestrado ou Doutorado?

Artigo de minha autoria, originalmente publicado em meu LinkedIn 20 de junho de 2018. Ver texto original. 15-20 minutos de leitura.

Neste artigo, analisaremos a finalidade dos diferentes tipos de pós-graduação, com o objetivo de auxiliar uma decisão com relação a tomar este passo na formação. No entanto, antes de adentrarmos na análise das características essenciais para o ingresso na pós-graduação e a sua conclusão bem sucedida, vamos definir a pós-graduação, no âmbito acadêmico. Pós-graduação é toda atividade de qualificação realizada posteriormente ao curso de graduação, e que possua como pré-requisito um curso de nível universitário concluído. Desta forma e na grande maioria das vezes, basta realizar uma graduação para ingressar na pós-graduação.

Isto é verdade, ao menos do ponto de vista burocrático. Mas será que uma pós-graduação irá ajudar a alavancar a carreira? Isso depende muito dos seus objetivos profissionais e de se alinhar o curso de pós-graduação com esses objetivos. Uma especialização, aperfeiçoamento ou atualização têm o potencial de desenvolver a carreira dentro da área na qual se inserem. São chamadas, a rigor, como pós-graduações “lato sensu” e têm foco na complementação da formação profissional, mas não conferem nenhum título acadêmico. Elas são importantes quando a formação universitária original é insuficiente para o exercício de uma determinada função, como por exemplo um engenheiro que atua na área comercial (vendedor técnico), ou um médico que atua na área administrativa (administrador hospitalar). Embora os melhores cursos de engenharia possam ter alguma disciplina de marketing e os cursos de medicina possam ter disciplinas de administração, estas disciplinas confere ao graduando apenas uma noção básica dessas áreas de atuação. Um curso de pós-graduação “lato sensu” tem como objetivo especializar ou aperfeiçoar estas competências nos profissionais.

As diferenças básicas entre especialização, aperfeiçoamento e atualização é que enquanto a especialização e o aperfeiçoamento são focados no aprofundamento do profissional em um tópico que foi visto de maneira introdutória (ou que mesmo não foi estudado), a atualização visa rever um conteúdo já estudado em profundidade durante a formação do profissional, relembrando conceitos e trazendo novidades. A especialização exige a entrega de um trabalho de conclusão de curso, enquanto o aperfeiçoamento e a atualização só exigem a presença nas aulas. Dentre as modalidades no “lato sensu”, a especialização é a que mais exige dos alunos e consequentemente a que é mais valorizada por dar mais ferramentas ao desenvolvimento das competências.

Mas e o mestrado e doutorado? Tais modalidades de pós-graduação são denominadas “strictu sensu” e são voltadas para a pesquisa. Além das disciplinas obrigatórias, exigem um trabalho final para apresentação de resultados e de discussão de um tema sobre algum tipo de experimento em um tema muito específico. O trabalho é chamado de dissertação, no caso do mestrado. No doutorado é chamado de tese. Todo o trabalho é supervisionado por um orientador, que é responsável por uma linha de pesquisa na qual o tema do trabalho experimental integra. O pós-graduando deve demonstrar o domínio do método científico e conhecer como aplicá-lo na resolução de uma problemática científica ligada à área de conhecimento do curso de pós-graduação. Ambos os trabalhos exigem ineditismo, ou seja, a pesquisa de um tema inédito, criando-se o conhecimento no processo. A diferença do mestrado e do doutorado é o grau de profundidade de cada um dos trabalhos. Ambos os trabalhos conferem titulação acadêmica e o pós-graduando é titulado como mestre ou doutor naquela área de concentração do curso. Geralmente é necessário um mestrado antes do ingresso no doutorado, exceto caso o pós-graduando já possua experiência anterior de pesquisa, como por exemplo em uma iniciação científica bem sucedida. A pós-graduação “strictu sensu” forma pesquisadores, e é essencial na formação do cientista. Existem alguns programas de pós-graduação com mestrado profissional, que é voltado para problemáticas e experimentos dentro da área da profissão do candidato e que podem ser desenvolvidos dentro de empresas. Ao fim do trabalho a pesquisa é submetida para uma banca de avaliação composta por pesquisadores especialistas que irá arguir o candidato. O título é conferido caso a banca considere o trabalho suficiente, sendo que o pós-graduando deverá mostrar competência e cultura aprofundada no tema da pesquisa.

Seja qual for a escolha, o candidato à pós-graduação deve ter uma coisa em mente: pós-graduação presume excelência. Eficiência, eficácia e efetividade são imprescindíveis ao trabalho de pós-graduação. A dedicação deve ser integral, tanto aos estudos como aos trabalhos, e a atenção aos detalhes deve ser impecável. No mestrado e no doutorado não há espaço para erros no trabalho final. Falhas metodológicas e conclusões que possam invalidar a tese são inadmissíveis.

“A pós-graduação deve ser tratada como uma profissão, um trabalho. O pós-graduando já possuí uma formação completa e é esperada uma atitude totalmente profissional.”

Desta forma, os trabalhos de pós-graduação devem apresentar desde sua concepção, um nível de qualidade e excelência superior. Qual será então o perfil desejado deste profissional já formado, que busca a excelência na pesquisa? Quais habilidades e características este profissional deve procurar desenvolver antes de procurar um programa de pós-graduação com mestrado e doutorado? O que um orientador busca em um orientado? Temos todos pontos fracos e a melhorar, mas não é possível fazer uma pós-graduação bem sucedida sem ter intenção em trabalhar todos estes pontos, afinal, é nisso que a pós-graduação encontra sua finalidade: Lapidar um profissional já formado para prepará-lo na excelência.

Características Profissionais

Não há como ser pesquisador sem ter um espírito investigativo. A curiosidade aliada à criatividade devem alimentar este espírito, e o pós-graduando deve, quase que por definição, encontrar entusiasmo em problemas e desafios de natureza intelectual. A proatividade e a capacidade de trabalhar em grupo são preponderantes, assim como a autodisciplina. Desta maneira, dentre as características profissionais desejadas para um mestrando ou um doutorando, aquelas ligadas à qualquer trabalho criativo são as mais interessantes. Um problema recorrente deste perfil é a tendência à procrastinação, visto que o trabalho científico, como toda a ocupação criativa, requer uma boa dose de inspiração. Além disso, a rotina de estudos intensa pode levar o pós-graduando a se sentir fatigado mentalmente. Estes dois fatores podem levar a uma enorme perda de produtividade. Por isso, a autodisciplina é uma característica altamente desejável, e deve ser sempre exercitada e desenvolvida. A capacidade de planejamento também deve ser muito valorizada, pois evita desgastes e desperdícios desnecessários.

O trabalho em grupo é fundamental em uma pós-graduação bem sucedida. A interdisciplinaridade do trabalho científico exige uma ótima habilidade para o trabalho em grupo, uma vez que não é possível dominar profundamente várias áreas da ciência. Desta maneira, o perfil do pós-graduando que há alguns anos era essencialmente competitivo, está se tornando cada vez mais cooperativo. No entanto, o trabalho final do pós-graduando é de única e exclusiva responsabilidade do próprio pós-graduando. Neste sentido, um equilíbrio entre espírito competitivo e postura cooperativa é muito importante para que o trabalho seja realizado com excelência. O candidato ao mestrado ou ao doutorado deve fazer o trabalho sozinho e se especializar com aprofundamento no estudo de seu tema, mas as competências deverão ser desenvolvidas em grupo. Mais importante ainda: o pós-graduando tem o dever de contribuir com o desenvolvimento das competências de seus colegas, para que o grupo se torne produtivo.

Habilidades Intelectuais

Um bom pesquisador deve conhecer todos os assuntos ligados a sua linha de pesquisa. Diligência e persistência no estudo é fundamental. Como a ciência está cada vez mais interdisciplinar, a pesquisa do tema proposto frequentemente faz com que o mestrando ou doutorando necessite se aprofundar em uma área do conhecimento muito distinta da sua formação original. Muitas vezes o pós-graduando não tem nem as bases fundamentais para o estudo desses temas. Neste momento, a independência e a capacidade intelectual de discernir estes conteúdos novos é de suma importância. O pós-graduando deve adquirir a linguagem própria da sua linha de pesquisa e compreender a terminologia de diversas áreas correlatas ao seu trabalho. Isso só se dá por meio de estudo exaustivo, algo que um estudante de pós-graduação deve encarar de maneira tranquila e segura. A importância da interdisciplinaridade na ciência, que se torna uma atividade de equipes cujos integrantes possuem formações distintas, é notória nos últimos temos. Um artigo da Nature mostra e discute a importância e os desafios da ciência neste ambiente interdisciplinar. Em um ambiente desses, é fundamental estar preparado intelectualmente para os desafios que virão.

Uma característica importante é que o pós-graduando, como todo cientista, deve transitar entre o pensamento crítico e o pensamento criativo. O pensamento criativo traz contexto ao trabalho do pesquisador e é sintético e orgânico. A proposta da pesquisa a ser desenvolvida é dependente desse tipo de pensamento. Por outro lado, o trabalho em si, a análise e a discussão de seus resultados dependem de uma linha de raciocínio diferente, exigem do mestrando ou doutorando um pensamento crítico. De maneira geral, pensamento criativo é o tipo de pensamento que é importante para criar ideias, enquanto o pensamento crítico é o pensamento fundamental para julgar ideias. Este equilíbrio entre a intuição e a razão deve ser sempre buscado pelo cientista.

Transitar livremente entre o criativo e crítico é uma das competências mais úteis a serem desenvolvidas no futuro pesquisador

Como costumo dizer aos meus orientados, o trabalho do cientista ocorre na biblioteca. Não no campo, não no laboratório. O foco do trabalho do pesquisador deve ser, em sua grande maioria, no estudo e na comunicação de seus achados e resultados. No campo e no laboratório são obtidos apenas os resultados que deverão ser trabalhados para as importantes conclusões da pesquisa. Por vezes o trabalho de levantar estes resultados pode tomar muito mais tempo que o trabalho intelectual, mas o cientista deve sempre ter em mente os produtos de seu trabalho. O pós-graduando deve ler sempre, seja para ampliar seu referencial teórico ou para se atualizar nos trabalhos realizados por seus pares. O pós-graduando deve escrever: os principais produtos do trabalho intelectual são os documentos científicos. Teses, dissertações, artigos, notas, ensaios… todos estes são os produtos do trabalho do cientista, e, por extensão, do estudante de pós-graduação.

Consequentemente, o domínio das línguas portuguesa e inglesa é fundamental. O candidato ao mestrado ou ao doutorado deve saber se expressar corretamente e com precisão em ambas as línguas, tanto na comunicação falada como na escrita. Muitas vezes, os estudantes despendem muito tempo estudando a língua inglesa e sua estrutura, o que é sem dúvida uma necessidade básica. Mas jamais deve-se esquecer de tomar cuidado com a comunicação e expressão em língua portuguesa (ou na sua língua nativa). Os textos científicos têm estrutura e características muito próprias que deverão ser conhecidas e dominadas.

Características Psicológicas

Um estudo recente sobre a saúde mental dos mestrandos e doutorandos mostra que a incidência de transtornos como ansiedade, síndrome do pânico e depressão são muito mais comuns do que na população em geral. No campo profissional, a carga de trabalho, a cobrança por resultados, a pressão para o estudo e os prazos pouco flexíveis geram um nível de estresse mental muito alto no pós-graduando. Além disso, o ambiente social da pós-graduação costuma ser muito hostil e competitivo, levando o estudante a duvidar de suas próprias capacidades e potencialidades. É a chamada síndrome do impostor. Soma-se a tudo isso a baixa remuneração e a falta de perspectiva profissional futura, especialmente em períodos de crise, e temos um estudante em uma situação quase que permanente de risco emocional. Às vezes, esta frustração pode chegar em níveis perigosos.

A figura do orientador também é chave na questão da saúde mental do pós-graduando. Tanto no excesso de controle, quanto na ausência de supervisão, o pós-graduando pode se sentir reprimido ou abandonado, respectivamente. Embora seja de responsabilidade dos próprios orientadores procurar a sua identidade e aperfeiçoar cada vez mais a forma de orientar, com a finalidade de otimizar a produtividade de seu grupo de pesquisa, o mestrando ou doutorando deve procurar o equilíbrio e estar atento à estas inseguranças. O orientador perfeito não existe, mas sempre deve haver espaço para diálogo. Deve-se lembrar também que o orientador, na grande maioria das vezes não tem competência como psicólogo ou psicoterapeuta, tal que problemas sérios de natureza emocional devem ser levados ao profissional competente. A maioria das universidades com tradição em pesquisa e pós-graduação têm um serviço de manutenção de saúde mental, que deve ser procurado sempre que o pós-graduando sentir dificuldade em lidar com a pressão e a frustração.

Neste ponto, a busca pelo autoconhecimento em uma postura mental equilibrada é preponderante. Saber reconhecer suas próprias emoções e controlá-las é fundamental para um bom desempenho. A busca pelo controle e inteligência emocional é infindável, não importando o métier, mas é especialmente importante para o pós-graduando: não somente para melhorar seu desempenho e competitividade, mas também para conseguir viver uma vida mais plena e feliz.

Conclusão

Este texto pode parecer intimidador a primeira vista. São muitas habilidades a serem desenvolvidas e muitos desafios a serem superados. A pós-graduação é assim, ou pelo menos deveria ser assim. O nível de pressão é alto, assim como em todas as atividades que envolvem muita responsabilidade e requerem muita disciplina. O mestrado e o doutorado são, de fato, muito difíceis. Mas não são, de maneira nenhuma, impossíveis de serem trilhados. Qualquer pessoa predisposta a enfrentar desafios e se desenvolver é um bom candidato ao mestrado e ao doutorado.

O pós-graduando deve sempre buscar excelência. Acredito que esta é a palavra chave. Não pode prescindir de espírito investigativo, curiosidade, independência, persistência e proatividade. Deve desenvolver sempre suas habilidades intelectuais e apresentar grande e aprofundada cultura em diversos assuntos e temas. Não precisa, de forma alguma, demonstrar todas as características que aqui foram enumeradas. Mas, indubitavelmente, precisa demonstrar que possui pleno potencial para desenvolvê-las. E o mestrando ou doutorando deve desenvolvê-las na própria pós-graduação, ou este importante passo em sua carreira não será inteiramente bem sucedido.

Gustavo Mockaitis

Professor de biotecnologia, microbiologia e metodologia científica na Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP. Apaixonado por ciência e tecnologia, tenho interesse em muitas áreas, desde psicologia até astronomia. Atualmente trabalho com digestão anaeróbia para produção de biogás e outros produtos com valor agregado.

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