Há Uma Pedra no Meu Caminho

Há muito tempo atrás eu tive um blog que se dedicava à somente discussões científicas. Eu tinha cerca de 1000 acessos por semana, mas minhas postagens não eram muito comentadas pelos meus leitores, o que fez eu desanimar do projeto. Em suma: eu era lido, mas minhas publicações não geravam retorno. Isso dava a impressão de que o que eu escrevia não tinha impacto e acabou por me desmotivar. Em todas as outras tentativas futuras de criar um blog (de outros assuntos) eu falhei, sempre pelo mesmo motivo: falta de motivação. Eu sinto que tenho tanto a escrever, tanto a dizer, mas não sentia o impulso para seguir escrevendo.

Le Penseur
“Le Penseur” – François Auguste René Rodin

Mesmo assim, sempre quis ter um blog. Acho que escrever acaba se tornando uma necessidade muito fundamental, especialmente para acadêmicos como eu. A cabeça fervilha de ideias, muitas vezes incongruentes e contraditórias. O desafio maior é conciliar todas estas ideias, para encontrar um pouco de consistência no meio do oceano de caos mental. No fim das contas, acho que minha necessidade em escrever surge como uma solução para o meu problema de excesso de ideias (boas ou ruins). Tanto que, minha expressão falada é bem diferente de minha expressão escrita. Quando escrevemos, acredito que conseguimos ponderar melhor nossos pensamentos. A parte reptiliana, agressiva, excessivamente enfática e reativa é controlada, por vezes até suprimida, no discurso escrito. Do animal racional que somos, vejo que nas cordas vocais somos mais animais. No papel, somos mais racionais. E exercitar a racionalidade é a melhor maneira de trazê-la ao cotidiano. Além disso, eu falo demais. Eu não gosto dessa característica em mim, isso me cansa. Gostaria de ser mais calado e ponderado na linguagem falada. Talvez minha vontade de ter um blog seja uma forma de dar vazão à esta vontade de me expressar, calar minha voz para que eu possa me ouvir. Neste processo de usar a palavra escrita, meu pensamento registrado se torna menos efêmero, mais duradouro. Uma ótima oportunidade para rir de mim mesmo no futuro, quando reler os textos e, esperançosamente, me tornar uma pessoa melhor.

Voltando ao assunto relativo aos meus fracassos no mundo dos blogs, agora sinto que a minha falta de motivação deriva de fatores externos. Eu estava escrevendo para alguém. Para quem, eu não sei. Eu deveria estar escrevendo pela necessidade em escrever. Além disso, criar um blog científico limitou muito os temas que eu trazia. Só falava de pesquisa, congressos, ciência. Faltava integridade: apesar de amar ciência e fazer dela minha profissão, tenho uma miríade de outros interesses. O blog simplesmente não me representava integralmente. Em um blog especializado, eu sentia que os estes outros assuntos eram inconvenientes, invasivos, proibidos. A chance de escrever algo que não tinha nada a ver com o tema do blog era enorme, e isso também me desanimava.

Por estas razões, busco nessa nova iniciativa um blog diferente. Um blog que eu sentisse liberdade. Assim não falta assunto tão rapidamente. Agora, escrevo o que eu quero. E escrevo pela vontade de escrever. Me pergunto se agora será diferente. Continuarei postando artigos sobre ciência, tecnologia e filosofia, mas não vou me prender somente a estes temas. Há uma pedra no meu caminho. No meu caminho há uma pedra. A pedra sou eu.

Gustavo Mockaitis

Professor de biotecnologia, microbiologia e metodologia científica na Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP. Apaixonado por ciência e tecnologia, tenho interesse em muitas áreas, desde psicologia até astronomia. Atualmente trabalho com digestão anaeróbia para produção de biogás e outros produtos com valor agregado.

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