Bactérias boazinhas (parte I) (V.2, N. 7, 2016)

Quando escutamos a palavra bactéria, imediatamente pensamos em micróbios terríveis, capazes de causar as piores doenças; mas nem sempre é assim. Existem muitas classes de bactérias: algumas são patogênicas (causam doenças a outros seres vivos), enquanto outras são fundamentais para a vida no nosso planeta, através de sua capacidade para decompor matéria, para estabelecer relações de simbiose com outras espécies, para produzir alimentos, entre outras.

Nessa série de posts, apresentaremos três representantes do reino das bactérias que nos proveem de alguns dos produtos mais usados no nosso dia a dia. O primeiro desse grupo, é o gênero das Streptomyces.

 Streptomyces é um gênero de bactérias que até há alguns anos se pensava era encontrado unicamente nos solos.1 Recentemente, porém, várias espécies delas foram descobertas habitando o oceano, seja de forma conjunta a esponjas marinhas,2 seja diretamente no leito do mar.3

Embora o gênero Streptomyces seja conhecido por produzir aquele aroma de “terra úmida” que sentimos quando está chovendo (o qual provem da espécie Streptomyces griseus), a função mais relevante desse grupo de bactérias é a de produzir muitos dos antibióticos – assim como outros fármacos com propriedades antiparasitária, fungicida ou até antitumoral – disponíveis comercialmente.1

Alguns dos mais conhecidos antibióticos produzidos pelas Streptomyces são o cloranfenicol, canamicina, estreptomicina, geldanamicina e monensina (Figura 1). Outros compostos produzidos por Streptomyces destacam-se pela sua atividade anticancerígena, como é o caso do composto salinomicina, produzido pela Streptomyces albus, e que tem chamado a atenção pelo seu desempenho em matar seletivamente células-tronco do câncer.4

Figura 1. Exemplos de antibióticos produzidos por diferentes espécies de Streptomyces. Foto de placa com cultivo de Streptomyces sp. realizada no Laboratório de Biotecnologia e Biossíntese Combinatória (Labbicomb) da Unicamp, pela aluna de doutorado Renata Sigrist.

A capacidade que as Streptomyces têm para produzir antibióticos ainda é objeto de diversos estudos; no entanto, várias pesquisas atribuem essa habilidade à competição natural dessas bactérias com outros micro-organismos no ambiente em que habitam.1 Dessa forma, a produção de um composto com função antimicrobiana é capaz de eliminar outras bactérias ou fungos que estejam competindo pelas fontes de alimento ou pelo mesmo espaço que as Streptomyces.

No ano 2015, o potencial dessas bactérias para produzir diversos agentes terapêuticos foi reconhecido com o Prêmio Nobel de Medicina, concedido aos  bioquímicos Satoshi Ōmura e William Campbell, os quais, através de suas pesquisas nas décadas dos 70 e 80,  descobriram a avermectina e outros derivados,  isolados de culturas da  espécie Streptomyces avermitilis. Estes compostos começaram a ser  empregados no tratamento de infeções causadas por nemátodos, contribuindo dessa forma com o melhoramento da vida de muitas pessoas ao redor do mundo.5,6

Assim, podemos concluir que o gênero Streptomyces engloba bactérias que nos proveem de muitos dos agentes terapêuticos utilizados atualmente, pelo que sua contribuição no aumento da qualidade de vida de humanos e animais é fundamental. Igual importância, tem o fato que a grande parte do potencial de produção das Streptomyces ainda permanece inexplorado, pelo que se espera que nos próximos anos, este gênero de bactéria nos continue fornecendo de moléculas dotadas de amplas atividades biológicas.

 

Referências

  1. Hopwood, D. A. Streptomyces in Nature and Medicine: The Antibiotic Makers. (Oxford University Press, 2007).
  2. Pimentel-Elardo, S. M.; Scheuermayer, M.; Kozytska, S.; Hentschel, U.; International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology 2009, 59, 1433.
  3. Park, S. R.; Tripathi, A.; Wu, J.; Schultz, P. J.; Yim, I.; McQuade, T. J.; Yu, F.; Arevang, C.-J.; Mensah, A. Y.; Tamayo-Castillo, G.; Xi, C.; Sherman, D. H.; Nature Communications 2016, 7, 10710.
  4. Gupta, P. B.; Onder, T. T.; Jiang, G.; Tao, K.; Kuperwasser, C.; Weinberg, R. a.; Lander, E. S. ;Cell 2009, 138, 645.
  5. Egerton, J. R.;  Ostlind, D. A., L.; Blair, S.; Eary, C. H.;  Suhayda, D.;  Cifelli, S.;  Riek, R. F.;  Campbell, W. C.; Antimicrobial Agents and Chemotherapy 1979, 15, 372.
  6. Burg, R. W.;  Miller, B. M.; Baker, E. E.; Birnbaum, J.; Currie, S. A.; Hartman, R.;  Kong, Y. L.; Monaghan, R. L.; Olson, G.; Putter, I.; Tunac, J. B.; Wallick, H.; Stapley, E.; Oiwa, R.; Omura, S.; Antimicrobial Agents and Chemotherapy 1979, 15, 361.

 

 

 

Gabriela Desireé

Estudante de doutorado em Química Orgânica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolve sua tese no Laboratório de Biotecnologia e Biossíntese Combinatória (Labbicomb) do Instituto de Química

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