Estudo mostra traíras contaminadas por metais na Amazônia (V.2, N. 5, 2016)

Os rios da Amazônia, além de conterem uma variedade bem grande de animais, possuem outro tipo de componentes: os metais. Seja por meios naturais ou por ação do homem, é fato que a biodiversidade presente nas águas dos rios sofre as consequências com o acúmulo desses elementos, que ao serem absorvidos em grandes quantidades pelos organismos animais podem se tornar verdadeiros “venenos” para a vida.

A função do estudo realizado pelo pesquisador de Genética, Conservação e Biologia Evolutiva do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Mailson Rafael Ferreira, era determinar a quantidade dos metais: cobre, cobalto, cromo, chumbo, ferro, manganês, mercúrio, níquel, zinco, na parte comestível de peixes carnívoros da espécie Hoplias malabaricus, a traíra.

Maior concentração e danos genotóxicos

Segundo os resultados obtidos por Ferreira, nos Rios Japurá e Juruá – afluentes do Rio Solimões – o nível do metal cromo nos peixes está maior que o permitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ou seja, quem consome os peixes dessa região está consumindo o metal além do que permite a legislação brasileira.

“A população que se alimenta desses peixes podem acumular esses metais. O risco é: se eles forem genotóxicos para os peixes eles também tendem a serem tóxicos para a população humana. As consequências da ingestão desses peixes contaminados com metais vão desde defeitos genéticos e neurológicos a má-formação de bebês”, explicou Ferreira.

O cromo se mostrou tóxico para as células e pode provocar danos bioquímicos e genéticos, e ainda, atrapalhar o desenvolvimento de embriões, caso ingerido por uma mulheres grávidas. Os demais metais pesquisados se mostraram dentro dos limites da Anvisa. Os peixes da bacia do rio Negro por sua vez apresentaram mais mercúrio e zinco do que os peixes da bacia do rio Solimões, estando o mercúrio acima dos limites recomendados pela Anvisa nos peixes coletados no rio Teia, no alto rio Negro.

Ferreira explicou que quando absorvidos em grande quantidade, o organismo desses peixes não consegue eliminar 100% desses metais e eles acabam acumulando em seu tecido branco, ou seja, a parte comestível.

A principal crítica da pesquisa foi à legislação, que segundo o pesquisador, precisa ser revisada, rediscutida e reformulada, com especial atenção para a região amazônica, ond a população consome muito mais peixe diariamente do que o restante do país.

Pesquisa

O projeto durou dois anos, e envolveu pesquisadores do Laboratório de Biologia Ambiental da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), com a análise dos peixes com mercúrio, Laboratório de Ecossistemas Aquáticos do INPA, com a análise da água e do Laboratório de Biogeoquímica da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

As coletas dos peixes foram realizadas em oito pontos no rio negro: três pontos durante a cheia e cinco pontos durante a seca, que iam da capital Manaus ao município de Santa Isabel do Rio Negro (distante 638 quilômetros de Manaus), percorrendo mais de 700 quilômetros ao longo do rio. Já no Rio Solimões foram coletados traíras em seis pontos durante a seca, que iam das regiões do Rio Madeira até o município de Fonte Boa (distante 678 quilômetros de Manaus), no alto rio Solimões.

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O texto completo da pesquisa pode ser encontrado aqui.

Juan Mattheus

Sou formado em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas e atualmente sou pós-graduando em jornalismo científico pela Universidade Estadual de Campinas. Já trabalhei em portais de notícias e nas assessorias de comunicação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde realizei trabalhos na revista Ciência para Todos.

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