Grande, Gram! (V.2, N. 5, 2016)

Começo este post com a seguinte pergunta: o que Robert Hooke, Antonie van Leeuwenhoek e Hans Christian Gram tem em comum? Você certamente já ouviu falar de algum deles.

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Estes senhores contribuíram de maneira inigualável à microbiologia de biologia celular. Já parou para pensar o que seria das ciências da vida se não fosse a microscopia?

Vamos lá: Hooke, além de astrônomo e cientista, inventou, entre outros equipamentos, o microscópio. Foi o primeiro ser humano a observar, e consequentemente nomear, células. Já van Leeuwenhoek aperfeiçoou o equipamento inventado pelo seu colega, sendo o primeiro a observar células vivas em nível microscópico.

E chegamos a Hans Christian. Não o Andersen, o Gram. Este dinamarquês desenvolveu a técnica que, ainda nos dias de hoje, é amplamente utilizada nos laboratórios de microbiologia do mundo afora. A partir da combinação de agentes químicos (aplicação de corantes, fixadores, álcool) e físicos (calor), podemos diferencias as bactérias em 2 grandes grupos: as Gram positivas (roxas) e as Gram negativas (rosas).

Basicamente, a reação se dá pela união de um corante primário (cristal violeta, por exemplo) a um agente fixador (lugol), formando um complexo insolúvel no interior das células. Após a etapa de aplicação do solvente (álcool, por exemplo), grande parte da parede celular das chamadas bactérias Gram negativas é removida, pois até 80% delas é composta por lipídios. Já a parede da Gram positivas permanece quase íntegra, uma vez que em sua composição encontramos a maioria de peptidioglicano, “insensível” ao álcool. Pois bem, dessa maneira, o complexo cristal-violeta no interior da célula permanece intacto, ao passo que é removido das Gram negativas, devido à perda de grande parte de sua parede. A etapa final consiste na aplicação de um corante secundário (safranina). A bactéria Gram positiva continuará com sua coloração inicial, roxa. A Gram negativa irá adquirir a nova coloração, vermelha.

Gram01

A partir daí, entramos na microscopia. A visualização com aumento de 400x é suficiente. Porém, para melhor detalhamento, aconselha-se a utilização de uma objetiva de imersão, possibilitando um aumento de 1000x.

GRAM

Mas qual a necessidade de diferenciarmos Gram positivas de Gram negativas?

A partir dessa diferenciação, seguimos caminhos diferentes para a identificação bacteriana. Diferentes métodos, técnicas, regentes, meios de cultura, etc, são utilizados. E por que precisamos identificar? Porque precisamos saber como combater uma infecção, tratar um paciente com antibiótico correto (abordarei futuramente a questão da resistência aos antibióticos) ou simplesmente garantir uma vida de prateleira maior aos alimentos, garantindo a qualidade do produto por um tempo maior. E garantindo a segurança do alimento, estamos contribuindo para evitar a disseminação de Doenças Veiculadas por Alimentos (DVAs).

Portanto, aluno de microbiologia, o conhecimento do microscópio é fundamental! Seu primeiro ato dentro de um laboratório é aprender a coloração de Gram, e o segundo ato, reverenciar este importantíssimo pesquisador.

Grande, Gram!

“Antes de o mundo ser macro, ele foi, é, e sempre será, microscópico”

Ps- as imagens aqui utilizadas são de domínio público.

Rafael Djalma Chaves

Doutor em Ciência de Alimentos (FEA/Unicamp), especializado em Microbiologia de Alimentos. Pesquisas desenvolvidas com micro-organismos patogênicos e deterioradores (Staphylococcus, Salmonella, Listeria, Bacillus, fungos e leveduras). Nas horas vagas, consumidor ávido de cinema e video-games!

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