Palmada nos filhos: o que diz a ciência?

“Fui falar uma parada assim, aí meu filho me respondeu, mano. Só que ele tava aqui, assim, oh. Daqui, minha mão só fez assim: BAU. Na cara dele, assim oh. BOOM! O beiço dele já ficou assim oh, igual ao do Patolino, tá ligado?”.

Pedro Scooby, BBB 22

Esse foi um comentário do surfista Pedro Scooby no BBB 22. O que você achou disso que ele fez com o filho? Pelo jeito que ele contou essa história, que foi rindo, com deboche, aparentemente orgulhoso, parece que ele não vê nenhum problema nisso. Você vê algum problema?

No texto de hoje vamos falar de ciência e de violência parental, pegando carona nesse caso ocorrido no BBB 22.

Este conteúdo foi originalmente produzido em vídeo, mas se preferir pode lê-lo abaixo!

O mito da palmada educativa

Uma frase padrão quando esse tema vem à tona é:

“Apanhei dos meus pais e estou ótimo!”

Vamo fazer algumas reflexões sobre essa frase.

Em primeiro lugar, será que você está ótimo mesmo? Será que a sua saúde mental está impecável? Será que você não tem nenhum trauma de infância?

Por mais que você pense que está livre disso (e talvez até esteja), não tem como sabermos, com total certeza, que não temos nenhum problema psicológico advindo da infância. Às vezes, algum fator da sua personalidade (como uma maior timidez, dificuldade de confiar nas pessoas) ou mesmo algum vício, podem ser frutos de traumas. Talvez, se você fizer uma terapia, uma análise, você consiga descobrir alguns desses traumas. Mas talvez nem isso seja o suficiente.

Então, não faz sentido dizer que apanhou na infância e que isso não te afetou em nada, porque não tem como você saber se afetou ou não.

Em segundo lugar, se você apanhou na infância e, realmente, não carregou nenhum trauma para a vida adulta, só posso dizer “parabéns!”. Apenas não seja ingênuo de pensar que isso é uma regra geral. Até hoje, nunca encontrei um psicólogo que pesquise o assunto que concorda que bater em crianças é uma medida educativa interessante.

Na verdade, são muitas as pesquisas científicas sérias, publicadas em revistas científicas mundialmente reconhecidas, que concordam que a violência parental (dos pais) contra a criança é muito problemática. Vejamos um exemplo:

Em 1999, três pesquisadoras publicaram um artigo na revista científica Ciência & Saúde Coletiva, chamado “Conseqüências da violência familiar na saúde da criança e do adolescente”. Nesse estudo, elas reuniram uma série de resultados de pesquisas que mostravam as consequências mais comuns da violência familiar para a criança.

violência parental

Consequências físicas da violência parental

O artigo nos informa que há várias pesquisas em que se identificam consequências físicas de violência parental tais como: luxações, fraturas, hematomas, escoriações, cortes pelo corpo. Em casos, que não são raros, a criança pode chegar a ter traumatismo craniano e até rompimento de órgãos, podendo vir a falecer.

Você pode achar esse tipo de coisa acontece pouco, mas isso não é verdade, acontece muito mais do que você pode imaginar. E quanto mais se normaliza a violência contra criança (dentro de casa, principalmente), mais normalizada tende a ficar também as violências mais graves.

Mas as consequências vão além.

Consequências psicológicas da violência parental

Dentre as consequências psicológicas, os autores começam citando as doenças psicossomáticas (problemas emocionais intensos que se somatizam, ou seja, que provocam sintomas físicos, como dor, falta de ar, problemas gástricos e intestinais).

Há relatos também de problemas psicológicos e emocionais, como ansiedade, depressão, dificuldade de relacionamento, mudanças de humor, agressividade, timidez, isolamento social, distúrbios do sono, distúrbios de apetite e até baixa performance intelectual.

São muitas as pesquisas que já identificaram que a violência familiar contra crianças pode desencadear todas essas coisas. “Bom, mas eu não desenvolvi nada isso”, você poderia dizer. Não importa! Essa ou aquela experiência pessoal e opinião não significam nada perto do grande volume de evidências que demonstram que as consequências existem, sim.

violência parental
Trecho do artigo “Conseqüências da violência familiar na saúde da criança e do adolescente”.

Um pesquisador e médico da Universidade da Califórnia, chamado Vincent Felitti, afirma que “experiências adversas na infância são tão comuns quanto destrutivas”. Essas experiências afetam muito a saúde e o bem-estar das pessoas. Uma experiência traumática na infância pode te deixar mais predisposto a desenvolver vício em drogas, a desenvolver algumas doenças, a se tornar depressivo, a se tornar dependente químico e até a buscar o suicídio.

Mas isso significa que todas as pessoas sofrerão as mesmas consequências, sempre? Claro que não!

Impacto da violência parental e suas variáveis

É evidente que esses efeitos negativos da violência parental dependem de diversos fatores. Não é porque, por exemplo, o atleta Pedro Scooby deu um tapa em seu filho, que ele desenvolverá todas essas (ou mesmo algumas dessas) consequências.

Há alguns fatores que afetam o impacto das experiências adversas na infância na vida do adulto, como:

  1. a intensidade da violência;
  2. a duração dessa violência;
  3. o tipo de violência (se foi física, verbal, psicológica);
  4. o desenvolvimento psicológico da criança;
  5. a capacidade intelectual, a capacidade resiliência e a maturidade da criança;
  6. o vínculo afetivo entre agressor e vítima; entre outros.

Assim, se você sofreu violência familiar e está bem, verdadeiramente bem e sem traumas, pode ser que você tenha tido uma boa estrutura psicológica para lidar com isso. Infelizmente, não é o caso de toda criança.

O que diz a lei?

Agora, vamos falar em termos legais. Na Constituição Federal de 1988 está escrito:

“é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.

Artigo 227, Constituição Federal

Ou seja, o dever de garantir todos esses direitos à criança e ao adolescente é inicialmente da família, mas a sociedade e o Estado também têm esse dever, quando a família não é capaz de garantir todos esses direitos.

Em 2014, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) passou a ter uma lei que a mídia apelidou de Lei da Palmada, mas que recebeu o nome de Lei Menino Bernardo (homenageando um menino de 11 anos que foi morto pela madrasta no mesmo ano). Essa lei diz o seguinte:

“A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto […] por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los.”

Art. 18-A, incluído no ECA pela Lei nº 13.010, de 2014

Essa lei considera como “castigo físico”: uma ação disciplinar ou punitiva aplicada com uso da força física que resulte em sofrimento físico ou lesão; e considera como “tratamento cruel ou degradante”: um tratamento em relação à criança ou adolescente que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize.

Ou seja, a lei está, basicamente, dizendo que crianças e adolescentes têm o direito de não serem submetidas a sofrimento físico, a lesões, a humilhações, a ridicularizações, a ameaças graves. Será que esses são direitos muito exagerados?

Quando essa lei foi sancionada pela presidente Dilma, em 2014, houve muitas críticas. “Agora eu não posso dar nem uma palmadinha no meu filho, que eu educo e eu pus no mundo?”, “o governo vai me prender ou multar por estar educando meus filhos da forma que acho correto?”.

Não! Ninguém vai ser preso nem multado por isso. Esta lei prevê consequências de caráter educativo para os pais e, obviamente, elas são definidas dependendo da gravidade do caso. A lei prevê, ainda, tratamento psicológico ou psiquiátrico à criança.

Eu conversei com a assistente social Maria José de Souza Coelho, que é referência técnica de prevenção de violências da Prefeitura de Betim, e ela me contou que é possível prevenir a violência intrafamiliar estimulando os indivíduos e as famílias a refletirem sobre as situações violentas que os atingem direta e indiretamente.

Isso é muito importante, porque nem sempre a violência deixará sinais visíveis (como hematomas) e nem sempre a criança vai falar sobre isso. Na verdade, é muito difícil uma criança falar sobre uma violência que sofreu, porque ela sequer sabe que tem o direito de não sofrê-la e, muitas vezes, ela terá a certeza de que a culpa é dela própria, ela está apanhando porque fez algo de errado.

Consegue perceber a covardia de se agredir um indivíduo que não pode se defender e nem será capaz de pedir ajuda?

É papel de toda e qualquer pessoa se atentar a sinais de violência ou mesmo de negligência e denunciar ao Conselho Tutelar. Alguns dos principais sinais são mudança drástica no comportamento da criança, depressão, baixa autoestima, perda de confiança nas pessoas, alterações no sono e na alimentação.


Leia mais:

Conseqüências da violência familiar na saúde da criança e do adolescente.

A relação entre experiências adversas na infância e a saúde do adulto.

Lei 13.010 – 2014 (ECA).

Pedro Scooby falando que bateu no filho no BBB 22.

Texto relacionado: O cérebro em quarentena

Lucas Miranda

Físico e mestre em Divulgação Científica pela Unicamp. É professor no Sistema Anglo de Ensino, Colunista da Revista Ciência Hoje, Coordenador do projeto Ciência ao Bar e Cinegrafista, Editor e Tradutor na TV NUPES (Fac. de Medicina - UFJF)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Skip to content