Educação – O Método Trezentos: engajamento e solidariedade

Publicado por Diego Pansani em

Método Trezentos: engajamento e solidariedade
Aprenda ensinando

No fim do mês de outubro de 2019 a Unicamp promoveu o VII Seminário de Inovações Curriculares. Este evento vem se consolidando como um importante espaço de discussão e compartilhamento de pesquisas, experiências, instrumentos e metodologias em diversas áreas e campos do conhecimento.

Um dos convidados especiais, o Professor Ricardo Fragelli, expôs o Método Trezentos, objeto do livro publicado este ano pela Editora Penso, de Porto Alegre. Por acreditarmos que sua proposta esteja de acordo com o tema do Seminário – Transformar Vivências, Conectar Aprendizagens – elaboramos uma pequena resenha dessa sua mais recente obra. 

O livro se propõe a ser um manual pragmático e direto: expõe as vantagens do método, tabelas e formulários para uso e aplicabilidade em diversos contextos. Faz tudo isso em exatas 100 páginas, divididas em 7 capítulos e uma singela bibliografia.

A apresentação do livro ficou a cabo do Professor Doutor Mauro Luiz Rabelo (Unb), que a faz de maneira sintética. Além de inventariar qualidades do método (criar um ambiente colaborativo com cumplicidade na aprendizagem; considerar uma nova geração e novos comportamentos existenciais da geração a.G – after Google etc) destacaríamos suas palavras finais:

“O professor pode compartilhar o conhecimento, mas as experiências pertencem ao aluno”

O objetivo do Professor Ricardo Fragelli é emancipar o estudante da obsessiva perspectiva de ensino e aprendizagem restrita ao conteúdo. O método é, desde o início do livro, engajado na socialização da turma – é isso que, com a ajuda do professor, põe em contato a excelência de alguns estudantes com aqueles de rendimentos baixos, equalizando-se entre si, trocando experiências e maneiras de executar as tarefas rigorosamente estabelecidas pelo método trezentos.

O autor foi provocado a alterar suas aulas na disciplina de Cálculo 1 devido ao alto índice de reprovação, perto de 50%, média, segundo o professor, que se verifica em diversas instituições de ensino do país. Após a utilização do Método Trezentos esse índice caiu para 5%, comprovando a eficácia pragmática e social da abordagem: pragmática porque as pessoas matriculadas não acumulam reprovações e avançam em seus respectivos cursos; social porque o coração do método é integrar as pessoas com desempenhos e histórias de vida sempre diferentes.

Ricardo Fragelli já trabalhava com aprendizagens ativas e colaborativas (rei e rainha da derivada; sumaê) com destaques e projeções nacionais. O Método Trezentos se apropria dos 300 espartanos que consolidaram uma tática bélica ao defender o soldado ao lado e não a si próprio no campo de batalha. Ao longo do curso, todos terão responsabilidades coletivas e é nisso que reside o sucesso do método.

O método

“Até a primeira avaliação de aprendizagem, seu curso será praticamente igual ao que está acostumado, pois é ela que dará início ao Trezentos” (p.9). 

Essa primeira avaliação, então, determinará a reunião dos grupos e a sua configuração, misturando ótimos, bons e baixos rendimentos no mesmo grupo. Esse grupo terá uma espécie de líder, que organiza os encontros extra-sala, virtualmente, e registra como está sendo esse trabalho: esse líder, que teve as melhores notas na primeira avaliação. Esses estudantes não poderão fazer outra avaliação para melhorar sua primeira nota: ela poderá melhorar caso os ajudados, esses sim, melhorem as notas ruins. Os ajudados realizam uma nova avaliação após a primeira e após o remanejamento dos grupos, das determinações de ajudantes e ajudados, da explicação e exposição das metas individuais e de grupo.

Os prazos entre uma avaliação e a outra, retificadora, podem variar (10 dias após a primeira avaliação no curso de Cálculo presencial e de 15 a 20 dias no ensino a distância) 

Além de melhorar e muito as notas após a segunda avaliação (de mesmo teor conceitual, programático, que a primeira) segundo o professor Fragelli, é aumentar a auto-estima e o engajamento durante a disciplina e entre os estudantes: a aprendizagem ativa e colaborativa que vai além do conteúdo.

Para que o engajamento dos estudantes se consolide é preciso deixar claro que ninguém ficará pra trás, que o grupo caminhará junto: os ajudados corrigirão lacunas e terão contato com a linguagem geracional de seus colegas. Os ajudantes, ao ensinar, fixarão ainda mais o conteúdo. Mas não apenas: essa dinâmica promoverá uma circulação de afetos entre a turma – novamente, frisamos, é aqui que se encontra a virtude eficiente e nobre do método: “defender quem está ao seu lado e não apenas pensar em ser aprovado isoladamente” 

Os desafios relatados no livro passam, essencialmente, pela motivação dos estudantes. O próprio autor se revelou cético em relação ao método. Sempre que oferecia os cursos de Cálculo I da maneira tradicional, suas aulas eram dadas até a última semana do cronograma, cravando a última aula ainda com exposição de conteúdo. Com o Método Trezentos ele economiza 12 horas no semestre e reverte todo esse tempo em aprendizado significativo. Segundo o autor, o que faz o método dar certo é planejar muito bem as metas dos grupos (ajudados e ajudantes) e os encontros efetivos dos grupos. 

O livro conta ainda com uma série de depoimentos emocionantes oriundos das pessoas que vivenciaram o método, amplificaram a solidariedade, a alteridade e a auto-estima. Além disso, também traz as tabelas, formulários, avaliações de interatividade no final do último capítulo do livro.

É possível encontrar um material bastante completo através do site do projeto. Isso faz com que o Método seja aprimorado por outros professores, na medida que se apropriam dos recursos e os aplicam em contexto e situações diversas (EaD, ambiente corporativo, PBL etc).

http://www.metodo300.com/

O engajamento dos estudantes passa pelo direcionamento do reconhecimento de seu protagonismo diante do aprendizado e da turma: 

“aprendem a elaborar estratégias próprias, criar esquemas, comunicar suas descobertas, fazer a ancoragem de conceitos e refletir sobre o seu processo de aprendizagem (…) A obra de Fragelli é o compartilhamento de uma experiência muito bem sucedida” (p.XIII)

Se tal engajamento dos estudantes provou ser eficiente em relação à diminuição da evasão e das reprovações, e ainda por cima, talvez o mais importante, humanizou o aprendizado de maneira sistemática, fica a pergunta: quem ou o que engajará os professores?


Sobre o Prof. Dr. Ricardo Fragelli
UNB

Engenheiro Mecânico, Mestre em engenharia mecânica e Doutor em Ciências Mecânicas pela Universidade de Brasília, Ricardo Fragelli é professor dos cursos de Engenharia da Faculdade UnB Gama e do Programa de Pós-graduação em Design, onde orienta trabalhos na área de design educacional. Por suas pesquisas em novos métodos, técnicas e tecnologias para educação, recebeu onze prêmios nacionais de Instituições como MEC, MCT, CAPES, ABED, ABMES e Santander Universidades. Desenvolve pesquisas em sistemas inteligentes e adaptativos aplicados à educação, design educacional, técnicas e métodos educacionais baseados em aprendizagem ativa e colaborativa.

http://lattes.cnpq.br/6119310102978688

 

 


Diego Pansani

É servidor do (EA)2, profissional de assuntos administrativos e especialista em políticas públicas.

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