
Conheça um pouco mais sobre a pesquisa em biologia do envelhecimento desenvolvida no Brasil e as discussões sobre rejuvenescimento nessa entrevista com o prof. Marcelo Mori, do Instituto de Biologia da Unicamp.
O processo do envelhecimento é esperado por todos nós. O tempo vai passando, e os sinais de que estamos ficando mais velhos ficando evidentes no corpo. Junto com a nossa percepção e do desejo de rejuvenescimento, das discussões sobre a idade aparente e as questões históricas, sociais e de gênero, existem também os estudos biológicos sobre a temática. Para entender um pouco mais sobre a pesquisa em Biologia do envelhecimento, o desenvolvimento de como se produz esse conhecimento e as desinformações envolvidas, conversei com o Prof. Marcelo Mori, professor da Unicamp e coordenador do LabE – Laboratório de Biologia do Envelhecimento.
Matheus: Bem, como que os pesquisadores conseguem entender o que é o envelhecimento?
Prof. Mori: A gente estuda o processo biológico do envelhecimento e para isso a gente, claro, tem interesse no envelhecimento humano, olhando muito para processos biológicos básicos e modelos para entender o fenômeno do envelhecimento. Porque o fenômeno do envelhecimento é algo conservado, e isso permite observar como outros animais envelhecem para sugerir que coisas parecidas acontecem com o ser humano. Uma das coisas principais que a gente tem que acabar estudando é o tempo de vida até a morte. Estudar isso, principalmente no que diz respeito a intervenções, precisa ser feito em modelos animais. Você não consegue fazer isso de imediato em humanos, por óbvias questões éticas e porque demoraria muito tempo. Mas a ética de se estudar intervenções voltadas ao envelhecimento em humanos é uma discussão longa, para outra hora.
Matheus: Certo, e como as pesquisas são desenvolvidas aqui no laboratório? Como é estudado o envelhecimento através dos experimentos?
Prof. Mori: Bem, existem várias formas de compreender o envelhecimento. Eu iniciei meus estudos nessa área durante minha formação no doutorado, estudando o tecido adiposo. Eu trabalhava com receptores de um peptídeo diretamente envolvido nesse tecido. Porém, acabei me interessando também pela epigenética, área que se disseminou muito durante os anos 2000. Desses estudos, iniciei a refletir como as vias metabólicas do tecido adiposo estavam relacionadas com o tempo de vida dos animais estudados. A genética do envelhecimento foi disseminada por artigos que foram publicados na década de 90 estudando nematoide C. elegans, mostrando que a deleção de um único gene, o do receptor de insulina/IGF1, poderia levar a duplicação do seu tempo de vida.

Uma publicação na Science do grupo que acabei indo fazer meu pós-doutorado mostrava que a deleção do receptor de insulina no tecido adiposo de camundongos por si só também aumentava o tempo de vida. Essas são descobertas fantásticas, porque são inusitadas e de certa forma contraintuitivas. O tecido adiposo é um tecido que, por si só, controla o tempo de vida? O receptor de insulina, que é importante para o controle do metabolismo de açúcares e lipídeos, é um determinante para o processo do envelhecimento?
Matheus: Bem, eu também queria conversar com você um pouco no ramo mais do cotidiano, das questões daquilo que você, com uma carreira muito ampla e vasta trabalhando com uma perspectiva metabólica no envelhecimento, tem vivenciado. Então, daquilo que você vê no seu cotidiano, tanto na mídia, em conversas com familiares, com colegas fora da área acadêmica, o que você acredita que é mais falado que está errado, assim, o que você acredita que você mais ouve e você fala ‘não, não é bem assim’?
Prof. Mori: Certo. Eu acho que está muito disseminada a ideia equivocada de que existem, de fato, intervenções que podem ser aplicadas neste momento em humanos e que promovem rejuvenescimento. A gente vê muito por aí fórmulas, tratamentos, e um monte de coisa prometendo rejuvenescimento. Eu sou otimista de que algumas coisas no futuro próximo vão apresentar resultados científicos claros nesse sentido, mas por enquanto, não existe nenhuma evidência concreta que elas funcionam em seres humanos. E aí, quando eu digo rejuvenescimento, digo o processo de reversão ou desaceleração do envelhecimento.
Eu acredito nisso baseado em modelos experimentais e na perspectiva de que esses estudos clínicos estão em andamento, sendo otimista que algum ou alguns deles podem resultar em um efeito claro no futuro. Mas a gente vê muita coisa sendo vendida com essa ideia de que, ‘mas mal não faz’. Certo, se é algo que não exige prescrição médica ou se você está fazendo um tratamento com algum profissional qualificado para oferecer esse tratamento e você quiser fazer, a escolha é sua, mas tem que tomar cuidado para não cair em discursos falsos e miraculosos, numa argumentação que não procede cientificamente. Algumas pessoas querem vender coisas que não são comprovadas cientificamente. Esse é um grande desafio nessa área do envelhecimento. É uma área muito suscetível a pseudociência, porque todo mundo quer a fórmula para viver mais e melhor.
Matheus: Eu tenho visto as pessoas comentarem bastante sobre o Ozempic, que tem uma função específica de redução de apetite, mas virou uma febre falar que ele tem uma abrangência gigantesca. Aí, obviamente, entrar num discurso de possivelmente enganação, de melhorar o desempenho cognitivo, melhorar o desempenho físico, até mesmo contribuir contra o envelhecimento.
Prof. Mori: Você toca num ponto importante. O potencial desses análogos de GLP-1 como drogas que promovem longevidade é muito grande, mas os estudos ainda estão sendo feitos, estão sendo desenhados, é tudo muito novo. Tudo isso está sendo muito bem estudado e, de novo, eu sou otimista de que em algum momento a gente vai ter dados científicos embasados, concretos, se essas drogas podem tratar ou não doenças associadas ao envelhecimento além das doenças metabólicas para as quais eles foram demonstrados funcionar.
Matheus: Como se existisse o cálice sagrado, né?
Prof. Mori: Exato. E aí é fácil você vender alguma coisa para as pessoas que não tem acesso ao conhecimento embasado. Então é um desafio grande mostrar para as pessoas que a gente está avançando sim nas pesquisas e no uso de medicamentos, mas a gente não está ainda lá para conseguir cravar drogas, remédios, intervenções médicas que vão garantir um prolongamento considerável de vida ou rejuvenescimento das células.
Agora, existem coisas relativamente fáceis que a gente sabe que promovem saúde. Por exemplo, o exercício físico e uma dieta adequada. As pesquisas com epigenética e biologia do envelhecimento têm demonstrado que esses fatores comportamentais contribuem muito com o prolongamento do tempo de vida saudável. Então, hoje, a gente sabe que o exercício físico e uma dieta balanceada e não exagerada em calorias ou nutrientes como gordura saturada e açúcar, são os únicos cálices sagrados disponíveis.
Matheus: Bom, para encerramos a nossa conversa, gostaria que você falasse um pouco sobre o que se faz atualmente aqui na Unicamp, sobre essa temática do envelhecimento e a sociedade como um todo talvez não saiba.
Prof. Mori: Eu acho que de uma forma geral, mostrar para a sociedade que a gente faz pesquisa que visa promover saúde, estender o tempo de vida das pessoas, e buscar formas de prolongar a vida humana com respeito e dignidade. No Brasil, se faz pesquisa com seriedade mesmo. Então, isso eu sei que é um tema de interesse da população e saber que têm grupos de pesquisa que lidam com esse tema e trabalham diretamente com ele, contribuindo para o conhecimento sobre o envelhecimento, acredito ser de interesse social. Para que as pessoas não caiam em discursos falsos e problemáticos, vendendo fórmulas mágicas de rejuvenescimento celular, é importante que existam canais de comunicação com pesquisadores comprometidos com fazer e divulgar ciência de qualidade.
Assim como fizemos durante a COVID-19, que era um tema mais urgente e momentâneo, também é necessário que a população entenda que estamos aqui para compartilhar o conhecimento científico que produzimos na área de envelhecimento e doenças metabólicas, que são temas de igual interesse generalizado.
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