
Ao falar em coqueluche, muitas pessoas podem pensar que é uma doença do passado, mas ela ainda existe no Brasil e no mundo, e as vacinas são a nossa melhor arma contra ela. Para se ter noção da potência e importância da vacinação contra a coqueluche, no início da década de 1980, o Brasil registrava mais de 40 mil casos por ano da doença, com uma média de 30 casos a cada 100 mil habitantes.
Com a expansão da vacinação contra coqueluche a partir de 1977 e o desenvolvimento de sistemas de vigilância epidemiológica mais rebuscados, atualmente o Brasil abaixou a incidência dos casos dessa doença para 0,1 a cada 100 mil habitantes. Dos 40 mil casos por ano no início da década de 1980, reduzimos para 216, 7.440 e 1.479, respectivamente, para os anos de 2023, 2024, 2025.
Mas, para começo de conversa, o que causa a coqueluche?
Essa doença é causada por uma bactéria, chamada Bordetella pertussis, que causa uma infecção respiratória, por isso seus principais sintomas são crises de tosse seca (em casos mais graves, pode atingir também a traqueia e os brônquios). A coqueluche é uma doença presente no mundo inteiro, sendo amplamente controlada por vacinas. Entretanto, por ser uma infecção respiratória, sua transmissão é bastante eficiente, por ser pelo ar.
Normalmente, a transmissão ocorre a partir do contato de uma pessoa doente com outra saudável, através de gotículas expelidas na tosse, espirro, ou mesmo ao falar; em alguns casos mais raros, a transmissão pode acontecer por meio de objetos contaminados por elas, mas isso é pouco frequente. Em média, leva de 5 a 10 dias para uma pessoa infectada desenvolver os primeiros sintomas.
E por falar em sintomas, é só a tosse seca?
Não exatamente! A coqueluche é uma doença em que os sintomas variam a depender da fase de desenvolvimento dela no nosso corpo. Essas fases podem ser divididas em três:
- Fase inicial: após a infecção, a coqueluche começa como um resfriado comum, causando episódios de febre baixa, mal-estar geral, a tosse seca que já mencionei e o nariz escorrendo (coriza). Com o passar do tempo, esses sintomas vão evoluindo, principalmente a tosse seca para crises de tosse mais intensas.
- Fase de tosse intensa: nesse ponto, a coqueluche quase não apresenta mais episódios de febre, entretanto, em alguns casos muito raros pode sim acontecer picos de febre ao longo do dia. O principal sintoma dessa fase são as intensas crises de tosse, que surgem de forma espontânea e rápida, podendo até mesmo causar vômito devido à força feita pelo abdômen. Somada à crise de tosse, uma pessoa nessa fase pode ter dificuldade para inspirar o ar e – em alguns casos – fazer um som agudo durante a inspiração. Em geral, essa fase dura de duas até seis semanas.
- Fase de recuperação: aqui, as crises de tosse começam a diminuir, tanto em frequência quanto em intensidade, mas podem permanecer por até três meses! Caso a pessoa tenha uma outra infecção respiratória durante esse tempo — como um resfriado, gripe ou covid-19 — pode haver um retorno das crises de tosse intensa, de forma temporária.
Como posso saber se peguei coqueluche? E como me trato?
Diagnosticar a coqueluche no começo dela é bastante difícil, justamente pelos seus sintomas serem muito parecidos com os de outras doenças respiratórias, ou mesmo com resfriados. O principal indicativo dela é a tosse seca e, tendo isso em mente, um médico pode pedir um exame para fazer o diagnóstico. O melhor exame para isso é via PCR em tempo real, o mesmo exame que se fazia em larga escala para detectar a covid-19, principalmente entre 2020 e 2022.
Já o tratamento é feito utilizando antibióticos, já que a causadora da doença é uma bactéria. Quanto mais cedo o diagnóstico é feito de forma correta, mais cedo é possível começar o tratamento com os medicamentos, a fim de se evitar complicações. A grande maioria das pessoas consegue se recuperar da coqueluche sem desenvolver problemas mais sérios, entretanto, casos graves podem acontecer principalmente em crianças menores de seis meses e pessoas imunossuprimidas, incluindo sintomas como: hérnias abdominais (devido à força frequente para tossir), infecções de ouvido, pneumonia, paradas respiratórias, convulsões e até a morte.
Nesse sentido, o modo mais fácil de se prevenir contra a coqueluche é através da vacinação!
Quem pode se vacinar contra a coqueluche?
Todo mundo pode se vacinar e muito provavelmente você se vacinou quando era criança! A vacina contra a coqueluche é uma das vacinas obrigatórias no Brasil e aplicada em crianças com até 6 anos, 11 meses e 29 dias. O foco nessa faixa etária é devido a serem as crianças aquelas que têm maior risco de desenvolver sequelas e formas mais sérias da doença, como comentei acima.
Além disso, o SUS também indica que gestantes, profissionais de saúde e parteiras tradicionais também se vacinem, justamente por estarem lidando ou poderem lidar com crianças. A vacinação em gestantes (mesmo que já tenha a pessoa já tenha sido vacinada e revacinada em outra gestação) é importante para que a imunização passiva do recém-nascido, via passagem de anticorpos maternos através do leite para o bebê.
Por fim, é importante todos nós lembrarmos que doenças respiratórias têm ciclos e, mesmo que pareça que elas não estão mais por aí, essas doenças podem voltar. A vacinação é e continua sendo a nossa melhor aliada na luta contra a coqueluche e, para ajudar nessa batalha, o governo federal vai fazer nos próximos dias uma consulta pública para atualizar essa vacina por uma mais nova, mais potente, que gera uma proteção melhor, mais duradoura e com efeitos colaterais menores!
Fiquem ligados aqui no EMRC porque logo mais teremos um texto fresquinho explicando sobre essa vacina.
Para saber mais:
- BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde de A a Z. Coqueluche.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde de A a Z. Situação epidemiológica da coqueluche.
- FANGET, Nicolas. (2020). Pertussis: a tale of two vaccines. Nature portfolio.
- KUCHAR, Ernest et al. Pertussis: history of the disease and current prevention failure. Pulmonary dysfunction and disease, p. 77-82, 2016.
- MELVIN, Jeffrey A. et al. Bordetella pertussis pathogenesis: current and future challenges. Nature Reviews Microbiology, v. 12, n. 4, p. 274-288, 2014.
- WARFEL, Jason M.; BEREN, Joel; MERKEL, Tod J. Airborne transmission of Bordetella pertussis. The Journal of infectious diseases, v. 206, n. 6, p. 902-906, 2012.
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