
Recentemente, o governo federal divulgou que haverá uma consulta pública para verificar a atualização da vacina de coqueluche, que até então era uma vacina pentavalente, e que, se for aprovada, passará a ser uma vacina hexavalente. Muitos nomes técnicos, né? O que é uma consulta pública? A coqueluche é uma doença perigosa? O que é uma vacina penta e hexavalente? E, afinal, essa vacina é mais segura? Bem, nos últimos dias, a equipe do Blogs Unicamp tem postado vários materiais aqui para explicar todas essas dúvidas. E no texto de hoje, vamos nos concentrar sobre essa nova vacina.
Por que esse nome “hexavalente”? O que isso significa?
O significado desse nome tem a ver com a quantidade de doenças que a vacina protege. No caso da pentavalente, que é aplicada no SUS, essa protege contra 1) difteria, 2) tétano, 3) coqueluche, 4) hepatite B e 5) infecções causadas pela bactéria Haemophilus influenzae B, todas doenças graves e que muitas vezes podem levar à morte.
Já a vacina hexavalente que está sendo cogitada como atualização, protege contra todas essas doenças citadas e também contra a poliomielite. Atualmente, a vacina contra pólio é dada em conjunto com a vacina pentavalente, entretanto, ainda são vacinas separadas. Em outras palavras, a criança recebe duas agulhadas. E aqui é a primeira vantagem para os pais de crianças pequenas: se a nova vacina entrar em vigor, será uma agulha a menos no braço do seu filho, com uma única vacina gerando uma grande proteção contra seis doenças, diferente do modelo anterior que necessitava de duas picadas.
Além disso, a vacina hexavalente tem uma grande vantagem contra a coqueluche, uma doença sobre a qual falamos recentemente aqui no EMRC. O componente da vacina hexavalente que gera a proteção contra a coqueluche é chamado de células inteiras. Em termos mais acessíveis, a vacina contém (entre outras coisas) a própria bactéria – causadora da coqueluche – inativada, ou seja, morta! Isso gera uma proteção maior, mais duradoura e eficiente.
Comparando com a vacina pentavalente, que usa pequenos fragmentos da bactéria chamados de antígenos, estes por si só garantem uma boa imunidade contra a coqueluche, mas esta é de curta duração e menos eficiente, quando comparada à imunidade garantida pela hexavalente. Por isso existe a necessidade das diversas doses de reforço da vacina pentavalente, algo que não foi previsto para a vacina hexavalente.
Como assim vai dar a bactéria inteira na vacina? Isso é perigoso? Já foi testado antes?
Vamos por partes aqui!
Nós já explicamos em outros materiais os diferentes tipos de vacinas, então esse não será o nosso grande foco. Mas, para relembrar algumas informações:
É importante lembrar que essa estratégia de dar um patógeno inteiro em uma vacina, não é algo novo. A primeira vacina criada no mundo, lá em 1796, contra a já extinta varíola, já era uma vacina que utilizava o patógeno inteiro na imunização. A estratégia “nova” da vacina hexavalente é só trocar o componente acelular da coqueluche, por um componente celular. Ainda ficou confuso?
Quando falamos que uma vacina tem um componente acelular, queremos dizer que o que vai gerar a imunidade contra um patógeno e a proteção contra uma doença são os fragmentos (chamados de antígenos) daquele patógeno. Por exemplo, a vacina pentavalente atual usa componentes acelulares da coqueluche, isto é, pequenos fragmentos da bactéria são apresentados ao organismo, e não a bactéria inteira.
Já quando falamos de uma vacina com componente celular ou também de células inteiras, estamos falando de duas alternativas: 1) uma vacina com o patógeno enfraquecido (mas ainda vivo); 2) uma vacina com o patógeno inativado, ou seja, morto. A estratégia escolhida vai depender do grau de diversas características do microorganismo, como a sua capacidade de gerar uma resposta imune (chamada de imunogenicidade, dentro da biologia) e a capacidade de — mesmo enfraquecido — gerar reações adversas muito fortes. No caso da vacina hexavalente, esta é ainda mais segura porque usa a segunda opção, de utilizar a bactéria da coqueluche morta.
Ok, a vacina hexavalente é melhor, mas qual é a vantagem de se assumir ela no lugar da pentavalente? Não vai dar na mesma?
Em termos puramente biológicos, a grande vantagem da vacina hexavalente é o tipo de resposta e memória imunológica que ela gera contra a coqueluche. Enquanto a vacina pentavalente acelular gera uma resposta boa, ela não é tão focada no combate a bactérias. Quer dizer que ela não funciona? Pelo contrário, ela funciona muito bem. Mas a resposta gerada pela vacina hexavalente celular é mais eficiente e mais potente.
Falando de tempo, a duração da proteção da vacina hexavalente celular é maior, do que comparada com a vacina pentavalente acelular, que depois de 2 ou 3 anos já necessita de doses de reforço. É por isso que, normalmente, as crianças recebem 6 doses da pentavalente: três doses primárias (com 2, 4 e 6 meses) e três doses de reforço (12-23 meses, 4-7 anos, 9-15 anos). Caso a vacina hexavalente seja incorporada no Plano Nacional de Imunizações, essas seis doses podem ser reduzidas para quatro!
E aqui começamos a falar de economia também. A dose da vacina pentavalente já é mais cara do que a dose da hexavalente. Ao considerar que são necessárias seis doses da pentavalente e somente quatro da hexavalente, a economia para o governo já fica maior ainda, significando maior disponibilidade dessa e de outras vacinas para a população inteira.
Então quer dizer que não tem nenhum ponto negativo?
O único ponto discutível sobre a vacina hexavalente são seus efeitos colaterais ou, como é dito dentro da medicina e epidemiologia, as reações adversas (como dor, inchaço no local, febre, irritabilidade, choro). Durante a fase de testes da vacina hexavalente, foi observado que havia sim uma quantidade maior de reações adversas nas primeiras três doses desta quando comparada à pentavalente. Contudo, ao levar em conta as reações adversas geradas pelas doses de reforço da vacina pentavalente, essas ficam iguais. Em suma: ambas as vacinas causam o mesmo tipo e proporção de reações adversas.
Também é importante dizer que todas as reações observadas nos testes da vacina hexavalente estavam dentro do limite esperado, isto é, o considerado “normal” para qualquer vacina. É importante lembrar que toda vacina vai causar em uma pequena porcentagem da população algum desses efeitos. O problema é quando a quantidade de pessoas tendo efeitos adversos é maior do que o esperado. Para isso, existe a farmacovigilância, que foi explicada neste texto.
Finalizando, o grande ponto desse texto foi desmistificar alguns boatos sobre essa nova vacina que pode começar a fazer parte do calendário anual de vacinação no Brasil. Como toda nova vacina, ela é estudada, avaliada e discutida pela Anvisa e outras entidades do Ministério da Saúde. E logo menos, acontecerá uma consulta pública do ministério para a atualização da vacina de coqueluche, que antes era a pentavalente, e, com a aprovação, será atualizada para a hexavalente. Nesse momento, é importante que você participe e vocalize para que essa mudança aconteça. Fique ligado aqui no EMRC, pois também iremos compartilhar materiais para que você possa participar desse processo.
Para saber mais:
- World Health Organization. (2015). Weekly epidemiological record: Pertussis vaccines: WHO position paper – August 2015.
- SHARMA, Hitt et al. A phase I, open label, clinical study to assess the safety and immunogenicity of indigenously developed liquid (DTwP-HepB-IPV-Hib) hexavalent combination vaccine in healthy toddlers aged 16–24 months. Human vaccines & immunotherapeutics, v. 18, n. 6, p. 2146435, 2022.
- SHARMA, Hitt et al. A phase III randomized-controlled study of safety and immunogenicity of DTwP-HepB-IPV-Hib vaccine (HEXASIIL®) in infants. npj Vaccines, v. 9, n. 1, p. 41, 2024.
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