Curiosidades: o que é ciência?

A ciência vai além da prática realizada por cientistas.

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O que é ciência?

Se você acompanha este blog, muito provavelmente você é uma pessoa que gosta de ciência e pensa em seguir carreira nessa área. Mas, você já se perguntou o que é, de fato, a ciência? Ao contrário do que possa parecer, a resposta para esta pergunta não é nada simples e muitos filósofos, sociólogos e historiadores passam a vida estudando esse tema e divergindo sobre qual definição dar à palavra (e sobre se os cientistas, de fato, praticam em suas pesquisas o que diz a teoria).

O sociólogo da ciência Robert Merton, por exemplo, afirma que este é um termo inconclusivo, que pode se referir a uma variedade de coisas, como [1]:

  • Um conjunto de métodos por meio do qual o conhecimento é certificado;
  • Um estoque de conhecimento acumulado que se origina da aplicação desses métodos;
  • Um conjunto de valores e costumes culturais que governam as atividades consideradas científicas;
  • Qualquer combinação dessas três definições.
Plot + Scatter: It all starts with the question

Mas, para fins introdutórios, podemos dizer que ciência se refere à atividade de buscar conhecimento sobre a natureza com o objetivo de explicar o funcionamento do universo. Seguindo esse objetivo, é papel dos cientistas fazer observações, verificações, medições, análises e classificações que permitam compreender os fatos e pensar, com base nesses fatos, em soluções para os problemas da sociedade [2].

A partir dessa definição é possível constatar algumas características da ciência [3]: Em primeiro lugar, ela não é uma crença inquestionável, como a religião. Enquanto esta se baseia em dogmas que devem ser aceitos pela fé, as afirmações científicas precisam ser fundamentadas em dados e devem ser passíveis de testagens, de forma que qualquer pessoa, a partir daqueles dados, possa chegar às mesmas conclusões.

É por isso que uma parte fundamental da ciência é a publicação dos seus resultados em periódicos de grande visibilidade, para que ocorra a chamada avaliação por pares. E é por isso também que, ao longo da história, muitas teorias e fatos científicos foram substituídos por outros. Quando novos dados e evidências apontam que uma informação está errada, o correto, de acordo com os preceitos científicos, é estudar essas informações a fundo e, se necessário, abandonar tais visões (dentro de um consenso entre os pares).

Além disso, a ciência também não é um argumento de autoridade. Ou seja, não basta dizer que um determinado fato é verdade simplesmente porque uma suposta autoridade disse que é assim. É preciso ter em mente que, como uma atividade humana, a ciência está sujeita a erros e vieses e, portanto, qualquer afirmação, mesmo que a fonte seja um especialista, deve vir acompanhada de sua justificação.

Por último, outra característica da ciência é que ela foge do senso comum, que são aqueles conhecimentos populares transmitidos socialmente e confirmados pela observação e experiências individuais. Ou seja, que não foi testado metodicamente. Um exemplo disso é a afirmação de que algumas ervas ajudam no tratamento de dores e outras mazelas.

Embora muitas plantas tenham propriedades medicinais e sejam utilizadas na produção de fármacos, não basta apenas tomar um chá e constatar que a sua dor passou. Essa observação pode ser usada para formular uma hipótese, mas é preciso realizar diversos testes e medir os resultados para poder chegar a uma conclusão científica de que aquela planta específica tem, de fato, propriedades medicinais.

História da Ciência

O resumo da História da Ciência é uma tarefa difícil de ser alcançada, eis que ligada à própria existência do homem e ao conhecimento que ele desenvolveu ao longo do tempo. Além disso, a evolução da ciência tem relação também com a sua definição que não é unívoca entre os filósofos e os estudiosos do tema (MARTINS, 2005) [4].

Assim, para uma introdução e sem qualquer pretensão de esvaziamento do assunto, será abordada, de forma sucinta, a arqueologia do saber proposta por Michel Foucault em sua obra denominada As Palavras e as Coisas [5]. De acordo com Michel Foucault, no decorrer dos séculos, a ciência pode ser enquadrada em três diferentes períodos em que é possível a identificação de características próprias de cada um sobre a produção do saber: renascimento, classicismo e modernidade.

O renascimento data até o final do século XVI. Nele, o conhecimento era baseado na semelhança com a natureza, por exemplo, o céu imitando a terra ou as veias sanguíneas do corpo humano como os rios. Mas tal forma de sabedoria encontrou um limite inexplicável que se pautava na magia ou no poder divino. Assim, a partir do século XVII, com o início do período do classicismo, o conhecimento passou a procurar justificativa para afastar o poder divino e a magia, em especial com base na matemática. Por exemplo, o astrônomo e matemático Nicolau Copérnico que desenvolveu a teoria heliocêntrica do Sistema Solar (a Terra não era o centro, mas, na verdade, o Sol).

Fonte: https://www.mmufo.com.br/heliocentrismo-e-geocentrismo/

O período do classicismo é o tempo que contribuiu para como atualmente a ciência é considerada com validade. É o período que atribuiu o saber como válido se tiver um objeto específico de estudo que será abordado por meio de uma metodologia matemática e representativa da realidade. Ocorre que, para Michel Foucault, o período da modernidade – que ainda estamos – por ele identificado a partir do século XVIII, acrescentou outro significado para a ciência, em especial quando Immanuel Kant desenvolveu uma teoria crítica à razão e quando René Descartes afirmou a sua conhecida frase “Penso, logo existo”.

O período da modernidade, em continuidade ao classicismo, inseriu uma abordagem empírico-transcendental à ciência, pois passou a incorporar o homem como objeto de estudo e ainda considerar que o saber decorre do pensamento humano e, por isso, pode ter influência de elementos psíquicos em seu desenvolvimento, considerando assim a psicologia como ciência, por exemplo.

Mas a questão é que a ciência deve ser compreendida junto ao conhecimento, cuja validade dependerá do tempo em que se está. Interessante a física quântica que foi fragmentada da física que não conseguia mais respostas a certos objetos, em escala de dimensões reduzidas [6].

Como se faz ciência?

A ciência é feita pela busca de respostas a questionamentos. As perguntas originam hipóteses que devem ser comprovadas utilizando o método científico. Uma vez que as respostas sejam encontradas e as hipóteses sejam confirmadas ou não, os resultados estão prontos para ser disseminados para o público. Assim, o conhecimento no meio científico é gerado por meio da criatividade, do questionamento, da racionalidade e da objetividade, amparadas pelo método científico.

A ciência não é uma crença inquestionável, pois toda afirmação científica deve ser fundamentada e passível de testes, tornando possível que qualquer pessoa possa chegar às mesmas conclusões utilizando os mesmos métodos [7].

Mas, o que é o método científico?

O método científico pode ser definido com um conjunto de regras básicas que o cientista usa para desenvolver experimentos que irão produzir novos conceitos ou corrigir/integrar conhecimentos já existentes [8]. Existem alguns tipos de métodos científicos de acordo com cada área, sendo eles o (1) experimental, que será discutido a seguir e é amplamente utilizado pelas áreas Exatas e Biológicas; o (2) empírico-analítico, que se baseia na lógica empírica, com observação de fenômenos e análise estatística, mais utilizado pela ciências sociais e naturais; o (3) dialético, que considera fenômenos históricos e sociais; e o (4) histórico, que relaciona o objeto ou fenômeno estudado às etapas pelas quais eles passam em ordem cronológica [9].

Para colocar em prática o método científico experimental, alguns procedimentos são seguidos, conforme descrito a seguir [8,10]:

  1. Observação: o pesquisador detecta algo a ser investigado, por exemplo, um material ou um fenômeno físico ou químico;
  2. Problematização: para elaborar o problema, pode-se formular uma pergunta, como por exemplo “Por quê e como esse fenômeno ocorre? Quais são os fatores que originaram ele?” ou então “Qual é a composição do material e qual a sua importância?”;
  3. Hipótese: a partir do questionamento, propõe-se respostas às perguntas, as quais serão posteriormente testadas e avaliadas. Essas respostas podem ser pautadas em seu conhecimento prévio sobre fenômenos ou materiais semelhantes, baseando-se em ciência de qualidade;
  4. Experimentação: com base nas hipóteses levantadas, o cientista fará experimentos e pesquisas bibliográficas com o objetivo de encontrar a resposta para cada um dos questionamentos que foram elaborados;
  5. Avaliação: por fim, os resultados obtidos serão analisados para que o cientista tenha algumas conclusões. Caso os resultados não sejam satisfatórios, novas hipóteses podem ser levantadas. Caso sejam, será possível fazer afirmações acerca dos fenômenos ou materiais analisados, chamadas de teorias. Quando diferentes hipóteses e experimentações são realizadas e o resultado é sempre o mesmo, as teorias são consideradas como leis.

A figura a seguir ilustra cada uma destas etapas na ordem em que são realizadas:

Fonte: imagem produzida pelas autoras

Vamos exemplificar…

Imagine que um dia você acorda pela manhã com manchas vermelhas no corpo. Diante desse fato, você se pergunta: “O que eu fiz de diferente nos últimos dias?”. Você sabe que não comeu nada de diferente, mas se lembra que finalmente começou a usar aquele novo creme que ganhou de aniversário: “Será uma alergia ao creme?”. Essa pergunta te leva à fase de teste. Depois de alguns dias sem usar o creme novo, as manchas desaparecem. Ao tentar usar o creme novo, mais uma vez, as manchas voltam. Você constata junto com o dermatologista que sim, esse é o motivo da alergia. Simplificando, você observou um fenômeno (manchas vermelhas), bolou a hipótese (“será o creme novo?”) e fez testes (usando novamente o produto e indo ao médico). Com a conclusão, agora você consegue prever que terá alergia quando usar esse produto [11].

Pensando assim, todos nós usamos o pensamento científico muitas vezes ao longo da vida. Ele é uma estratégia bastante útil na tomada de decisões, como a de usar ou não o novo creme. Esse exemplo simples nos mostra como questionar e desenvolver o pensamento crítico sobre o mundo ao nosso redor nos ajuda a constatar fatos, tomar melhores decisões (por exemplo relacionadas a nossa saúde) e até mesmo a combater fake news. 

Para finalizar, podemos pensar em como a eficácia das vacinas contra COVID-19, por exemplo, foram testadas [12]:

  • Pergunta: Qual a eficácia da vacina “V” contra COVID-19?
  • Hipótese: Baseado em testes de laboratório, a eficácia da vacina é de “X” %.
  • Teste: Voluntários são recrutados e divididos em grupos semelhantes, com a diferença de que em um deles há acesso à vacina e no outro, não.
  • Resultado: A quantidade de infectados no grupo que não recebeu a vacina reflete o que aconteceria na ausência da vacina. E a diferença da quantidade de infectados entre os dois grupos reflete quantas pessoas deixaram de ter a doença por causa da vacina.
  • Análise dos resultados: A eficácia é obtida dividindo-se a diferença da quantidade de infectados no grupo que recebeu a vacina pela quantidade no grupo controle.

Quem pode fazer ciência?

Qualquer pessoa pode fazer ciência! O cientista, a criança, o aluno, o chef de cozinha, o padeiro, o mecânico, qualquer pessoa mesmo. Para se dedicar como profissional, por exemplo, trabalhar como pesquisador em uma indústria, universidade ou até em um instituto de pesquisa é necessário anos e anos de estudo. Depois da graduação (oportunidade de escolher o que ama fazer), é necessário começar os estudos de pós graduação, que pode ser composta por um mestrado e por um doutorado (existe a opção de pular o mestrado e ir direto para o doutorado – doutorado direto) aí sim você é categorizado como cientista com diploma. Seu título será “Doutor” e você se identificará no mercado de trabalho como “Fulano de Tal, Ph.D.” que vem da sigla em inglês (Philosophy Doctor – doutor em filosofia).

Como imaginamos um cientista

Por muito tempo, os filmes criaram estereótipos de cientistas como homens, geralmente brancos e com extrema loucura. Os filmes nos mostraram que uma característica do cientista é a genialidade beirando a demência: um cientista faz coisas muito avançadas que alguém “normal” não poderia fazer. Esses estereótipos que foram colocados no cinema fazem com que a profissão de cientista seja vista como anormal ou que não se enquadre nos “padrões” da sociedade. E isso faz com que a população se distancie das questões científicas, pois pensa que são questões muito complexas e que só os gênios podem entender. E isso também limita a representatividade de nos vermos como cientistas, por isso é necessário fazer mais divulgação de cientistas reais. Pessoas que comem, dormem, choram, que têm sentimentos e que podem ser alguém da sua família ou até mesmo você.

Lembram do filme Frankenstein, o qual mostrava um cientista maluco, esquisito, mas que também era extremamente comprometido com seu trabalho e também era ótimo no que fazia? Pois é, muitos de nós ficamos com essa representação de quem trabalha no laboratório e faz ciência. 

Fonte: Creative Commons

Quem é então um verdadeiro cientista?

Fonte: Creative Commons

Todos nascemos cientistas. Quando somos crianças, somos muito curiosos, fazemos muitas perguntas e, às vezes, propomos algumas soluções, baseadas em experiências. Não se parece com o método científico? Mas a sociedade e, muitas vezes até nossa família, não estimula essa curiosidade e pouco a pouco vamos perdendo o interesse pelo saber. Mas a curiosidade é uma habilidade, a qual podemos colocar novamente no nosso dia a dia.

Os cientistas nos tempos antigos podiam ser mais parecidos com o Einstein, aquele cientista de cabelos desgrenhados, introvertido e meio maluco.

Marie Curie, uma das mulheres cientistas, também tinha uma aparência semelhante, um aspecto sombrio. Eles eram realmente gênios, mas nem todos os cientistas precisam ser gênios para trabalhar com pesquisa e ciência. Recomendamos que assistam o filme “Radioactive“, que atualmente está disponível na Netflix, onde mostra um pouco a vida dessa cientista.

Fonte: Creative Commons

Não existem padrões do que deveria ser um cientista, mas sim a dedicação ao estudo e à busca por soluções, de maneira coerente e válida, para o bem da sociedade. E qualquer pessoa pode fazer isso.

Aumente a sua curiosidade e seja um(a) cientista!

Vamos #cienciaromundo 

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#todososomoscientistas

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Autoras: Luisa F. Ríos Pinto, Carolina F. Ferreira, Paula Penedo, Regiane Alves de Oliveira, Gabriela F. Ferreira.

Referências

[1] MERTON, Robert K. Ensaios de Sociologia da Ciência. Anne Marcovich, Terry Shinn (org.). São Paulo: Associação Filosófica Scientiae Sudia / Editora 43, 2013. 304 p. 

[2] Ver em: https://canaltech.com.br/ciencia/o-que-e-ciencia-metodo-cientifico-e-divulgacao-cientifica-155693/

[3] Ver em: https://www.politize.com.br/o-que-e-ciencia/

[4] MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira. História da ciência: objetos, métodos e problemas. Ciência & Educação, v. 11, n. 2, p. 305-317,2005. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/ciedu/v11n2/10.pdf Acesso em 25 mai. 2021.

[5] FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução: Salma Tannus Muchail. 10 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2016. 541p. 

[6] Ver em https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/fisica/o-que-e-fisica-quantica.htm Acesso em 25 mai. 2021

[7] Ver em https://www.politize.com.br/o-que-e-ciencia/ Acesso em 25 mai. 2021

[8] Ver em: https://mundoeducacao.uol.com.br/quimica/metodo-cientifico.htm

[9] Ver em: https://canaltech.com.br/ciencia/o-que-e-ciencia-metodo-cientifico-e-divulgacao- cientifica-155693/ 

[10] Ver em: https://brasilescola.uol.com.br/quimica/metodo-cientifico.htm

[11] Ver em https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2020/02/como-voce-usa-o-metodo-cientifico-no-dia-dia-sem-perceber.html Acesso em 25 mai. 2021

[12] Ver em https://www.insper.edu.br/conhecimento/politicas-publicas/entenda-o-metodo-usado-no-teste-de-vacinas-contra-a-covid-19/ Acesso em 25 mai. 2021

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