Zohnerismo (parte 1): A arte de levar a falsas conclusões com fatos verídicos. (V.3, N.6, 2017)

Antes de começar o nosso tema, preciso alertar vocês sobre uma substância química inodora e incolor chamada monóxido de dihidrogênio, também conhecida como DHMO (do inglês, dihydrogen monoxide). Assim como o monóxido de carbono, o DHMO é um dos agravantes do efeito estufa, além disso, o DHMO causa diversos efeitos negativos ao meio ambiente e a vida humana, abaixo listo alguns:

Fatos sobre o DHMO
Também conhecido como ácido hidroxílico, é um dos principais componentes da chuva ácida.
Acelera a corrosão de diversos metais.
Pode causar erosão do solo, principalmente de áreas desmatadas, modificando o terreno local.
A substância foi encontrada em grandes quantidades em células cancerígenas e tumores.
Existem diversos casos comprovados de mortes devido a sua inalação.
Na forma gasosa pode causar queimaduras graves.

Apesar destes fatos, o DHMO não é uma substância regulada, sendo encontrada em diversos setores da indústria:

Usos do DHMO na indústria
Nas industrias químicas, o DHMO é conhecido por ser um potente solvente, as vezes é chamado de solvente universal.
Na industria automotiva é usada para produzir o ácido de bateria dos carros.
É usada em larga escala em usinas nucleares para produzir energia elétrica.
Muitas vezes é usada na distribuição de pesticidas, de forma que mesmo depois de lavados os produtos continuam contaminados com esta substância.
É liberada juntamente com os rejeitos de mineração, como os da mineradora Samarco , responsável pelo desastre de Mariana.

Como você acha que a sociedade deve se posicionar diante do DHMO? Devemos lutar pelo banimento do DHMO? Pela regulamentação do DHMO nas industrias?

Lendo este texto qual foi a sua reação? Fazer protestos,petições e textões no Facebook sobre os perigos do DHMO? Pensa em pesquisar sobre o DHMO no Google para entender melhor o assunto? Ou prontamente reconheceu que monóxido de dihidrogênio (uma molécula com um átomo de óxigênio e dois de hidrogênio, ou H20) é um nome pomposo para a nossa velha e conhecida água?

A molécula de água é composta de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio.

Para os que não reconheceram o DHMO como água, recomendo reler as tabelas acima e perceber que todos os fatos apresentados são verdadeiros, apenas foram escolhidos a dedo para causar preocupação e levar a falsa conclusão de que a água é uma substância perigosa e que deve ser regulamentada. Isto é um exemplo de zohnerismo.

Em 1997, um estudante estadunidense de 14 anos chamado Nathan Zohner distribuiu um texto chamado “Monóxido de dihidrogênio: Um assassino não reconhecido” aos seus colegas de classe e pediu para que assinassem uma petição para banir o DHMO. Dos 50 alunos, 46 votaram por banir a “perigosa” substância.  Analisando o resultado de sua experiência, Zohner ganhou a feira de ciências de Greater Idaho Falls com o trabalho “Quão crédulos nós somos?”.

Matéria de James Glassmann sobre o tema ao Washington Post (em inglês, clique para ler)

Isto levou o jornalista James Glassmann (The Washington Post) a criar o termo zohnerismo como “o ato de usar fatos verídicos para levar um publico matemática e cientificamente ignorante a uma conclusão errônea”.  Talvez o leitor não pense que o zohnerismo seja um grande problema, mas pense como alguns membros mídia usam isso a seu favor, como quando falam que o aquecimento global não é um problema pois as concentrações de carbono e o aumento de temperatura funcionam em ciclos naturais; Ou mesmo quando apontam apenas estudos sobre os malefícios das drogas para justificar a guerra anti-drogas (e não os estudos sobre o impacto social desta mesma guerra).

Certamente não defendo que toda a população seja cientificamente treinada para fugir dos perigos do zohnerismo, mas é necessário termos uma espécie de cultura científica, de modo a saber como a ciência funciona e quando algo parece estar errado. Perceba que diferente de 50 anos atrás, temos a possibilidade de fazer uma rápida pesquisa no Google  (ou seu buscador favorito) e entender quando algo foi escrito a dedo para induzir a um falso entendimento de um determinado assunto.

Uma busca de 10 segundos pode fazer toda a diferença.

Neste texto apresentarei um tipo comum de zohnerismo: A confusão entre correlação e causalidade. Na parte 2, pretendo abordar outro tipo de zohnerismo, a tomada de conclusões sem significância estatística.

Correlação x Causalidade

Correlação não implica em causalidade” deveria ser a primeira lição em qualquer curso de ciências, possivelmente é algo que deveríamos aprender até mesmo no ensino médio. Mas o que significa esta frase?

De forma qualitativa dizemos que duas variáveis estão correlacionadas quando percebemos um padrão entre elas, por exemplo: Considere que façamos uma pesquisa em uma população perguntando a cada pessoa o número de livros lidos no último ano e sua renda mensal. Se percebermos que a renda mensal de um individuo desta população é maior quanto mais livros ele leu, então a renda mensal e o número de livros lidos estão correlacionados.

Já a causalidade é uma relação de causa e consequência entre duas variáveis. Exemplo: O número médio de sapatos vendidos por dia em uma loja e o faturamento mensal da mesma possuem uma  relação de causalidade, pois o aumento do número de sapatos vendidos diariamente causa o aumento do faturamento mensal da loja.

Voltemos agora ao primeiro exemplo, mesmo que o número de livros lidos anualmente e a renda mensal de uma população estejam correlacionados, não temos uma relação de causa e consequência. Assim, se um indivíduo da nossa população hipotética começa a ler mais livros, isto não causa o aumento de sua renda mensal; Analogamente, se o indivíduo conseguir aumentar seu rendimento mensal, isto não fará este indivíduo ler mais livros.

Um exemplo mais satírico e bastante famoso na internet é o gráfico abaixo:

Gráfico da temperatura global média em função do número aproximado de piratas.(sem escala)
Fonte: Wikimedia Commons

Neste gráfico são mostrados valores da temperatura média da Terra (eixo vertical) pelo número aproximado de piratas (eixo horizontal), os autores deste gráfico afirmam de forma sarcástica que a queda do número de piratas na Terra é a causa do aquecimento global.

Entendendo esta técnica de zohnerismo é fácil pensar em exemplos que encontramos no dia-a-dia, como por exemplo dizer que nascer em um determinado mês faz com que a criança tenha determinados traços de personalidade; Ou apontar dados sobre porcentagem de porte de armas em determinadas cidades e o número de assaltos nas mesmas e dizer que uma população armada esta mais segura, sem analisar outros dados como a qualidade de vida, a renda per capita ou a taxa de escolaridade nestas cidades; Outro exemplo é relacionar uso de vacinas com o autismo, enfim os exemplos são infindáveis.

A indução da falsa conclusão de igualdade entre correlação e causalidade é especialmente utilizada na mídia quando tratam de assuntos relacionados as ciências humanas, onde o número de variáveis que podem afetar o sistema em estudo é enorme, tornando a análise de dados e a tomada de conclusões extremamente difícil, impossibilitando conclusões simplistas.

Se fosse tão fácil detectar relações de causa e consequência boa parte dos cientistas estariam desempregados! Encontrar correlações é apenas o primeiro passo do método científico, é preciso elaborar teorias que expliquem estas correlações e fazer outras predições mensuráveis para testá-las, além disso, estes testes devem ser replicados por outros cientistas. Conseguir fazer uma afirmação baseada em ciência leva bastante tempo e necessita um esforço coletivo de diversos cientistas pelo mundo.

Por hoje é tudo pessoal! Fiquem atentos em como pessoas mal intencionadas tentam te levar a conclusões errôneas ou precipitadas.E se você lembrou de algum uso de zohnerismo que viu recentemente, me conte nos comentários!

Na parte 2 falarei um pouco sobre experimentos feitos com um espaço amostral ruim e como isto invalida as suas conclusões.

Saiba mais:

[1] Spurious Correlations  (Em inglês) – Site que mostra diversas variáveis que possuem forte correlação mas que levariam a conclusões absurdas, como o consumo per capita de queijo mussarela por ano e o número de doutorados concedidos em engenharia civil por ano.

[2] Palavras ao vento: como a imprensa divulga a ciência – Artigo da Luciana Mofatto do blog Terabytes of life que critica como a mídia popular divulga ciência, dando como exemplo o caso recente da Fosfoetanolamina.

Referências:

[1] Dihydrogen monoxide: Unrecognized Killer, James K. Glassman, The Washington Post, 1997.

[2] Dihydrogen monoxide hoax, Wikipedia.

[3] Dihydrogen monoxide research division.

11 thoughts on “Zohnerismo (parte 1): A arte de levar a falsas conclusões com fatos verídicos. (V.3, N.6, 2017)

  1. Ótimo texto, bem didático. Curiosamente dei aula sobre algumas questões de ética e de metaciência ontem e usei alguns destes exemplos. Acho que seria bacana ter usado o exemplo do DHMO que eu não conhecia ainda. De qualquer forma vou recomendar o post para os próximos cursos.
    O que achei curioso foi o exemplo da ‘falsa correlação entre uso de vacinas e autismo’ para o zohnerismo. Existem dados reais mal analisados sobre isso? Realmente não pesquisei a fundo outros trabalhos que possam ter sugerido essa correlação. O que eu conheço é o caso do Andrew Wakefield que reportou de forma intencionalmente mentirosa os dados do artigo da Lancet, e que várias pesquisas que tentaram replicar seus resultados, obviamente, nunca chegaram a esta correlação.
    Abraços

    1. Olá Thiago,
      Obrigado pelo comentário!
      No caso do exemplo não estava pensando em um estudo em particular, mas sim em como vendem esta ideia, por exemplo citando casos específicos de crianças autistas que tomavam vacinas (relacionado ao tema que abordarei no próximo post, sobre espaços amostrais ruins), ou quando fazem correlações bastante genéricas do tipo “o número de crianças vacinadas está crescendo com o passar dos anos, e os diagnósticos de autismo também”.
      Acredito que para conseguir qualquer relação entre autismo e vacinas será preciso manipular de forma intencional a coleta de dados (comprometendo o espaço amostral), por exemplo usando uma técnica chamada “p-hacking” que consiste de forma qualitativa em monitorar a estatística enquanto os dados são coletados e parar a coleta quando a analise estatística mostra o resultado que se queira.
      Não posso comentar mais a fundo pois meus conhecimentos de ciências biológicas são bastante limitados.

      Abraços, Eduardo.

      1. Sim, entendo. O que me deixou encucado mesmo é que Zohnerismo está definido no texto como “o ato de usar fatos verídicos para levar um publico matemática e cientificamente ignorante a uma conclusão errônea”.

        Só que os dados sobre Vacina e Autismo não são verídicos. No caso não seria Zohnerismo, seria “mentira mesmo, na cara dura (rs)”, certo?

        1. O Wakefield com certeza mentiu (e realmente, na cara dura) quando publicou seu artigo no The Lancet, pois ele manipulou os dados (tanto que sua a licença médica dele foi revogada e o artigo teve de ser retratado).

          Mas uma pessoa pode escolher a dedo citar o “estudo” do Wakefield e isto é verdade no sentido de que o artigo existe. Essa roupagem científica que da o caráter do Zohnerismo, um exemplo é o caso do aquecimento global, empresas contratam cientistas para publicarem artigos dizendo que o aquecimento global não tem causa humana, ou que ele é natural… Como o tempo científico é lento, leva um certo tempo até esses “estudos” serem contestados e desmascarados; E até isso acontecer novos “estudos” surgiram, de modo que as emprestas dizem que “existem estudos contrários”, “não existe consenso científico” e outras afirmações do gênero, que tecnicamente não são mentiras, mas é cenário forjado.

          Se você se interessa por este caso da vacina em particular, recomendo este vídeo (está em inglês, mas se precisar da pra ativar a legenda traduzida automática que quebra um galho): https://www.youtube.com/watch?v=7VG_s2PCH_c
          Neste vídeo citam um documentário, que eu ainda não assisti, mas parece interessante chamado Vaccines – Calling the shots: https://www.youtube.com/watch?v=wqbH40Y9XJw

  2. Caraca, texto muito legal. Achei genial o exemplo do DHMO. O post foi uma aula de lógica, só que muito mais didático do que as que eu tive na faculdade hahaha.
    Eu usei esse conceito do Zohner (chamando ele de sofismo, acho que são a mesma coisa) quando escrevi sobre gamificação. Os caras usam as seguintes premissas: 1) Jogos são envolventes, interessantes, engajadores e motivantes; 2) A vida real muitas vezes é chata, rotineira e desmotivante; e com essas premissas verdadeiras chegam à conclusão (cuja falsidade é facilmente demonstrável hehe) de que a vida, então, pode ser melhorada se transformada em um jogo.
    É só um exemplo, mas isso é muuuito usado por aí. Esse seu post é de utilidade pública! hahaha
    Abração!

    1. Olá Lucas,
      Obrigado pelo comentário!
      Então, acho que sofisma seja um termo mais técnico, tanto que é ensinado nas aulas de lógica, ao contrário de zohnerismo (que eu aportuguesei de “zohnerism”) criado por um jornalista. Além disso, acredito que o zohnerismo seja uma forma específica de sofisma, quando se tenta vender uma ideia falsa com uma roupagem científica, abusando da falta de conhecimento científico da população alvo.
      Gostei bastante do exemplo!. Apenas de ser “facilmente demonstrável” como falso para nós, acredito que boa parte da população não consegue enxergar as falhas lógicas desse raciocínio… Então é nosso papel mostrar isto ao público em geral.

      Abraços, Eduardo.

      1. Ah, entendi. Faz sentido. O Zohnerismo quase que entra naquela categoria de falácias lógicas também ne, que precisam muito ser mais esclarecidas pra população em geral. E puts, realmente os exemplos pra isso são infindáveis.

  3. Parabéns, Eduardo, muito bom o texto!
    Concordo totalmente com a necessidade de maior divulgação da ciência para a população. Mas, infelizmente, o que falta é uma base científica que não é dada pela formação tradicional. Enquanto a escola se preocupar apenas em transmitir conhecimentos prontos e avaliar o quanto os alunos se lembram nas provas, provavelmente a população continuará na ignorância…
    Abs.

    1. Olá Cassio,

      Realmente, um problema da nossa forma de ensino é ensinar várias técnicas de resolução de problemas (as famosas fórmulas) sem mostrar o motivo delas funcionarem, qual a lógica por trás, qual raciocínio leva a elas… Mas enquanto a escola for considerada um “pré-vestibular” e o formato de seleção para as universidades não mudar, vai ser difícil mudar alguma coisa… E isto priva os alunos desse “bom senso científico”, tão necessário na sociedade atual.

      Outro problema é que é bem mais complicado avaliar os alunos quando tentamos ensinar temas mais subjetivos como lógica ou interpretação. Ainda mais do jeito que o conhecimento é subdividido na educação formal, onde por exemplo, interpretação de texto é uma matéria de português, lógica é uma área da matemática e filosofia é uma matéria independente… De forma que estes conceitos ficam desconexos, uma vez que as disciplinas não conversam…

      Abraços, Eduardo.

  4. Lendo sobre zohnerismo me lembrei da teoria das ‘broken windows’ da escola criminológica da Tolerância Zero. Nascida na Nova Iorque dos anos 90 aproximadamente, o prefeito disse que os prédios inutilizados e vandalizados (por isso janelas quebradas) eram causa do aumento de criminalidade da cidade e, portanto, era necessária a adoção de medidas rígidas e de tolerância zero até com os delitos mais simples (como o próprio vandalismo) para acabar com a criminalidade.
    Coincidentemente, as taxas de criminalidade realmente caíram, o que deu aparência de verossímil ao que o prefeito havia dito. Porém, pesquisadores apontam que há correlação mas não há causalidade entre desordem e crime. Além de apontarem que houveram diversos fatores que fizeram com que o a criminalidade diminuísse, como por exemplo o fortalecimento da economia nova-iorquina e a diminuição do desemprego.
    Excelente texto que me provocou vários pensamentos, parabéns!!

    1. Que legal! Já ouvi algo sobre essa história das janelas, mas nunca fui atrás de detalhes! Vou ler mais sobre, obrigado pela recomendação!

      E fico feliz que o texto tenha te provocado tanto hahaha

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