Embate contra o Mestre da Casa de Bonecas

Na Itália, em 1872 o Palácio do Quirinal se tornou um local de terror, repleto de suicidios e loucos. Foi menos de um ano depois do rei ter confiscado do próprio papa aquele local, ignorando as advertências do pontífice a respeito dos cuidados com a edificação, seguiu em adaptá-la aos seus padrões pessoais. Paredes foram derrubadas, muita terra escavada até que os casos começassem. De serviçais a membros da aristocracia, eventualmente começaram a aparecer mortos ou loucos. Os médicos passaram a considerar o fenômeno como um surto de alguma doença, mas não conseguiam identificar a forma como ela era transmitia, pois parecia diretamente ligada ao interior do Palácio.

Tentaram desinfetar o Palácio para eliminar o que poderia estar causando aqueles sintomas, mas mesmo protegidos contra gases, alguns dos profissionais que entravam ainda eram afetados. O caso se viu sem solução, levando o rei ironicamente a pedir ajuda ao papa de quem havia confiscado o Palácio. O pontífice colocou a serviço do rei um simples vigário para ajudá-lo na investigação, contudo o papa justificou que ele era um homem de notável astúcia, tamanha que o próprio diabo teria receio de desafiá-lo para um jogo de azar. O rei contudo, encarou aquilo como uma zombaria do papa diante seu irônico pedido de auxílio, mas se conteve e deixou o vigário atuar.

O vigário após ser informado do caso e aceitar ajudar o rei, demonstrou completo desinteresse em visitar o Palácio, procurando primeiro um mapa do mesmo e chamando a todos os que estiveram no Palácio, desde os aristocratas aos serviçais para conversar individualmente. Suas ações levaram semanas, e eram tidas como uma perda de tempo, mas o vigário parecia pouco se importar com o que viessem a pensar dele.

Após as conversas e de tomar notas sobre elas, o vigário se preparou para entrar no Palácio, deixando claro que entraria sozinho e que nesse período ninguém deveria acompanhá-lo. Equipado como alguém que iria para uma expedição de vários dias na selva, o vigário adentra o Palácio com o mapa em mente e seguindo para um local do qual os entrevistados nada relatavam sobre.

O caminho seguia, quando um guarda veio correndo chamar o vigário, dizendo que o papa havia alocado outro sarcedote para aquela investigação. O vigário diante dessa mensagem, pediu ao guarda que esperasse, pegou uma moeda e começou a lançar para cima repetidas vezes e anotar seus resultados. O guarda estava impaciente, mas o vigário seguiu com suas ações, até que terminou-as, finalmente se virando de costas para o guarda e ignorando-o por completo, enquanto seguia seu trajeto. O guarda ficou falando, mas o vigário sequer se virou.

Seguindo seu trajeto, o vigário chegou a uma parte em que havia uma cratera no chão, sendo possível enxergar por ela o andar debaixo do Palácio. Novamente o vigário parou e começou a lançar sua moeda, até que decide pegar um outro caminho e evitar a cratera.

Outrora após abrir a porta rapidamente viu um grande lobo dentro de uma sala, comendo o que parecia ser uma das pessoas que se matou e cujo corpo não tinha sido removido. Ainda com a mão na maçaneta, com a porta fechada, voltou a jogar sua moeda tantas vezes quanto fazia. Depois disso, respirou firme e abriu a porta, o cheiro de carniça estava no ar misturado com o odor daquele animal, que olhava ferozmente para ele. Mas o vigário seguiu, passando rente ao corpo morto, com as entranhas expostas enquanto o lobo ameaçava avançar nele.

O vigário lançava repetidas vezes a moeda antes de comer ou dormir, e dependendo do resultado, seguia para outra sala e repetia o procedimento antes de realizar essas ações.

Vários dias se passaram desde que ele entrou no Palácio, os guardas do lado de fora achavam que ele já deveria ter morrido ou ficado louco. Mas seguiam esperando seu retorno ou novas ordens. Até que ouviram um grito alto e estridente, como se alguém estivesse agonizando. Esse grito se prolongou por mais do que eles podiam imaginar, era de fato uma agonia que não terminava, junto a um cheiro de madeira e carne queimada. Imaginavam que o vigário poderia ter ateado fogo em si mesmo para se matar, mas o capitão da guarda ficou mais preocupado com a possibilidade do Palácio incendiar-se com aquilo. Ordenando imediatamente que entrassem para conter as chamas.

Seguindo o cheiro da fumaça, os guardas a contragosto obedeceram, correndo até onde esperavam encontrar o corpo do vigário. Mas chegando lá, estava o vigário vivo controlando cautelosamente as chamas ao redor do que parecia ser a raíz de uma grande árvore, cujo formato parecia de uma criança agachada brincando e o som do estalo da madeira ao fogo, lembrava o grito de uma criança. Além de ter um cheiro que lembrava o da gordura queimando. O vigário surpreso com a chegada dos guardas que o enchiam de perguntas, mas o vigário pediu que esperassem enquanto nada respondeu ao que eles perguntavam, somente pegou sua moeda e voltou a jogar para cima. Após tantos lançamentos, o vigário então guardou a moeda e disse que já poderiam se retirar, pois se eles conseguiram chegar tão fácil até ali, então era um sinal de que havia conseguido eliminar aquele mau.

Após saírem do Palácio, vieram questionar o que havia ocorrido lá dentro, mas o vigário disse que fazer uma narrativa sobre aquilo em detalhes somente traria mais confusões e não serviria de nada a quem ouvisse. O caso enfim foi arquivado pelo vigário com o nome de Mestre da Casa de Bonecas.

Sobre o post

Esse é um conto de ficção sobre uma criatura capaz de criar ilusões a partir de seu imaginário. No caso, vários espólios das Cruzadas passaram por aquele Palácio, dentre eles, alguns que nunca deveria ter saído de seus locais de origem. A solução papal para esse problema séculos atrás, foi selar com concreto em definitivo vários corredores do Palácio, o que não foi compreendido nem pelos próprios cardeais, e ficou interpretado como uma doença que atingiu o Palácio e estariam isolando o foco de origem, sem que houvesse mais claro o que aconteceu de fato. Mas com as reformas do rei, esses locais foram abertos, e os que tiveram contato com essas partes acabaram sendo afetados pelo poder dessa criatura.

O levantamento inicial de dados daqueles que passaram pelo Palácio, serviu para o vigário definir essa hipótese e pensar em um método para se discernir entre o real e a ilusão. A ideia da moeda, já foi mencionada em outro post desse blog (Como se tornar um mestre em Pedra, Papel e Tesoura?), mas ela se baseia no fato de que imaginar a aleatoriedade é de fato difícil, para deixar mais claro, no livro “El azar en la vida cotidiana” de Alberto Rojo, há um famoso experimento de aleatoriedade no qual um professor pede para um grupo de estudantes lançar 100 vezes uma moeda e anotar os resultados e para o outro grupo inventar 100 resultados para o lançamento de uma moeda. Após completarem as duas listas, sem que o professor saiba qual é qual, entregam-no ambas. Ele então analisa a quantidade de resultados iguais seguidos.

Na primeira lista os resultados iguais seguidos variavam de 1 a 5. Enquanto na segunda lista os resultados iguais seguidos variavam de 1 a 8. Com isto o professor aposta que a segunda lista descreve os lançamentos da moeda e a primeira lista foi inventada. Pois é improvável em 100 lançamentos não obtermos sequências de mais que 5 resultados iguais seguidos.

Seguindo essa mesma dinâmica, o vigário em cada sala que entrava, ou em cada momento de dúvida sobre a realidade ou a ilusão, se colocava a jogar uma moeda centenas de vezes. Analisando a quantidade de resultados iguais em sequência, conseguia arriscar em dizer se aquele ‘evento’ de jogar moedas, foi real, ou foi uma ilusão forjada pela criatura. Por isso seu avançar no Palácio era extramente lento, mas também lhe dava alguma segurança para dizer quando uma ameaça era real ou não.

Crédito da imagem de capa a Jackie Ramirez por Pixabay

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