No Zero a gente leu “A História da Matemática” de Anne Rooney

Relembrando minha graduação em Matemática pela USP percebo como as coisas nos são apresentadas de modo direto e finalizado. Geralmente começamos com disciplinas de Cálculo e Geometria Analítica, mas em nenhum momento somos orientados sobre de onde surgiu o Cálculo ou a Geometria Analítica.

Você pode estar pensando, “ahw, mas saber como surgiu não é realmente tão importante… “ ou que isso seja mais uma questão de curiosidade, assim não valeria a pena “desperdiçar” do precioso tempo de curso para tais aspectos. Realmente acho que por algum tempo eu mesmo pensava assim. É um pensamento até que natural quando se convive naquele meio onde somos sufocados e levados ao limite da exaustão para alcançar o 5.0 nas provas. Diante uma estratégia de estudo voltada para obter suados 5 pontos, a compreensão sobre a história e contexto daqueles conceitos parece ter pouca ou nenhuma influência. Tipo, saber a história por trás da Integração, pode parecer irrelevante quanto a habilidade de usar a Integração em um exercício.

Mas hoje, pensando com mais calma, vejo que essas não são questões que deveriam ser negligenciadas. Pois a ordem como a matemática se desenvolveu e a maneira como diferentes áreas se mesclaram, gera um sentido e coesão nos conteúdos. É claro que ao longo dos anos convivendo entre matemáticos, acabamos aprendendo um pouco de história da matemática, mas como fatos isolados e de difícil associação. Então realmente, entender que o problema de calcular áreas veio antes de calcular taxas de crescimento faz pensarmos no quanto a área é uma noção mais intuitiva apesar da Integração ser um processo mais complexo do que a diferenciação. Pequenas noções por menos que pareçam influenciar nossa atividade prática, são positivas para nos situarmos do que estamos fazendo. Por exemplo, ao calcularmos a área abaixo de uma curva, não faz sentido chegarmos em um valor negativo… mas se formos apenas pelos cálculos podemos achar que esse valor negativo tem tanto sentido quanto o positivo.

Adorei ler o livro “A História da Matemática” de Anne Rooney. Não chega a ser um livro acadêmico a ser usado como referência de base para uma pesquisa, mas a autora faz um excelente trabalho apresentando não só os fatos, como costurando sua evolução ao longo de diferentes períodos da história. Deixando claro por exemplo, que integrar surgiu antes de derivar, e que a relação entre ambas é algo relativamente recente e que faz muito juz ao pomposo nome que recebeu (Teorema Fundamental do Cálculo) visto que une esses dois campos que cresceram meio separados por séculos. Lendo este livro fica muito claro que os progressos na matemática não ocorreram de maneira isolada e nem pacífica, pessoas morreram por propor ideias diferentes (como o discipulo de Pitágoras que mostrou a existência dos números irracionais) e que nem sempre ideias “óbvias” eram tidas como óbvias (tal como o sistema decimal por muito foi evitado, apesar de simplificar bastante a realização de cálculos). Que nem sempre os conceitos foram bem aceitos como são hoje, e que pessoas em diferentes lugares do mundo que nunca se conheceram, trabalhavam nas mesmas direções (e as vezes na mesma época).

Fica bastante claro também, que as disciplinas não surgiram na ordem que nos são apresentadas na graduação. Mas também fica claro porque não é interessante apresentá-las seguindo a forma como surgiram na história. Fica claro também que as disciplinas como Cálculo e Geometria Analítica não estão lá no começo da graduação por conveniência, e sim por serem pilares por trás de questões matemáticas bem antigas e muito aplicadas, além de estarem diretamente relacionadas (embora essa percepção não fique tão clara quando pisamos pela primeira vez na universidade e recebemos uma tonelada de listas de exercícios para fazer).

Essa é uma leitura que certamente recomendo a todos que desejam estudar matemática ou repensar na forma como ensinamos matemática, até mesmo para quem não venha a cursar uma graduação ou seguir na área de matemática, esse é um texto que proporciona um entendimento sobre como o conhecimento matemático provavelmente surgiu e se desenvolveu. Destancando as evidências históricas, seus aspectos culturais, religiosos e os principais motores que proporcionaram seu progresso. Isso deixa claro como a matemática per se é algo bastante novo, e que antes disso ela era uma “ciência” bastante aplicada às mais diversas demandas de cada sociedade. Tanto que foi um choque o surgimento da matemática sem uma aplicação real ou sem um contexto imaginável, trabalhá-la com um universo puramente conceitual que hoje é bem aceito, por grandes matemáticos alguns séculos atrás foi considerado algo ultrajante e absurdo.

Sinto que com essa leitura, os fatos isolados de História da Matemática que conhecia, se amarraram, preenchendo as lacunas existentes e inclusive me fazendo retomar lá no período de graduação, quando algum professor tentava trazer um pouco da perspectiva histórica ao problema discutido. A intenção é boa, mas o ritmo e a pressão em que os estudantes viviam não favorecia esse tipo de aprofundamento que poderia ter proporcionado uma aprendizagem melhor e com mais significado entre os conceitos aparentemente isolados que eram discutidos.

Agradeço à Editora M.Books pelo livro cortesia “A História da Matemática” de Anne Rooney, que possibilitou a produção desse texto.

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