Aposta das morias

No começo de 1878, um homem já bastante velho estava em seu leito de morte, quando reuniu seus mais próximos para lhes contar uma história que colocava suas convicções e certezas em dúvida. Ele disse que guardou consigo esta história a mais de 60 anos pois temia as consequências que ela poderia ter para alguém em sua posição, mas agora já não lhe restava muito tempo e sentia a necessidade de contar. Disse também que se lembrava dos detalhes como se tivessem acabados de ocorrer e pediu encarecidamente que não o questionassem, apenas o ouvissem.

Desde criança gostava bastante de história, ainda no início da sua juventude já havia ido várias vezes visitar a Grécia e realizar expedições em ruínas. Era um roteiro bastante comum para filhos de nobres como ele, e costumava ser bastante seguro, pois sempre iam acompanhados de guias e funcionários a serviço de suas famílias. Nos mercados locais, compravam sem se preocupar com o preço, todo tipo de objeto e texto que parecesse antigo, sem se importar com sua origem ou relevância cultural, ainda que viessem a terminar nas pilhas de antiguidades que acumulavam e já não davam mais importância. Era um deleite formar essas coleções e exibí-las para seus amigos.

Era um contexto bastante típico, já começava a escurecer quando seus funcionários avisam que haviam três moças no portão pediam para falar com seus senhores. Elas pareciam gregas, se diziam as irmãs morias, porém falavam italiano fluentemente, o que pareceu estranho e despertou ainda mais a curiosidade dos jovens. Achavam que elas eram atrizes e tinham alguma performance sobre o destino preparada para turistas ricos como eles. Após recebê-las vieram fazer muitas perguntas a elas, contestando o que haviam estudado sobre essas personagens, principalmente pelo fato de carregarem uma tesoura, um grande rolo de fita, linha e agulha.

Elas explicaram gentilmente que aquela faixa representava corpo e espírito, que cada um ali naquela casa seria agraciado com um pedaço de comprimento equivalente à oferta que fariam. Depois de receber seus pedaços, deveriam unir suas pontas e lhes devolver, para que então começassem a cortá-la ao meio. Quando terminassem, teria o corpo e o espírito separado, isto é, o dono daquela fita encontraria a morte. Os jovens acharam interessante a história, apesar de considerarem as moças de certo modo fracas na sua performance, pois vários dos pontos que conheciam historicamente pareciam não bater. Reuniram todos os funcionários da casa e elas repetiram a explicação, então cada um deles dispôs de uma quantia de dinheiro para comprar uma quantidade de fita, na época achavam simplesmente que essa era a forma como as moças monetizavam aquele espetáculo. Eu (o narrador dessa história) estava acompanhado de um funcionário que apesar de jovem era considerado de extrema confiança pela minha família, quando estava a pegar o que tinha nos bolsos para comprar meu pedaço de fita, ele me deteve, me convencendo a ajudá-las com todo o dinheiro que eu pudesse, pois elas pareciam moças pobres e esse valor que era destinado a gastar com futilidades, poderia ser o sustento daquela família. Na hora hesitei, mas acabei concordando, em minha bolsa de viagem separei apenas o suficiente para me manter lá e voltar para casa, e todo o resto, entreguei para as moças, apesar de meus amigos acharam um absurdo dar-lhes aquele valor. As moças então entregaram-me um pedaço enorme de fita, e explicaram que cada um ali deveria costurar as pontas da fita que recebeu, depois a devolveriam e elas começariam a cortá-las lentamente até que fosse separada a alma do corpo. Os funcionários, por não despojarem de dinheiro para gastar com tais brincadeiras, receberam cada um deles sem custo, um pequeno pedaço de fita. Todos ali fizeram o que lhes foi solicitado e devolveram as fitas.

A moça que segurava a tesoura e em outra mão a cesta, recebia com um sorriso no rosto e agradecia a fita de cada um entrega, com exceção do meu funcionário, que ficou por último para devolver, quando devolveu a fita dele, ouviu-se então um forte som de um tapa e viram a moça que carregava a tesoura escarrarando no chão, seu rosto parecia com uma feição de ódio e disse-lhe algo em voz alta, mas que ninguém conseguiu entender o significado. Todos perplexos com aquilo, se questionavam sobre o que houve, e esse funcionário com a marca de mão vermelha em seu rosto respondeu que não resistiu a roubar-lhe um beijo da moça. Os jovens riram de seu comportamento, dizendo que estavam arrependidos de também não terem tentado isso. As moças agradeceram a hospitalidade e com aquela cesta cheia de fitas, saíram.

Este teria sido um evento meramente engraçado, se não fosse pelo que sucedeu alguns meses depois. A maioria dos funcionários da minha família, que estavam comigo naquele dia vieram a morrer no mesmo dia. Na hora não associei isso à história das fitas, mas depois soube que os funcionários que todos os funcionários das famílias de meus amigos, que estavam lá conosco naquela ocasião, vieram a morrer, no mesmo dia que os da minha família.

Eu e meus amigos marcamos uma reunião e ainda incrédulos, começamos a nos recordar quanto cada um gastou com a fita. Não acreditavamos que isso pudesse ser verdade, mas calculamos rapidamente qual deveria ser a ordem das mortes e o tempo proporcional através de uma função linear. Isso parecia bem absurdo pelo tempo a mais que eu viveria em relação ao que foi gasto, chegaram a me apelidar na época de Matusalém. Mas fomos discutindo outras escalas que pudessem explicar melhor estes tempos, a conversa rendeu várias risadas e discussões matemáticas, até que nos despedíssemos sem perder nossa incredulidade.

Mais de uma década depois um de nossos amigos veio a morrer, e voltamos a nos reunir em seu funeral. Em meio a bebidas, relembravamos algumas histórias que vivemos juntos, dentre elas a das irmãs morias. Um dos presentes começou a rascunhar alguns cálculos e estimou com base neste incidente e no que envolveu os funcionários, qual deveria ser a data de morte de cada um de nós. O alcool deve ter afetado nosso humor, mas aquilo pareceu bastante engraçado, pois o nosso amigo falecido era famoso por ser turrão, o que explicaria ele ter sido o primeiro.

Seguiram os anos, e viemos a perder outro amigo, e a data aproximada coincidia com aquela estimativa. Esse assunto deixou de ser visto como algo engraçado, e refizemos com o maior número de detalhes e precisão, todos os cálculos e valores pagos nas fitas. As datas se encaixavam com exatidão, e nesse momento olhamos para nosso amigo que deveria ser o próximo da lista, e ele começou a chorar, dizendo que não queria morrer. Tentamos descredibilizar aquela teoria, mas o tempo passou e na data específica isso aconteceu. Um a um, meus amigos daquele dia foram morrendo, até que só restasse eu aqui. Sei que amanhã será o dia de minha morte e sei disso a bastante tempo, por isso quis contar-lhes, porque confio em vocês, embora não espere que acreditem em mim, afinal, sou velho e velhos morrem, não estou com medo, pois vivi o bastante e desejo partir.

No corredor, estavam a conversar sobre o que o velho homem contou e afirmaram que deveria ser coisa da cabeça dele, afinal ele esta velho, e essas coincidências podem tê-lo afetado e deixado-o meio paranóico. Dizendo que haviam falhas na narrativa, como quando ele falou dos funcionários de sua família envolvidos na ocasião terem morrido na mesma data, disse que foi a maioria, mas a maioria é diferente de todos. Um outro presente disse que se alguém tivesse costurado a fita como uma faixa de Möbius, após cortá-la ao meio ela não se separia. Esse comentário deixou-os impressionados com a ideia de como driblar “a morte” e começaram a especular mais a respeito, sobre como o funcionário que beijou a moça recebeu aquele tapa no rosto, se a moça estava com a tesoura numa mão e a cesta na outra? Então outro no grupo pensou que ele poderia ter entregue a fita de Moubius e sabendo da reação negativa que teria com a moria, deu um tapa em seu próprio rosto para disfarçar. Essa hipótese levou a todos os senhores presentes rirem da possibilidade, e de inclusive dizerem que isso justificaria porque o velho homem disse a maioria em vez de todos. A conversa foi divertida e o grupo logo se dispersou, tendo em mente que aquela história toda era apenas uma paranóia gerada pela idade avançada. No dia seguinte, o velho homem morreu tal como havia previsto, mas isso não os fez dar mais crédito à sua história, pois como foi dito antes, pessoas velhas morrem.

Sobre o post

Esse é um conto de divulgação científica e a hipótese tida como absurda, levantada no final do conto, justifica como o velho homem não errou em nenhum detalhe de sua história, inclusive, o respectivo personagem que lhe aconselhou na juventude, já apareceu como o Vigário no conto Embate contra o Mestre da Casa de Bonecas. Assim, nos referiremos a ele como o Vigário.

Quando o Vigário ouviu a história das moças que se apresentavam como morias, por mais que não tivesse motivos para crer que viria a ser verdade, pensando no bem-estar de seu jovem amo, o aconselhou a realizar a chamada Aposta de Pascal. Enunciada por Blaise Pascal no século XVII, que diz:

  • se acreditar em Deus e estiver certo, terei um ganho infinito;
  • se acreditar em Deus e estiver errado, terei uma perda finita;
  • se não acreditar em Deus e estiver certo, terei um ganho finito;
  • se não acreditar em Deus e estiver errado, terei uma perda infinita.

No caso, o ganho da Aposta das morias envolve:

  • se acreditar nas morias e estiver certo, terei uma vida longa;
  • se acreditar nas morias e estiver errado, terei dado dinheiro para ajudar uma família local
  • se não acreditar nas morias e estiver certo, terei dinheiro para comprar mais coisas no mercado local
  • se não acreditar nas morias e estiver errado, terei uma vida curta.

Contudo, o Vigário viu para si uma outra forma de lidar com a Aposta das Morias. Pois não importava o tamanho da fita que comprasse, ao costurá-la de maneira convencional, em algum momento ela seria completamente separada. Contudo, ao costurá-la da seguinte maneira, formaria uma fita de Möbius.

E uma característica interessante desta fita, é que ao cortá-la no meio, como mostramos nas figuras a seguir, em vez de separá-la em duas fitas, formamos uma fita só, com metade da largura e o dobro do comprimento:

Assim, quando as morias viram a fita do Vigário, perceberam que ele havia encontrado uma forma de “driblar a morte”, por essa razão ele se acertou com um tapa no rosto para justificar aos demais presentes o porque delas terem se irritado tanto com ele.

Outro ponto interessante que este conto trata é sobre a modelagem do cálculo do tempo de vida restante para cada amigo. Pois eles tinham o domínio da função, ou seja, o valor que cada um gastou e também tinham ao se reunirem inicialmente, a função no ponto 0. Ou seja, o tempo de vida restante dos funcionários, visto que eles não pagaram pela fita recebida. Assim, fizeram uma análise simples para se a função se comportasse linearmente, pelo tanto de dinheiro que o narrador deu às morias, ele deveria viver tanto quanto Matusalém. Mas testando outros comportamentos para essa função, chegaram em hipóteses mais razoáveis. Contudo, precisaram do valor da função em mais um ponto do domínio para entenderem qual dos modelos propostos melhor se encaixava, e à medida que foram conhecendo a função em mais pontos do domínio, determinaram com maior precisão a data das mortes de cada um dos restantes. Isso te lembra alguma coisa? Que tal método dos mínimos quadrados? Onde podemos determinar uma curva que melhor se aproxima dos pontos.

Por fim, este conto permite tratarmos também da atitude dos jovens, que adquiriam as antiguidades da Grécia como souvenirs, sem muito respeito ou zelo pelos objetos e sua importância para a cultura e história local. Esse comportamento sobretudo, é o que justifica a visita das morias à sua residência e à Aposta das morias ao grupo. Que se formos ver, não custou mais do que seria gasto com estas antiguidades locais para que o narrador comprasse sua longevidade.

Créditos da imagem de capa à Stefan Keller por Pixabay


Como referenciar este conteúdo em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023/2018):

SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. Aposta das morias. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Zero – Blog de Ciência da Unicamp. Volume 8. Ed. 1. 2º semestre de 2022. Campinas, 27 jul. 2022. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/zero/4542/. Acesso em: <data-de-hoje>.

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