No Zero a gente leu “A relação entre a filosofia mecânica e os experimentos alquímicos de Robert Boyle” de Kleber Cecon

Acredito que muitos de nós só viemos a conhecer a palavra Alquimia devido ao anime Fullmetal Alchemist. Nesse anime vemos os personagens transmutarem materiais com a ajuda de estranhos círculos desenhados. É um ótimo anime, se você não viu, super recomendo que assista (de preferência o Brotherhood)! Mas eis que bisbilhotando a sessão de livros para doação de uma das bibliotecas da Unicamp, este daqui falando sobre experimentos alquímicos me chamou a atenção, pois recentemente tenho ouvido esta palavra ganhando tônus em diferentes sentidos um tanto exotéricos.

O livro traz diversas discussões muito interessantes e acessíveis ao público leigo, situando-as sempre no aspecto histórico enquanto ampara o leitor sobre os experimentos do século XVII com paralelos aos conceitos da Química moderna. Não chega a ser uma leitura voltada para o lazer, contudo achei relativamente leve de se ler e cumpre tanto o papel de informar com clareza quanto de instigar o leitor sobre como parece “divertido” os então chamados experimentos alquímicos.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção e que me sinto no dever de compartilhar com você, é a explicação sobre o dilema entre Química e Alquimia. A terminologia anterior à grega não é clara, assim, na Grécia este trabalho recebia o nome de CHEMEIA. Depois a palavra foi incorporada pelo árabe e recebeu um sufixo “AL”, sendo assim transliterado como “AL-KIMIYA”. Então, algum tempo depois de se estabelecer no vocabulário europeu, houve um movimento de eliminar as terminologias árabes das palavras, o que transformou “AL-KIMIYA” na palavra “QUÍMICA”. Vemos com isso, e pela própria descrição que o autor faz, que ambas as palavras até antes do século XVII tinham o mesmo sentido e eram usadas por vezes como sinônimos. Uma confusão contudo começou com uma interpretação equivocada do termo “AL”, como significando uma característica de superioridade que alguns substantivos recebiam, levando que alguns grupos considerassem a ALQUIMIA como um ramo voltado para investigar/responder questões superiores do mundo, enquanto a própria QUÍMICA ficaria restrita à processos mais simples e de finalidades práticas.

A parte triste desta história, é vermos como ocorreu um esforço para repelir a palavra ALQUIMIA da história após o século XVII, tentando fazê-la associada à investigações mais subjetivas e menos precisas, carregada e estereótipos ligados à bruxaria, misticismo e principalmente “imprecisão”, o que não fazia jus à maneira como os alquímicos trabalhavam. Uma consequência dessa tentativa de “apagar” a ALQUIMIA da história acaba contribuindo para que 2 séculos depois durante um movimento de resgate das chamadas “ciências proibidas” (aquelas rejeitadas pelo academicismo) viessem a tomar ideias superficiais da alquimia e fazer a partir delas suas derivações mais exotéricas e que falham ao tentar se relacionar com o que foi a Alquimia até o século XVII.

O legal desse texto, é observar como Robert Boyle e outros contemporâneos a ele investigavam as propriedades da matéria, e como formulavam hipóteses e constructos para seu funcionamento a partir do que entendiam do mundo. Fica claro inclusive porque estas investigações eram um tanto subjetivas, visto que mesmo hoje com laboratórios e equipamentos avançados, já não é fácil dizer como certas reações ocorrem, quanto mais a séculos atrás onde a observação era apenas num cenário macroscópio. Desse modo, vemos que interpretações diversas são realizadas historicamente e a medida que novos resultados vão sendo obtidos e replicados, procuram-se explicações adequadas para tais. Isto gradativamente leva a uma maior objetividade das interpretações em concordância com as ideias filosóficas sobre a matéria. O autor do livro (Kleber Cecon) realiza um excelente paralelo com a Química moderna e os principais experimentos discutidos, explicando a partir de fórmulas o que viriam a ser os significados mais subjetivos de diversos procedimentos realizados no século XVII a partir de suas descrições.

O livro segue com discussões sobre a possibilidade de se traduzir conceitos alquímicos para a química moderna, e porque as vezes somente podemos interpretá-las (sem traduzi-las). Para isso o autor utiliza o conceito de Flogisto, que não pode ser traduzido para nenhum termo da Química moderna (visto que essa teoria se mostra errada), embora o que seria um “anti-flogisto” pode ser traduzível. Essa acaba sendo uma questão interessante do ponto de vista matemático, uma vez que se existisse uma tradução para todos os termos, logo, não seria necessária uma interpretação (falamos disso em Existe sim tradução 100%, mas ela é inútil).

Vários aspectos me chamaram a atenção neste livro, principalmente a maneira como as investigações alquímicas ocorriam, realizando experimentos, replicações e testando conjecturas. Penso que diferente da Matemática na qual somos capazes de abstrair o comportamento de funções e estudá-la no plano imaginário, a química carrega um “Q” (piada infame, mas não resisti) de investigação e formulação de hipóteses. Sendo este, o tipo de literatura que poderia ter me despertado um maior interesse em Química durante o Ensino Médio (principalmente se tivesse o acompanhamento em sala de aula).


Como referenciar este conteúdo em formato ABNT (baseado na norma NBR 6023/2018):

SILVA, Marcos Henrique de Paula Dias da. No Zero a gente leu “A relação entre a filosofia mecânica e os experimentos alquímicos de Robert Boyle” de Kleber Cecon. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Zero – Blog de Ciência da Unicamp. Volume 8. Ed. 1. 2º semestre de 2022. Campinas, 9 jul. 2022. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/zero/4375/. Acesso em: <data-de-hoje>.

2 thoughts on “No Zero a gente leu “A relação entre a filosofia mecânica e os experimentos alquímicos de Robert Boyle” de Kleber Cecon

  • 29 de julho de 2022 em 13:43
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    Olá pessoal do Zero,
    Agradeço muito o texto sobre meu livro. Realmente o tema “alquimia” é muito interessante e sempre levanta o interesse de muitas pessoas.
    Fiquei muito feliz com a leitura que realizaram da obra.
    Saudações,
    Kleber

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    • 31 de julho de 2022 em 10:52
      Permalink

      Olá Kleber, fico super feliz de ver o próprio autor comentando aqui 🙂
      Gostei bastante desse livro, de fato a palavra Alquimia veio até mim graças aos animes (desenhos japoneses), assim quando vi seu livro pensei que era a chance de entender com mais seriedade o que essa palavra significa e foi realmente uma leitura prazerosa e rica em detalhes.
      Saudações.

      Resposta

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