Teorias da Conspiração – A Arte de Falar Besteiras

Uma das coisas que estamos mais vendo hoje em dia, com a democratização da babaquice expressão de opiniões, principalmente por meio das redes sociais, é a disseminação das famosas teorias conspiratórias. Para quem não sabe, estas teorias são narrativas frequentemente sensacionalistas, que têm pouco ou nenhum compromisso com fatos, mas possuem um grande apelo emocional. Grande parte do que tem se chamado de fake news tem como base este tipo de estória para boi dormir.

Ainda vão dizer: “Este artigo foi escrito por um cientista. Todos os cientistas são maçons, illuminati e satanistas. Esta postagem tem por objetivo desacreditar os corajosos homens que querem denunciar a chegada nova ordem mundial”

Em minhas peregrinações pelo YouTube, me deparei com um podcast em vídeo com um titulo do tipo “O GOVERNO USA SATÉLITES PARA CONTROLAR NOSSA MENTE – NOVA ORDEM MUNDIAL”. Não vou utilizar o título original, nem fazer alusões mais precisas sobre o conteúdo, por diversas razões que não vêm ao caso. Claro que era click bait. O título estava todo em maiúscula, assim exposto para chamar bem a atenção. Não sei o porquê do YouTube ter me sugerido este tipo de vídeo. Talvez porque eu veja muitos vídeos de humor. Em todo caso, entrei para ver que tipo de besteira informação estava sendo transmitida. O vídeo falava de tudo: governo, illuminati, demônios, satanismo, etc. Típica teoria de conspiração.

Alguns de nós podemos nos indagar: “Mas qual o problema desse tipo de coisa?”. Bem, primeiramente, as famigeradas teorias conspiracionistas são uma fonte profícua de alegações pseudocientíficas. Seja por má-fé ou por ignorância do propagador desse tipo de “informação”, estas hipóteses são publicadas como verdades absolutas. Toda opinião é tida como fato. São um poço de burrice ignorância. E, ainda, devido ao caráter “fantástico” desse tipo de estória, estas teorias espalham como um câncer em metástase farinha ao vento, é uma exploração da estupidez credulidade de muitas pessoas. É o fogo do obscurantismo inflamando o paiol da ignorância.

Até mesmo desenhos infantis podem ser interpretados da maneira mais criativa possível na mente conspiracionista

Consideremos nosso contexto atual: uma pandemia mortal assolando o mundo associada com movimentos – pasmem – antivacina! Governos com posturas negacionistas e oferecendo panaceias de eficácia comprovadamente pífias. Tolices há muito tempo derrubadas como terraplanismo e geocentrismo, ressurgindo das profundidades da idade média. É fundamental que a academia e que a comunidade científica reaja contra esta escalada da baboseira incultura e da insciência.

Concluindo, este tipo de teoria só reforça o pensamento de que opinião e fato tem o mesmo valor e podem ser confundidos um com o outro sem consequências. Na era da informação, o que vemos é que todos tem uma opinião, mas poucos aceitam os fatos (principalmente quando estes contrariam a opinião). Neste desfile de idiotices libertinagem de expressão, a nossa noção de realidade vai sendo substituída pelas crenças individuais. Em última instância, confundir crenças e imaginações com realidade tem uma definição bem precisa: loucura. Neste contexto, já estamos presenciando uma onda de imbecilidade insensatez muito parecida com a denunciada pela magnífica obra de Stanislaw Ponte Preta na década de 60, o Febeapá (ou o festival de besteiras que assolam o país), que hoje se mostra – infelizmente – atemporal.

Bobajando Através de Exemplos

A Extração da Pedra da Loucura (1501) de Hieronymus Bosch | Tela para  Quadro na Santhatela
The Cure of Folly – Hieronymus Bosch

As teorias conspiracionistas possuem uma estrutura organizada e com muitos elementos comuns. Procure verificar na internet, principalmente em redes sociais, e sites nos quais qualquer um pode publicar qualquer conteúdo, as características que aqui descrevo. Compilei um guia de como produzir estas bobagens anti científicas teorias excêntricas, caso o leitor queira se prevenir desse tipo de insanidade:

  1. Escolha um tópico que desperte uma reação emocional forte e negativa, como raiva, ódio, medo, nojo ou uma mistura desses sentimentos. Já inicie a argumentação apelando para estas emoções. A grande maioria das pessoas fica com a mente nublada sob a influência desses sentimentos e perdem a capacidade de raciocinar objetivamente.
  2. Misture fatos verdadeiros facilmente verificáveis às baboseiras e tolices aos factoides e opiniões. Isso aumenta muito a credibilidade do que está sendo informado. Meias verdades são normalmente engolidas como verdades completas.
  3. Invente uma estória complexa, assim as pessoas não terão tempo para refletir sobre a narrativa e descobrir as inconsistências e desconexões, e assumirão que trata-se de algo real. Afinal, quem poderia imaginar estas coisas?
  4. Seja evasivo nas perguntas diretas, mas sempre responda. Sempre recorra ao seu lugar comum nessas respostas: o sentimento. Assim você poupa a sua audiência de utilizar coisas trabalhosas e inúteis como bom senso e raciocínio.
  5. Se autopromova o tempo inteiro. Invente títulos, nomeações e todo o tipo de qualificação que possa te por em uma posição de autoridade frente ao assunto a ser discutido.
  6. Assuma o manto de uma vítima de perseguição sistemática. Você não consegue mostrar estas verdades na grande mídia porque há uma orquestração de inúmeros políticos, acadêmicos e iniciados de sociedades secretas para desacreditá-lo.
  7. Use e abuse de vieses de confirmação: utilize somente partes convenientes de verdades e fatos para reforçar sua enrolação fraudulenta teoria.
  8. Chame a atenção utilizando caps (letras maiúsculas) ou falando alto as partes mais polêmicas. Use palavras-chaves contundentes e clichês com apelo popular.
  9. Evite conectar a mentira o discurso com assuntos que dividem as pessoas ou que dependam de um ponto de vista de apenas um grupo, como religião ou política. Se o alvo não compartilha das crenças ou da visão política expressas, a papagaiada não vai ser lida/ouvida. A não ser que se deseja atingir um público específico
  10. O mais importante: Invente a vontade. Quanto mais você contar bem a sua estória, menos compromisso com a verdade você precisará ter.

Pronto! A sua deliciosa (e venenosa) sopa de falácias está pronta. Agora só falta procurar uma rede social e/ou aplicativo de mensagens para disseminar a escuridão e a ignorância.

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No nosso canal do YouTube temos um vídeo sobre os recentes ataques que a ciência vem sofrendo. Confira!

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Para Saber Mais

https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/manual-da-dicas-de-como-identificar-uma-teoria-da-conspiracao/

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Gustavo Mockaitis

Professor de biotecnologia, microbiologia e metodologia científica na Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP. Apaixonado por ciência e tecnologia, tenho interesse em muitas áreas, desde psicologia até astronomia. Atualmente trabalho com digestão anaeróbia para produção de biogás e outros produtos com valor agregado.

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