Crianças são Cientistas Naturais

O cientista é um profissional multifacetado. Dada a complexidade dos fenômenos naturais, as habilidades que o cientista tem de desenvolver são muitas, o que já expliquei neste artigo. Mas a principal característica, sem dúvida nenhuma, é a curiosidade. Acredito que a curiosidade vem da vontade do espírito humano de conhecer o meio no qual se encontra. E com relação a explorar para conhecer o meio, as crianças são imbatíveis. Sou pai de três lindas crianças (uma mocinha, um menininho e um bebezinho). Com os efeitos positivos que a pandemia de COVID-19 trouxe, acabei passando mais tempo com meus filhos, em especial com meus meninos mais novos. Este tempo me mostrou ainda mais como as crianças são muito mais perspicazes em perscrutar o mundo do que qualquer adulto. E qual a principal motivação? A curiosidade inata.

Este texto relata um acontecimento interessante em minha casa no feriado de Corpus Christi (3 de junho de 2021). Meu sobrinho Piettro, de 9 anos, veio nos visitar. Depois de nosso jantar, ele estava brincando com meu filhinho do meio, Lorrain-Luc (de 3 anos), com um brinquedinho de carrinhos de madeira que vão caindo por uma pista (um brinquedo popularmente chamado de zig-zag). O brinquedo tem 4 carrinhos iguais em formato, somente diferindo em suas cores. Quando fui à sala, vi o Piettro cronometrando e anotando o tempo que cada carrinho levava para terminar o percurso. Eu perguntei para ele o que ele estava fazendo e a conversa que se seguiu foi mais ou menos assim:

Medidas de tempo de cada carrinho. As letras são relativas às cores de cada um dos carrinhos: V – verde; C – ciano; A – amarelo e L – laranja.

– Piettro, o que você está fazendo?

– Estou querendo ver qual carrinho é o mais rápido – ele respondeu.

– Então você está cronometrando o tempo que leva cada carrinho para atravessar a pista? – eu perguntei.

– Isso. O carrinho verde é o mais lento – ele respondeu.

Eu estava perplexo. Um menino de nove anos de idade fez uma pergunta para a natureza e estabeleceu um método adequado para obter a resposta. E ele obteve uma resposta. Isso me mostrou o quanto a ciência está no âmago do ser humano. Meu sobrinho estava, literalmente, exercendo sua racionalidade. Da maneira dele, ele compreendeu intuitivamente o método científico. Ele estava sentindo o poder da experimentação, ele estava verificando fatos por conta própria. Em essência, o que ele fez não é nem um pouco diferente do que fazemos em um laboratório de pesquisa. O interessante é que, horas antes, a mãe dele havia dito que ele confessara que gostaria de ser cientista quando crescesse. Claro que muita coisa pode mudar, mas reconheço que ele já começou muito bem.

Piettro e seu “laboratório”: Papel, canetinha vermelha, uma pista de corrida, quatro carrinhos e um celular com aplicativo de cronômetro.
Piettro e seu “laboratório”: Papel, canetinha vermelha, uma pista de corrida, quatro carrinhos e um celular com aplicativo de cronômetro.

Mas eu dei mais um empurrãozinho em meu sobrinho. Assim deixei ele com uma dúvida:

– Tem certeza que o carrinho verde é o mais lento? O que você acha de medir ele de novo, só para ter certeza? – retruquei.

Piettro mediu o tempo para o carrinho verde novamente, mas obteve um resultado diferente. Se a minha memória não me traiu, a nova marca foi 2,40 segundos. Um resultado bem diferente do que ele havia obtido da primeira vez. Ele ficou um pouco sem entender, e eu expliquei que nem sempre conseguimos apertar o botão do cronômetro da mesma maneira, o que pode fazer a medida ser maior ou menor. Isso gera um erro que não é do carrinho, é um erro nosso, de quem está medindo. Se chama de erro experimental, e podemos medir este erro repetindo várias vezes o experimento, para verificar o quanto do valor encontrado é tempo de corrida e o quanto se atrasa ou adianta no acionamento do cronômetro. Claro, não entrei em maiores detalhes, afinal já era suficiente ele ter proposto um experimento simples, com medições para ele poder ter um parâmetro comparativo mensurável sobre qual carrinho era, de fato, o mais rápido. Satisfeito com seu experimento, logo em seguida ele foi brincar de outra coisa.

Sem dúvida, este incidente em família e aparentemente corriqueiro, merecia uma análise um pouco mais profunda sobre como conduzimos o ensino de ciências. Por que as crianças têm tanta facilidade com ciências, e os adultos (especialmente a maioria dos pós-graduandos e um belo punhado de cientistas) tem tanta dificuldades em formular hipóteses e propor um experimento consistente para testá-las?

Blackawton Bees

File:Bombus terrestris (Buff-tailed bumblebee) queen, Arnhem, the  Netherlands.jpg - Wikimedia Commons
Bombus terrestris (Mamangava-de-cauda-amarela-clara).

Essa experiência me fez pensar em várias coisas. Primeiro, me lembrou de um artigo científico publicado em dezembro de 2010 na Biology Letters (JCR 2020: 2,869), chamado Blackawton Bees. Em suma, o artigo fala sobre comportamento de abelhas (mamangavas, na realidade), como elas utilizam relações espaciais e cores pra decidir de quais flores elas iriam obter a alimentação. Embora o tema, a primeira vista, possa parecer um artigo comum da área na qual ele se insere, a publicação chama a atenção para uma coisa: A grande maioria dos autores tinha entre 8 a 10 anos de idade, na época em que o artigo foi escrito. O artigo foi redigido de maneira precisa, mas sem nenhum formalismo típico. A afiliação de todos os autores, exceto o último, é “Escola Primária de Blackawton”. Na época, o artigo foi destacado pela Discover Science Magazine e pela prestigiosa Science. Mais recentemente em nosso blog ring de ciências da UNICAMP a Professora Ana Arnt também já discutiu o artigo nessa postagem.

Sem entrar em maiores detalhes com relação à história e motivação científica do artigo, as crianças devem ter se divertido bastante, tanto no processo de investigação quanto na confecção do artigo. E imagino também como elas devem ter se sentido quando o artigo foi aceito e publicado. Isso me remete à uma reportagem da Revista FAPESP intitulada “A Embriaguez da Descoberta” (Revista FAPESP número 148,  junho de 2008). Uma frase dita pelo célebre geneticista Crodowaldo Pavan me marcou bastante na época em que li o artigo: “Eu me divirto e alguém paga para eu me divertir”. No curto espaço de tempo em que tive a honra, o prazer e o privilégio de conviver com Walter Borzani, ele costumava me chamar para um café. Eu era um aluno do terceiro ano do curso de engenharia química e fazia iniciação científica no mesmo grupo de pesquisa que ele liderava. Ele me servia o café em primeiro e eu, em ato contínuo, enchia de açúcar o meu café. Depois de ele se servir, ele olhava meu café obviamente muito doce e dizia: “Tomo café amargo, porque de doce já basta a vida”. Desde então eu passei a tomar café amargo com muito mais frequência, e sempre me lembro de suas valiosas conversas e orientações. O que as crianças, Pavan e Borzani têm em comum? Concluo que é entusiasmo pela pesquisa, pela descoberta. Neste sentido, Pavan e Borzani eram nitidamente crianças, e seus laboratórios de pesquisa eram um parque de diversões. Mas isso nunca os impediu de fazerem ciência séria e sempre na fronteira do conhecimento. Na verdade, estou convicto que foi justamente isso, essa jovialidade, que os colocava na frente de tantos outros pesquisadores.

O que acontece? O que se perde nesse processo? Porque a maioria dos aspirantes a pesquisador, e até mesmo os pesquisadores recém formados perderam esta habilidade de naturalmente questionar a natureza com o método científico? Arthur Charles Clarke, o mundialmente aclamado autor de ficção científica alertava sobre os perigos da idade avançada na ciência. O autor estabeleceu as três leis de Clarke sobre a relação do homem com a ciência e tecnologia. O que chama a atenção é um adendo que ele fez sobre a primeira lei, definindo o que ele chamou de idade avançada:

Em física, matemática e astronáutica, significa acima dos trinta anos. Em outras disciplinas, a decadência senil é por vezes adiada até os quarenta anos. Claro que existem gloriosas exceções; mas, como qualquer pesquisador recém saído da faculdade sabe, cientistas acima dos cinquenta só servem para reuniões de diretoria e devem ser mantidos fora do laboratório a qualquer custo. – Arthur C. Clarke

Parece que estamos experimentando uma inversão aqui. Aparentemente o cientista está enfrentando uma crise criativa cada vez mais cedo. Mas o espírito jovem parece se preservar, muitas vezes em pesquisadores mais experientes. A pergunta que resta é: como retomar a ciência como vista pelos olhos de uma criança?

Problemas Educacionais ou Paradigmas Equivocados?

Será que alguém “pesca” esta referência??

Não há dúvidas que temos um problema sério a ser abordado na academia. O cientista se torna cada vez mais um técnico e cada vez menos um sábio, e esta subversão de suas atividades está cada vez mais presente. Sem dúvida, a visão meramente utilitarista da ciência é a grande responsável por essa crise criativa na ciência. O cientista medieval era quase sempre apoiado por um mecenas, fosse dentro da aristocracia ou da burguesia. A partir do momento que a ciência se mostrou um pilar fundamental para o desenvolvimento econômico e para a industrialização, o trabalho do cientista assumiu um papel mais estratégico nas políticas de estado. Assim, quem pratica esse mecenato nos dias atual é o estado, com suas agências de fomento a pesquisa. Mas até mesmo as agências de pesquisa, seja por meio de seu corpo de assessores ou por pressão política, acaba por muitas vezes privilegiando temas mais relacionados com desenvolvimento econômico ou até modismos. Como os pesquisadores dependem dessas verbas para conseguirem realizar suas pesquisas, muitos acabam se alinhando com estes objetivos e propondo projetos  de pesquisa dentro daquilo que tem mais possibilidade de ser financiado. Mas, além desses enviesamentos das temáticas não serem muito frequentes, estes paradigmas traçados pelas agências de fomento à pesquisa não são a principal causa da crise de criatividade que se vê na ciência, muito embora este panorama contribua para agravar este problema.

Mais uma dica…

Voltamos ao meu sobrinho. O que acontece com o pesquisador inato durante sua trajetória na direção do cientista profissional? Onde, como e porque o pesquisador cresce e, na maioria das vezes, perde o senso de criatividade? Acredito que a resposta esteja no nosso sistema educacional, que é extremamente castrante. Uma educação que mina ano após ano as habilidades criativas dos estudantes, fazendo com que eles se “enquadrem” em “objetivos educacionais definidos”, uma educação que mata quaisquer sombra de iniciativa dos alunos. Isso enterra o cientista no medo de errar, no medo de ousar. Deixamos de ousar e passamos a repetir um processo. Em breve, a criatividade desaparece.

Isso faz com que o recurso humano que chega até a pós-graduação, depois de obviamente passar por todo o processo educacional, seja um pesquisador com muita pouca capacidade de propor um projeto de pesquisa que realmente possa ter um impacto significativo. Na maior parte das vezes, o pós-graduando acaba inserido em um projeto já existente, na pura dependência dos direcionamentos de seu orientador, sendo incapaz de propor algo inovador mesmo dentro de uma temática já definida. Pior ainda, estes estudantes acabam dependendo de outros colegas ou ainda mais de seu orientador para delinear o seu experimento e são extremamente inseguros para realizarem conclusões complexas, limitando-se à simplesmente repetir aquilo que o experimento já mostra. Um show de obviedade e de mediocridade. Será que este aspirante à cientista está pronto para realizar pesquisa ou propor soluções para problemas complexos de maneira independente, como se espera de um doutor? Eu acho que não.

Gustavo Mockaitis

Professor de biotecnologia, microbiologia e metodologia científica na Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP. Apaixonado por ciência e tecnologia, tenho interesse em muitas áreas, desde psicologia até astronomia. Atualmente trabalho com digestão anaeróbia para produção de biogás e outros produtos com valor agregado.

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