Desvendando a realidade (parte I) (V.2, N. 11, 2016)

O tema é um tanto quanto inquietador. Afinal de contas, o que é a Realidade?

06908602000A pergunta tem relação direta com o primeiro capítulo do excelente livro A Magia da Realidade (Richard Dawkins, 2012). Segundo ele, interagimos (e de certa forma compreendemos) a realidade através de três formas. A primeira delas e possivelmente a mais evidente: através dos nossos cinco sentidos.

Imagine que você conversa com o seu irmão através do celular. A música alta somada com as pessoas rindo e conversando do outro lado da linha sinalizam que ele está numa festa em tanto (mas não deveria estar estudando para a prova de amanhã?). Enquanto você se esforça para escutar o que o bêbado do seu irmão tenta te dizer, sente um cheiro de queimado vindo da cozinha. “Ahh não! A lasanha no forno deve estar queimando!”. Você larga o celular, corre para a cozinha, pega um pano, abre o forno, retira a fôrma metálica… mas espere! Não está quente. Você toca na fôrma e sente que ela está “quentinha”.

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Fonte: http://www.blogninguemtecontou.com.br

Claro! Você já havia desligado o forno a uns 30 minutos (pra ligar para o seu irmão, lembra?). De onde vem esse cheiro então? Olhando pela janela e dando uma boa aspirada de ar pelo nariz você percebe que o cheiro vem da janela da vizinha. Ao ver um pouco de fumaça e escutar os gritos da dona Fátima saindo de lá você conclui que tudo está bem com a sua lasanha… até degustá-la e perceber que você utilizou queijo prato ao invés de queijo mussarela (que lástima).

Apesar do exemplo ser simples, você pode pensar em inúmeros outros exemplos cotidianos que deixam claro que o uso dos sentidos (seja de forma singular ou conjunta) nos permite entender a realidade a nossa volta. Mas isso significa que é apenas através deles que podemos perscrutar os mecanismos que regem a natureza?  Claro que não. E é aí onde entra a segunda forma pela qual interagimos com a realidade: através de equipamentos e técnicas que potencializam nossos sentidos.

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Fonte: https://noticias.terra.com.br

Nunca vi um dinossauro, mas sei que os fósseis juntamente com as técnicas de datação nos dizem bastante coisa sobre o seu passado na Terra. Telescópicos permitem observar galáxias distantes onde você vê um punhado de escuridão numa noite estrelada. E onde há uma mesa recentemente limpa e vazia, um microscópio seria capaz de enxergar uma infinidade de organismos vivos. A maior parte dos aceleradores de partículas também é utilizada para estudar o universo do muito pequeno, conforme descrevi nesse post. Qual a importância de estudar o muito pequeno? Dá uma olhada aqui.

A ciência pode te dar uma resposta bastante satisfatória sobre um punhado de coisas. Boa parte desse conhecimento advém da observação direta, isso é, do uso dos nossos cinco sentidos juntamente com ferramentas de cunho intelectual e tecnológico que os potencializa. Mas e quando isso não é suficiente? Bom. Quando não é suficiente, podemos recorrer a uma maneira um pouco mais indireta de compreender a natureza (a terceira segundo a minha contagem): os modelos.

Vou deixar para discutir esse assunto na Parte II deste post. Até lá, te deixo uma pergunta na forma de uma reflexão, baseada no livro O Grande Projeto (Stephen Hawking, Leonard Mlodinow, 2011). Faz parte da nossa essência como ser humano indagar sobre as coisas, sobre o mundo, sobre a realidade… E para compreender o Universo em que vivemos em um âmbito mais completo, precisamos entender não somente como ele funciona, mas por quê. Sendo assim, qual a razão de existir algo ao invés de nada?

Johann Eduardo Baader

Johann Eduardo Baader é aluno de doutorado na Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Universidade Estadual de Campinas. Realiza pesquisa com magnetismo em aceleradores de partículas junto ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS).

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