O dia em que São Paulo escureceu mais cedo (V.5, N.8, 2019)


Fotografia: Zeus Yoshino da Silva

São Paulo, 19 de agosto de 2019, o dia amanheceu nublado. O trânsito seguia parado, como de costume. O metrô cheio. E todo mundo iniciava a semana. Mas o que tinha tudo para ser a típica segunda-feira tediosa paulistana se tornou um dos dias mais comentados do ano. A pausa para o café no meio da tarde veio acompanhada de um cenário peculiar. Que São Paulo não tem o mais bonito dos céus, todo mundo sabe, mas o tom amarelado que permeava as nuvens destoava do tradicional cinza paulistano. Com certeza ia chover mais tarde. Será que ia ser muito? Pontualmente às quatro da tarde, São Paulo anoiteceu. O breu assustou e intrigou a população paulistana que recorria desesperadamente à fonte mais confiável possível: a internet. Seria o apocalipse? Um vulcão havia entrado em erupção? Ou só ia chover tanto que era melhor adiantar o expediente e ir embora mais cedo?

O que já sabemos a respeito do que houve?

Era prevista a chegada de uma frente fria em São Paulo para o dia 19. Já podia se esperar que o dia permanecesse nublado, que as temperaturas caíssem e que talvez chovesse um pouco. Também já se esperava que a brisa marítima entrasse pelo meio da tarde, afinal, esse fenômeno ocorre com bastante frequência em São Paulo. A combinação desses dois fenômenos fez com que a umidade do ar aumentasse e isso, junto com o material particulado, era a receita perfeita para um tempo nublado e chuvoso. A peculiaridade do que houve naquela segunda foi um escurecimento das nuvens atípico no inverno paulistano. Especula-se que esse fenômeno esteja relacionado com as queimadas que ainda estão acontecendo na Amazônia, Pantanal e Tríplice Fronteira. Já sobre a coloração das nuvens existem duas hipóteses que podem explicar porque elas ficaram tão escuras.

A primeira hipótese aborda que a formação de nuvens e o transporte de material particulado ocorreram de forma simultâneas mas de maneiras independentes, ou seja, um não interferiu no outro. Isto seria possível se as nuvens tivessem um grande desenvolvimento vertical. Estas nuvens, geralmente, estão associadas a grandes volumes de chuva, raios e, em alguns casos mais severos, até a precipitação de granizo. Elas por si só já teriam poder suficiente para causar o escurecimento do céu. Sendo assim, se somarmos o efeito de absorção da luz solar que a pluma de material particulado transportado das regiões de queimadas que encontravam-se acima das nuvens, teríamos a explicação de porque o céu ficou tão escuro como o observado neste dia.

Já a segunda hipótese diz que as nuvens foram formadas utilizando como núcleo de condensação também o material particulado transportado pela atmosfera vindo das regiões de queimadas no território brasileiro e vizinhança. Uma parte desse material particulado oriundo das queimadas é chamado de black carbon. Ele é um ótimo absorvedor de luz solar. Isso significa que grande parte da luz não conseguiu passar pelas nuvens, fazendo com que para nós, que vemos a nuvem de baixo para cima, tenha havido o escurecimento do céu. A percepção inicial ao ver uma nuvem tão escura é que vai existir grande volume de chuva. O que não ocorreu na maior parte da capital. Isso porque a quantidade de material particulado além do normal agiu de forma a desfavorecer a formação de nuvens de tempestades. Esta segunda hipótese explicaria o fato de alguns moradores da cidade de São Paulo terem relatado a coloração escura da chuva que caía e também o odor de queimado que também foi sentido por alguns.

O que de fato ocorreu?

Não existe ainda um consenso entre a comunidade científica do que de fato ocorreu, no entanto aos poucos um quadro vai se montando. Sabemos que houve o transporte das queimadas, sabemos que chegou um frente fria e que teve umidade vinda dos oceanos transportada pela brisa marítima. Sabemos também que várias regiões da cidade não apresentaram grandes volumes de precipitação, embora houvessem raios sendo registrados na grande São Paulo. Existiu também a presença do cheiro de fumaça e a “chuva escura”.

Temos todos os ingredientes para se gerar as nuvens escuras, tanto por conta da ação humana com as queimadas, quanto pela própria natureza com as condições do tempo (se é que esta já não está influenciada pelos humanos também). A grande questão é o quanto cada um contribuiu para a escuridão que vimos no dia 19. Diferentemente de certos charlatões e enganadores, qualquer produto que a ciência gera vem acompanhado de suas incertezas de forma clara à população.

Por dentro dos termos:

Brisa marítima

Brisa marítima é a circulação gerada pela diferença de temperatura entre o mar e a superfície terrestre. Ela traz umidade dos oceanos para o continente. Durante a noite, a circulação é invertida, ou seja, o ar sopra do continente para o mar.


Imagem: Ana Fontenelle, Leonardo Kamigauti e Marcos Stoco.

Frente Fria

Deslocamento de ar frio que levanta o ar mais quente já presente no local. Ela faz com que as temperaturas diminuam nos lugares em que passa, muda os ventos e normalmente fazem chover muito, podendo ter raios e até granizo.

Material Particulado

São partículas de diverso tipo em suspensão no ar. São exemplos de material particulado sais marinhos, poeira e pólen. Um dos tipos de materiais particulados mais importantes é o black carbon. Ele é gerado pela queima de combustíveis fósseis e madeira.


Imagem: Pixabay

Núcleo de Condensação

Nuvens são compostas por gotas de água extremamente pequenas. Elas são formadas quando a umidade do ar se condensa no material particulado. A partir de uma certa quantidade de água condensada a gota fica muito pesada e cai normalmente, gerando chuva. Porém, se tem muito material particulado no ar a humidade presente se divide entre mais gotas que ficam menores e mais leves. Desta forma, se o ar tem muitas partículas as nuvens formadas geram menos chuva.

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