Por que curamos apenas câncer em ratos tão bem? – Um pouco (mais) sobre a fosfoetanolamina (V.1, N. 2, 2015)

Quando tomamos uma aspirina, ela entra em nosso corpo pela boca e vai até nosso estômago. Mas ela não

Aspirina (estrutura química) e capsulas de farmácos.

atua diretamente sobre ele, ela precisa ser absorvida e jogada na corrente sanguínea. Só depois é que ela entra nas células e começa a fazer efeito. Isso vale para todo tipo de remédio, ele precisa ser administrado e depois absorvido. Tem-se então a etapa de distribuição (onde ele é levado para diferentes pontos do nosso corpo), a biotransformação (onde nosso corpo muda a estrutura química deste composto) e eliminação (o que não foi usado pelo nosso corpo é mandado embora, por exemplo, na urina). Este processo que o fármaco sofre chama-se farmocinética. E isso funciona desde uma aspirina até um remédio utilizado para o câncer, devendo ser levado em conta para determinar a dose do remédio e o tempo de uso.

Quando um novo remédio está sendo desenvolvido, a primeira etapa é testar em células in vitro. Falando de câncer, são feitos testes com o candidato a fármaco (chamaremos de droga) em células de câncer no laboratório, se as células não se multiplicaram na taxa esperada (acompanhamento com células sem a droga) ou diminuíram em quantidade, a droga é promissora.

imagesQuando temos um bom resultado, esta droga é aplicada em ratosque estão doentes, ratinhos com câncer. Novamente, se o tumor diminuiu ou regrediu temos um resultado interessante.

Nós químicos, biólogos e farmacêuticos somos campeões em curar câncer em ratos, fazemos isso muito bem. Infelizmente, os mesmos resultados não são observados em humanos.

Embora ratos e humanos tenham quase o mesmo número de genes (temos apenas 300 a mais) sabemos que simplesmente transferir o resultados dos ratos a humanos não é viável. Em partes devido a nosso metabolismo ser mais diferente, em partes pelo tipo de câncer com o qual o animal foi contaminado. Sim, contaminamos ratinhos com câncer de propósito, o câncer é colocado lá. Desta maneira, o câncer dos ratos é mais uniforme, quando em humanos temos diferentes tipos de variação celular.

Outra coisa importante é o tempo de tratamento. Em ratos os experimentos são conduzidos em tempos curtos (lembre-se que a vida de um rato é em torno de 3 anos), enquanto que em humanos, este tratamento pode demorar períodos bem mais longos. Algumas drogas no mercado apresentam um ótimo resultado inicial, entretanto, após alguns meses de tratamento, o tumor volta com mecanismos de resistência. Ou seja, o remédio não funciona mais.

Outra coisa importante é a toxicidade. Durante a história do desenvolvimento de fármacos, muitas drogas foram tidas como espetaculares e quando testadas em humanos, mostraram efeitos colaterais mais desastrosos que seus benefícios. Em ratos, alguns destes efeitos não são observados, ou são em escalas diferentes, entra aí a diferença de farmocinética explicada anteriormente.

Beagle_puppy_CadetUma alternativa é testar as drogas em mamíferos maiores, mas isso é mais caro e envolve lidar com a sociedade. Acho que todos lembram dos biegles do Instituto Royal. Então, eles estavam lá por serem mais parecidos com humanos que os ratos. O mesmo para os primatas utilizados em pesquisa, quanto mais semelhante mais fácil reproduzir em humanos.

Pensando nisso, alguns grupos de pesquisa já estão utilizando animais domésticos que desenvolveram câncer naturalmente, como cachorros, para testar e desenvolver drogas. Esta é uma excelente alternativa, pois os animais tem a chance de viver mais tempo e os resultados são bem próximos do esperado.

Aqui no Brasil, quem olha jornal ou simplesmente abre os portais de informação na internet já devem ter lido sobre o “milagre” da fosfoetanolamina – a cura do câncer- e sobre toda a polêmica envolta neste assunto.

Mas afinal, o que tem de errado em liberar este composto? Ele cura mesmo?

A melhor resposta é: NINGUÉM SABE! Ao menos ainda não.

Não sabemos por que os resultados encontrados são apenas para ratos, com tipos de tumores bem específicos, com administração bem específica (foram injetados na cavidade do abdomêm) por períodos curtos de tempo. Drogas como esta saem as dúzias diariamente em revistas da área. Quem trabalha com o desenvolvimento de fármacos sabe que esta é só a ponta do iceberg.

Com relação a fosfoetanolamina, muitos já vem explicando os problemas em como este candidato a fármaco vem sendo tratado e sobre o que se espera dele. Uma explicação rápida e simples pode ser vista no vídeo abaixo do Nerdologia (aconselho muito os vídeos deste canal) e um complemento é um FAQ sobre a fosfoetanolamina no canal do Pirula.

Finalizando, até a Nature publicou um artigo (dois na verdade) sobre a fosfoetanolamina e a maneira como as coisas ocorreram. Ou seja, a falta de ciência em estudar os efeitos do composto e a falta de resultados. (comentário excelente sobre os artigos aqui)

No fim, precisamos falar sobre ciência.

Roberta Lopes Drekener

Roberta L. Drekener, química industrial de formação, química orgânica de coração. Mestre em Química pela UFSM, doutora em Ciências pela Unicamp, pós doutora pela Unicamp e pelo Leibniz Institut of Plant Biochemistry (Alemanha). Se preocupa muito sobre como o mundo vê a ciência e mais ainda sobre o que a ciência faz pelo mundo. Atualmente está no quadro docente do IQ-Unicamp, ainda procurando seu lugar ao sol (para semear e colher frutos).

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