Sobre inteligência artificial e divulgação científica (V.2, N. 4, 2016)

MIT-Neural-Chip_0Você sabe dizer o que os itens da lista a seguir possuem em comum?

  • Reconhecimento de pessoas em fotos

  • Recomendação de filmes, rotas, amigos em redes sociais, etc.

  • Leitura e identificação automática de placas de veículos

  • Tradução de conteúdo

Esses são exemplos de aplicações práticas da inteligência computacional, também chamada publicamente de inteligência artificial, big data e bruxaria.

Nos atenhamos à bruxaria. Existe uma aura mágica em torno da inteligência computacional, tão mágica que faz brilhar os olhos dos autores de ficção científica. Mas nada contribui tanto para essa cortina mística quanto as notícias sensacionalistas sobre esse assunto.

Reconheço que os saltos tecnológicos obtidos com a inteligência computacional são muitos, e acredito que muito mais está por vir. Me impressiono frequentemente com o que se consegue fazer usando técnicas simples, propostas na longínqua década de 1960 (como o k-means), aliadas ao poder computacional e à quantidade de dados que acumulamos hoje.

Nesse sentido, esse sensacionalismo traz algo bom: a princípio, a área inteira goza de muita publicidade, e isso implica em financiamento para pesquisas.

Não existe almoço grátis

Precisamos olhar criticamente os nossos avanços. Não com um olhar crítico ficcional, em que tememos a Skynet ou uma revolução das máquinas, buscando o extermínio dos fracos humanos; mas um olhar crítico nos impactos reais que essas tecnologias têm em nossas vidas.

O mesmo motivo que faz brilhar nossos olhos, também os desvia das sérias implicações e dos limites do que temos construído até então. Tal tecnologia já molda nosso olhar sobre o mundo, nosso modo de nos relacionarmos. O mais óbvio dos exemplos é o impacto em nossa privacidade: ao divulgar nossas fotos e opiniões nas redes sociais, iniciamos um ciclo preocupante. As empresas envolvidas identificam todos os indivíduos em nossas fotos e analisam o teor (ou o ‘sentimento’) de nossas opiniões; manipulam nosso humor ao brincar com o que vemos; compartilham nossos dados com governos de integridade questionável, sem nenhuma justificativa plausível; entre outras operações “no limite da ética” (pra ser muito bonzinho).

Vejo aqui uma missão crucial da divulgação científica dessa área de pesquisa. Ao desmistificar a inteligência artificial, temos meios de entender melhor como a tecnologia nos afeta, como ela nos torna (ou “destorna”) protagonistas de nossas escolhas. É bonito trocar a foto do perfil para manifestar apoio a uma decisão norte-americana sobre a igualdade de direitos entre pessoas do mesmo sexo. Mas esse simples ato de apoio ainda é bonito, quando suspeitamos que tudo começou como mais um experimento do Facebook?

Sensacionalismo e bruxaria não passarão. 😛

Saullo

é estudante de doutorado no Laboratório de Bioinformática e Computação Bio-Inspirada (LBIC), na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp (FEEC-Unicamp), trabalhando na área de aprendizado de máquina.

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2 Resultados

  1. jligado disse:

    O trabalho de divulgação científica é importante. Parabéns.

  2. luttism disse:

    Achei muito interessante a sua abordagem de como a inteligência artificial está presente em nosso dia-a-dia, assim como a divulgação científica é importante para o nosso discernimento a respeito das informações manipuladas pela internet sobre nós. Parabéns pelo texto.