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Divulgação Científica

Divulgação científica: da esfera individual para a institucional

No canto esquerdo há imagem de livros e dois jovens sentados sobre estes livros, e há em um canto uma universidade. À direita há uma menina com megafone, vestido vermelho, há livros em seus pés. No centro vários símbolos representando a ciência: planetas, DNA, átomos, células e vidrarias de laboratório

A defesa de que cientistas devem sair de seus laboratórios para dialogarem com a sociedade ganhou um caráter de urgência nos círculos acadêmicos nos últimos anos. Os argumentos vão desde os mais nobres, como aproximar a sociedade da ciência para que tomadas de decisão sejam feitas a partir do que se considera como o melhor conhecimento até o momento, até os mais “combativos”, de defender a ciência e as universidades de ataques negacionistas.

Fico me perguntando se esse consenso em torno da importância da divulgação científica (DC) se reflete na sua valorização pelas universidades brasileiras. Na sua universidade, existem políticas de comunicação bem definidas e compartilhadas pela comunidade acadêmica? Editais e outras possibilidades de financiamento, como contratação de equipe, são ofertadas a pesquisadores que queiram divulgar ciência? Existem treinamentos em comunicação para cientistas? Essas perguntas são muito pertinentes de se fazer e dão pano pra manga para vários projetos de pesquisa que queiram investigar o grau de institucionalização da DC nas universidades Brasil afora (eu me foquei em estudar as universidades públicas paulistas).

Se as instituições querem mostrar à sociedade o que fazem, nada mais justo do que investir em estrutura para divulgar seus estudos. Isso envolve desde criar uma política institucional de comunicação que inclua a divulgação científica como estratégia até mecanismos que valorizem a atividade dentro dos departamentos e incentivem o pesquisador a divulgar ciência. Como dizem por aí, nem todo pesquisador precisa se tornar divulgador de ciências, mas, se ele quiser, a instituição deve fornecer essa possibilidade(1). 

Ressoo a fala de muitos pesquisadores da área quando digo que tratar da divulgação científica nas universidades implica olhar para as estruturas institucionais que favorecem ou não essas práticas. Afinal, segundo eles, a cultura organizacional das comunidades acadêmicas e instituições de pesquisa pode encorajar ou desencorajar iniciativas individuais dos cientistas que querem divulgar ciência (2). A partir disso é que se constrói uma cultura acadêmica capaz de transformar iniciativas de DC individuais e isoladas em projetos de longa duração — e, consequentemente, mais impacto.

Chegar a um nível em que a divulgação científica passa a estar no cerne da identidade da universidade não é tarefa fácil. As próprias universidades públicas paulistas que se destacam em termos de produção científica e internacionalização (a USP, Unicamp e Unesp são responsáveis por publicar 35% da produção científica nacional (3) e estão em 1º(USP), 2º(Unicamp) e 6º (Unesp) lugar no ranking de universidades da Folha de S.Paulo 2019) ainda estão construindo seus mecanismos para fomentar a DC de forma mais perspicaz e consistente. Neste processo, os gestores podem assumir protagonismo, propondo mudanças estruturais em diferentes instâncias da instituição, em conselhos superiores e colegiados.

Na prática, as instituições ainda derrapam muito quando o assunto é divulgação científica. Um dos problemas que mapeei na minha pesquisa consiste em colocar a atividade apenas nas costas do pesquisador, sem recompensá-lo por isso. Encarada como missão individual, divulgar ciência seria um “a mais” do pesquisador, feito nas horas vagas, de forma voluntária, quando sobra tempo entre um projeto e outro de pesquisa. Esta lógica, que se repete em comunidades acadêmicas estrangeiras (4), faz com que a DC acabe virando atividade secundária, quando muito! Ela dificilmente conta como atividade para fins de progressão de carreira nos departamentos e, muitas vezes, é desprezada pelos docentes comprometidos com carreiras mais “científicas”.

O grande desafio da DC nas universidades é o de sair dessa esfera do individual, que depende da “boa vontade” do cientista, para entrar na esfera institucional, com planejamentos estratégicos de longo prazo, que engajem grupos maiores. Começar a falar sobre formas de dar sustentabilidade a esses projetos, em reuniões de departamento e conselhos universitários, pode ser uma forma de estabelecermos um espaço maior para o diálogo destas instituições com a sociedade, por meio da DC.

*Esse é o primeiro de uma série de textos sobre reflexões do projeto de pesquisa “O apoio institucional de universidades públicas paulistas a práticas de divulgação científica”, que desenvolvi como pesquisadora colaboradora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp) nos últimos dois anos. A ideia é discutir o espaço da divulgação científica nestas universidades e (por que não?) nas universidades brasileiras de forma geral.

Referências

(1) e (2) Pesquisadores refletem sobre a dimensão organizacional da divulgação científica:

HORST, M. A field of Expertise, the Organization or Science Itself? Scientists’ Perception of Representing Research in Public Communication. Science Communication, v.35, n.6, p.758-779, 2013.

NERESINI, F.; BUCCHI, M. Which indicators for the new public engagement activities? An exploratory study of European research institutions. Public Understanding of Science, v.20, n.1, p.64-79, 2011.

(3) A produção científica das universidades públicas paulistas:

Web of Science Group. (2019). ‘Research in Brazil: Funding excellence’ Analysis prepared on behalf of CAPES by the Web of Science Group. 

(4) Estudos mostram que cientistas norte-americanos e europeus também percebem a divulgação científica como uma atividade subjacente a tarefas de pesquisa:

Andrews E., Weaver A., Hanley D., Shamatha J. and Melton G. (2005). ‘Scientists and the Public Outreach: Participation, Motivations and Impediments’. Journal of Geoscience Education 53(3), pp.281-293 http://doi.org/10.5408/1089-9995-53.3.281 

Koivumäki, K., Koivumäki T. and Karvonen, E. (2021). ‘Challenges in the collaboration between researchers and in-house communication professionals in the digital media landscape’. JCOM 20(3), pp.1-21. https://doi.org/10.22323/2.20030204 

Casini S. and Neresini F. (2012). ‘Behind  Closed  Doors. Scientists’  and  Science  Communicators’ 

Discourses on Science in Society. A Study Across European Research Institutions’. Tecnoscienza 3(2), pp.37-62.

3 comentários
  1. Magda Cruciol

    Excelente suas ponderações e questionamentos. Da parte da comunicação, penso que uma estratégia mais participativa é bem-vinda. O uso de formas da comunicação empresarial pura e meramente transpostas para a comunicação científica pode não ser o único caminho. Por que não, em centenário de Paulo Freire, buscarmos alternativas mais alinhadas com nossa própria cultura?

    1. Natália Flores

      Excelente provocação, Magda! Acredito muito na construção de projetos dialógicos na comunidade científica para melhor comunicar ciência com o público.

  2. Paulo Andreetto de Muzio

    Nos Institutos de Pesquisa do estado a situação da DC é um pouquinho mais precária que nas Universidades he he. Em alguns casos a atividade, além de ser esse “a mais”, passa a ser algo subversivo, que tenha que ser feito clandestinamente. Talvez a diferença esteja na relativa autonomia das universidades, visto que os IPs estão vinculados diretamente a secretarias de governo, o que os tornam mais vulneráveis e suscetíveis às imposições e impulsos do reizinho da vez.

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