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Divulgação Científica

Fazer divulgação científica por quê?

No centro da imagem, consta a pergunta "Fazer divulgação científica por quê?" Ao redor há três personagens com a mão no queixo, olhando a pergunta, pensativas. Abaixo há uma faixa pequena escrito "Notas não aleatórias sobre cultura, educação e divulgação científicas"

Sempre falamos que é necessário existir divulgação científica, dentro de instituições de pesquisa como as universidades. No entanto, existem muitos sentimentos contraditórios e debates travados sobre a questão. E hoje eu gostaria de falar um pouco sobre isto, tentando justificar por que fazer divulgação científica?

Antes disso: só universidades devem fazer divulgação científica?

Antes de me embrenhar “de verdade nesta questão”, acho importante falar que não… Não é só universidade ou instituições que devem fazer divulgação científica. Todavia, cada vez mais me convenço que não devemos pensar a divulgação científica como algo a ser feito sozinho como profissionais. Podemos fazer divulgação científica de forma independente de instituições – e a maioria dos divulgadores que conheço estão neste formato, na verdade… E fazendo muito bem, diga-se de passagem!

Mas a divulgação científica é um dos braços importantes de instâncias de pesquisa e, cada vez mais, presente no trabalho rotineiro de algumas pessoas.

Antes de nos jogarmos nas questões que serão centrais no texto de hoje, ainda ressalto que quando pergunto “por que fazer divulgação científica?” não o faço como mais um trabalho do cientista/pesquisador. Não é ato individual! A divulgação científica precisa da coletividade, é ato de grupos de pesquisa, de cientistas em formação, de instituições, de comunicadores, jornalistas: é trabalho de equipe!

Mas por que fazer divulgação científica, afinal?

Existem várias justificativas possíveis e é óbvio que não abordarei todas aqui neste texto super curto. Eu gostaria de abordar quatro pontos sobre fazer divulgação científica. Isto é, como um início de discussão para pensarmos na relação entre produção de conhecimento científico e sociedade.

Por que devo me preocupar com divulgar ciência? Além disso, por que a divulgação científica é importante ao cientista? Aliás, será mesmo que a divulgação científica é importante para a sociedade? Por fim, é nosso papel lutar por uma maior inserção da Divulgação Científica na ciência e na sociedade?

Cada uma destas perguntas incluem debates teóricos e práticos da ciência e da divulgação científica – que não pode ser pensada de forma individual e isolada. Além disso, da busca por retirá-la deste lugar em que pessoas externas ao meio acadêmico não compreendem o que é e como se faz ciência… Vamos às perguntas então!

Por que devo me preocupar com divulgar ciência?

Não há como pensar sobre a preocupação com a compreensão da ciência na sociedade, sem parafrasear Sagan. Já em 1995 ele anunciava que nós criamos uma sociedade que depende da ciência e tecnologia. Todavia, isto ocorria sem que ninguém entendesse de ciência e tecnologia. Sagan dizia que isso é uma bomba relógio que vai explodir na nossa cara a qualquer momento. (e não é que ele estava certo? Um total de zero surpresas aqui!)

É importante pensarmos, também, na preocupação como parte das necessidades que encontramos para que a ciência esteja circulando socialmente, enquanto conhecimento. Neste caso, estou defendendo a ideia da ciência como ferramenta para pensar sobre o (e agir no) mundo.

Deleuze fala que a teoria tem que ser como uma caixa de ferramenta “é preciso que sirva, é preciso que funcione”. E não no sentido utilitarista, mas no sentido de forma de pensamento, ferramenta que nos possibilita pensar.

Por que a divulgação científica é importante ao cientista?

Nós, cientistas, somos seres sociais (seres humanos chama isso). Como tais, somos políticos em tudo o que fazemos e em todos os aspectos da vida. Isto é, temos uma ação social, defendemos posições na sociedade. Especialmente nos últimos anos, em nosso país, temos defendido a importância da ciência como ferramenta para construção de um país e uma sociedade soberana. Ou seja, que produz seu próprio conhecimento, tecnologia, tem autonomia sobre si mesma e seu território. Assim, cientistas são seres sociais e políticos . Não estamos apartados das lutas e das conquistas da população em que vivemos e do momento histórico em que vivemos.

Dentro deste aspecto, não apenas produzimos conhecimentos técnicos e científicos. Nós não temos como anseio a produção de um conhecimento que se torne um objeto inerte. Isto é, que ficará trancafiado em uma caixa em uma garagem empoeirada… Conhecimento científico é como uma caixa de ferramentas e precisa funcionar na mesma sociedade que usamos para “coletar os nossos dados…”.

Além disso, nós, cientistas, precisamos entender as demandas da sociedade e compreender se nossas pesquisas têm impacto nas decisões diárias das pessoas e do governo. Para tanto, é necessário estar imerso nessa sociedade a partir da premissa do diálogo e da escuta. E não apenas da produção de conhecimento sem interlocução. 

Portanto, a divulgação científica é importante para o cientista porque precisamos aprender como falar com pessoas e perceber seu ponto de vista também. A divulgação científica pode se configurar como um exercício de diálogo entre este mundo acadêmico intramuros das instituições de pesquisa que atuamos e a sociedade externa para nós, pesquisadores.

Por que a divulgação científica é importante para a sociedade?

Eu sempre gosto de apontar que o conhecimento técnico e científico é um direito humano. Seja para sustentar a liberdade de opinião e expressão (Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos), seja pelo direito à instrução (Artigo 26), seja pelo direito à participar da vida cultural da comunidade e do progresso científico e seus benefícios (Artigo 27).

Se a ciência é uma caixa de ferramentas e é a maneira para pensar e mudar nossas perspectivas, a maneira de explicar nosso mundo, os fenômenos naturais e sociais, é direito de todo o ser humano compreender seu funcionamento, para embasar seus argumentos, refutar idéias estapafúrdias, educar-se e participar do mundo a partir deste conhecimento por sua compreensão.

A divulgação científica é importante para a sociedade porque conhecimento científico e teorias científicas são parte de nossa luta cotidiana, bem como parte do que vale a pena lutar. Esta relevância reside, portanto, por sermos seres sociais e políticos e o conhecimento ser nossa caixa de ferramentas diárias.

Além disso, existem demandas da sociedade que às vezes são resolvidas, pensadas, teorizadas com ideias científicas e tecnológicas. Todavia, às vezes não é isso o que acontece, e às vezes temos tragédias que poderiam ser evitadas (estamos vivenciando uma neste momento). E, às vezes, temos decisões que são resolvidas, pensadas, teorizadas com ideias científicas e tecnológicas, e isso não é questionado como deveria ser. Compreender a ciência possibilita questioná-la também, sem conspiracionismos ou falácias. Sem cair em desinformações que se aproveitam de polarizações ou vulnerabilidades, sem que estejamos acostumados à ideia de questionarmo-nos a nós mesmos, pois é de ciência (e não dogma) que se trata.

Portanto, a divulgação científica é importante para a sociedade porque precisamos (nós, cientistas e não cientistas) aprender como pensar a partir de pressupostos científicos, mas também precisamos entender como questioná-los.

É nosso papel lutar por uma maior inserção da Divulgação Científica na ciência e na sociedade?

Não nos tornamos cientistas pelo anseio – ou ambição – de sucesso financeiro (hahaha definitivamente não!). Usualmente, cientistas se tornam cientistas por terem, em algum momento de suas vidas, se encantado com o conhecimento. É pelo encanto, por perceber a beleza de uma explicação científica, a pluralidade de conceitos extraídos de um fenômeno, a intensidade de sentimentos por ter compreendido uma situação que nos embrenhamos no mundo da ciência.

Não se entra na ciência por achá-la enfadonha e sem graça! Cientistas gostam de aprender, se encantam com o aprendizado, empolgam-se pela possibilidade de pesquisar mais e mais.

E o que isto tem a ver com a luta por uma maior inserção da divulgação científica dentro da ciência e dentro da sociedade?

Para além da caixa de ferramentas e dos direitos humanos, se nós – em algum momento da vida tivemos a oportunidade e o privilégio de nos encantarmos pelo conhecimento, por qual motivo não seria parte de nossa luta diária que pessoas também tivessem direito a se encantar também?

Por ser um direito humano, nós todos temos o direito de nos encantar pelo conhecimento – assim como cientistas se encantam!

Dentro da ciência, ou seja, entre pares, é preciso que se perceba a relevância social da divulgação científica e sua potência, seja como defesa da ciência, seja como direito humano, seja como encantamento pelo mundo que nos cerca e como o vivenciamos. Só assim, conseguiremos alçar voo para tornar a divulgação científica um meio legítimo e profissional dentro e fora dos muros acadêmicos.

Dentro da sociedade, ou seja, extrapares, é preciso que se perceba a relevância social da divulgação científica como possibilidade de se encantar pelo conhecimento, como instrumento de inserção e luta social por direitos, por compreensão da realidade local, pela condição de uma vida mais sadia, segura, questionadora, menos subalterna.

Por fim

Sempre que eu penso sobre estas questões abordadas neste texto, eu não consigo deixar de mencionar uma das minhas maiores referências na divulgação científica que é a Revista Ciência Hoje – talvez uma das maiores responsáveis por eu ser divulgadora científica hoje.

No histórico da revista consta a proposta audaciosa, para um tempo de cerceamento dos saberes

“divulgar os diversos campos da ciência sem deixar de promover o debate político em torno de questões como cidadania, educação e participação universitária, possibilitando, assim, a democratização do conhecimento” (Revista Ciência Hoje).

Se em tempos tão sombrios como os que vivemos durante a ditadura, tivemos uma iniciativa que fincou o pé no debate sobre democratização do conhecimento, por qual motivo não seria agora esta nossa luta?

Se as teorias científicas são instrumentos para nossas vidas, a divulgação científica é este espaço de construção coletiva de pontes, diálogos, conhecimentos que tornam as lutas socialmente possíveis, responsáveis, encantadoras, éticas e empáticas!

Para Saber Mais

Caldas, Graça (s/d) Divulgação Científica, Relações de Poder e Cidadania, Labjor

Caldas, Graça (2011) O valor do conhecimento e da divulgação científica para a construção da cidadania, Comunicação e sociedade, V33, n56.

Foucault, Michel (2002) Intelectuais e o Poder. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Editora Graal..

Gouvea, Guaracira (2015). A divulgação científica da ciência, da técnica e cidadania e a sala de aula. In: Giordan (org) Divulgação Científica na Sala de Aula.

Larrosa, Jorge (2002) Notas sobre a experiência e o saber da experiência Revista Brasileira de Educação.

Revista Ciência Hoje (2021) Revista Ciência Hoje, História.

Sagan, Carl (1996) O mundo assombrado por demônios. São Paulo: Companhia das Letras

2 comentários
  1. Cecilia Pescara

    Chegando tarde ao blog, mas com extrema satisfação ao ler as questões abordadas. Neste momento histórico faz-se necessário, urgente, a divulgação científica para além das fronteiras da Universidade, não gosto do termo mas estamos em ‘guerra’ contra forças obscurantistas.
    P.S. Sou Professora do ensino fund. I e utilizo o periódico Ciência Hoje das Crianças.

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