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Comunicação InstitucionalDivulgação Científica

Como minha instituição pode apoiar a divulgação de ciência?

A discussão sobre a forma como os institutos de pesquisa e universidades podem incentivar a construção de uma cultura mais aberta à comunicação com a sociedade tem ganhado corpo na comunidade acadêmica nos últimos anos. No centro do debate está a questão do grau de institucionalização da divulgação científica (DC), ou seja, o espaço que a DC ocupa na instituição. Essas atividades estão inseridas no plano estratégico, nas políticas institucionais das universidades?

Primeiramente, é preciso definir o que entendemos por políticas institucionais. No contexto das universidades, elas seriam políticas que regulamentam a forma como os servidores públicos atuam, em suas mais diferentes frentes. 

Um aspecto importante é que as políticas institucionais são alinhadas à missão das universidades, que engloba a pesquisa, o ensino e a extensão. Elas seriam capazes de fornecer condições para que pesquisadores e professores exerçam seu trabalho de fazer avançar o conhecimento científico, formar recursos humanos e compartilhar saberes/ fornecer serviços às comunidades que circundam a universidade.

De que políticas estamos falando?

No âmbito da comunicação e da divulgação científica, as políticas institucionais envolveriam três eixos: 1) políticas de financiamento de atividades de DC; 2) políticas de valorização destas atividades na carreira do pesquisador; 3) políticas de fomento à cultura de comunicação dentro das universidades. No seu conjunto, políticas desta ordem poderiam criar uma estrutura mais sólida na instituição de comunicação com comunidades externas à ciência. 

As políticas de financiamento de DC giram em torno de fornecer condições materiais para que o pesquisador ou grupo de pesquisa que queira divulgar ciência possa fazê-lo. Entram neste escopo editais de fomento a essas atividades, com previsão de bolsas e outros tipos de recursos, até reserva orçamentária de departamentos/institutos para a divulgação científica de seus projetos de pesquisa.

Um exemplo interessante é o da Unesp, que tem linha específica nos seus editais de extensão para disseminação de pesquisas científicas, algo inusitado em se tratando de editais de fomento.

As políticas de valorização de DC envolvem prever formas de avaliar institucionalmente quem divulga ciência e, assim, incentivar a atividade para fins de carreira. Pode-se decidir, por exemplo, dar mais peso às atividades de divulgação científica nos processos de progressão de carreira de professores e pesquisadores de universidades ou fornecer algum tipo de premiação para servidores que desenvolvam essas práticas.

Incentivos são uma forma de mostrar que a divulgação de ciência é reconhecida de forma institucional pelos departamentos e podem ter influência na decisão de pesquisadores de fazer DC. A propensão de cientistas se engajarem com DC depende, entre outros fatores, da percepção do apoio institucional dado a essas atividades, segundo mostra estudo (1).

O papel das assessorias de comunicação

Por fim, as políticas de apoio à cultura da comunicação se referem ao fomento da necessidade da comunicação como eixo central das comunidades acadêmicas. Aqui entra o papel dos gestores e das assessorias e órgãos de comunicação das universidades em incentivar e criar fluxos de comunicação nestas comunidades. Um estudo mostrou que cientistas de instituições com assessorias de imprensa mais ativas são mais propensos a contatar a mídia (2).

Outro estudo global que analisou universidades de oito países, incluindo o Brasil, concluiu que as instituições mais ativas na comunicação de ciência têm em comum a existência de uma política institucional de comunicação e a alocação de recursos para essa área (3). Ou seja, falar de apoio à comunicação envolve voltar à questão dos recursos financeiros e humanos para esse setor.

O apoio à comunicação também pode ser dar no oferecimento de treinamentos para cientistas melhorarem suas habilidades comunicativas, seja via assessoria de imprensa ou grade curricular dos cursos de graduação e pós-graduação. De fato, pesquisas mostram que ser treinado para comunicar ciência é um dos fatores que tornam o cientista mais propenso a se engajar com essas atividades durante a sua trajetória acadêmica (4). 

Pipocam iniciativas em diferentes formatos, que vão de disciplinas de comunicação de ciência para cientistas em cursos de pós-graduação, workshops pontuais e comunidades de formação de divulgadores, como o Blogs de Ciências da Unicamp, até cursos de especialização em Divulgação Científica e Jornalismo Científico, como o do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp. E o legal é que elas parecem inspirar cursos e treinamentos em outras universidades.  

*O texto faz parte de uma série de reflexões do projeto de pesquisa “O apoio institucional de universidades públicas paulistas a práticas de divulgação científica”, que desenvolvi como pesquisadora colaboradora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp) nos últimos dois anos. A ideia é discutir o espaço da divulgação científica nestas universidades e (por que não?) nas universidades brasileiras de forma geral.

Referências

1 – Besley J., Oh S. and Nisbet M. (2012). ‘Predicting scientists’ participation in public life’. Public Understanding of Science, 22(8), pp.971-987.  

2 – Marcinkowski F., Kohring M., Furst S. and Friedrichsmeier, A. (2013). ‘Organizational Influence on Scientists’ efforts to go public: an empirical investigation’. Science Communication 36 (1), pp.56-80.

3 – Entradas M., Bauer M., O’muircheartaigh C., Marcinkowski F, Okamura A.; Pellegrini G. et al. (2020). ‘Public communication by research institutes compared across countries and sciences: Building capacity for engagement or competing for visibility?’. PLoS ONE 15(7): e0235191.  

4 – Dudo A. and Besley J (2016) ‘Scientists’ Prioritization of Communication Objectives for Public Engagement’. PLoSONE 11(2), pp.1-18. 

5 – Dunwoody S., Brossard D. and Dudo A. (2009). ‘Socialization or rewards? Predicting U.S. scientist-media interactions’. Journalism and Mass Communication Quarterly 86(2), p.299-314.

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