Minecraft: muito mais do que diversão

Sucesso até hoje entre crianças e jovens, Minecraft ajuda a desenvolver habilidades e conhecimentos e pode ser uma importante ferramenta para estimular a criatividade e o aprendizado

[Esse texto foi originalmente publicado na edição 371 da Revista Ciência Hoje]

Minecraft é um jogo eletrônico lançado em 2009 que consiste em sobreviver em um mundo formado (majoritariamente) por blocos cúbicos. Steve, o personagem controlado pelo jogador, inicia o jogo em um ambiente repleto de árvores, montanhas, rios. O seu objetivo é coletar recursos (madeira, rochas, minérios, carvão, alimentos) e construir ferramentas e abrigos cada vez melhores para sobreviver dos monstros que surgem durante a noite.

Mas não é só de sobrevivência que o jogo se trata. Minecraft é também sobre exploração e constante evolução. Com o avançar do jogo, é possível automatizar a coleta de praticamente todos os recursos e tornar cada vez menos necessárias tarefas que demandam muito tempo (como a mineração, o plantio, a colheita e a caça de monstros).

Aprender e dominar o jogo pode não ser uma tarefa fácil e intuitiva, mas nada que uma pesquisa na internet não resolva. Estudar sobre o jogo e assistir a vídeos de tutoriais no YouTube é algo que os ‘minecrafters’ estão habituados a fazer.

Quem vê de fora, pode não entender o sucesso do game e o porquê de tantos jovens e até adultos investirem várias horas do dia nesse estranho mundo em cubos. Isso se deve, em partes, à vasta e complexa mecânica do Minecraft, que não impõe limites à criatividade, fazendo dele um jogo sem fim.

Uma das provas de que as possibilidades são ilimitadas é que ele continua sendo um fenômeno até hoje. Em 2019, os vídeos de Minecraft publicados no YouTube somaram mais de 100 bilhões de visualizações, segundo a plataforma, tornando-se o jogo mais assistido do ano.

Aprendendo com o Minecraft

Por ter muitos paralelos com o mundo real, o Minecraft pode proporcionar alguns aprendizados para o jogador e tem potencial para desenvolver a criatividade, o senso estético, a percepção espacial, entre outras habilidades.

Um jovem que nunca prestou atenção em aulas de geografia, tem a oportunidade de se familiarizar com o conceito de biomas em Minecraft. Tundra, Taiga, Deserto, Pântano, Selva, Florestas, Savana, são só alguns dos 38 biomas gerados ao longo do mapa. Passear por estas diferentes regiões é uma forma ativa de descobrir as diferenças e semelhanças que estas regiões guardam entre si.

Alguns biomas do Minecraft

O professor Cassiano Amorim, geógrafo e pró-reitor de graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora, destaca que em um país marcado por tamanha desigualdade socioespacial, em que boa parte dos jovens vivenciam apenas um ou dois biomas, a possibilidade de passear, interpretar e intervir em 38 biomas (mesmo que alguns sejam fictícios e que não retratem com fidelidade os biomas da Terra) é, sem dúvida, muito enriquecedor. Habilidades como ler e interpretar o mundo ao redor, reconhecer características de um espaço geográfico (como relevo, vegetação, clima), perceber as consequências da interferência humana nesses espaços, são habilidades que podem ser desenvolvidas ao se jogar o Minecraft.

É natural que o jogo por si só não seja o suficiente para que conhecimentos profundos sobre a natureza sejam produzidos pelos jovens, até porque muitas coisas diferem do mundo real. Mas pode ser um ótimo ponto de partida para o aprendizado.

Imagine uma sala de aula em que o professor está ensinando sobre rochas ígneas e magmáticas (tais como basalto, diorito, obsidiana, granito e andesito). Ao escutar estes nomes pela primeira vez, não é raro os alunos experimentarem dificuldades para articular essas informações com experiências que tenha vivido e com outros conhecimentos sobre o assunto, tornando mais difícil o processo de aprendizagem. Mas se um desses alunos é jogador de Minecraft, ele não apenas conhece cada uma dessas rochas, como as utiliza frequentemente no jogo.

Indiretamente, o Minecraft incorpora vocábulos das ciências da natureza ao repertório dos estudantes, algo que dificilmente ocorreria em outras situações. Mas não para por aí.

A geometria espacial, que é uma área da matemática que estuda as formas e as dimensões de objetos tridimensionais, é de enorme importância para várias áreas do conhecimento científico e mesmo das artes.

Um desafio encontrado pelos estudantes nos primeiros contatos com essa matéria é a dificuldade de visualização de objetos geométricos.

Ao fazer construções tridimensionais no Minecraft, utilizando principalmente blocos cúbicos, o jogador tem a oportunidade de aprimorar seu senso espacial (fato que foi lembrado até por uma questão de matemática do ENEM em 2018).

Enem 2018: Pergunta sobre Minecraft
Enem 2018: Pergunta sobre Minecraft

A possibilidade de colocar em prática aprendizados escolares sobre cálculo de perímetro, área e volume, uso de simetria, formas geométricas, não só funciona como um processo de aprendizagem ativa de matemática como dá mais sentido ao aprendizado, o que ajuda os estudantes a desenvolverem uma motivação genuína para aprender, diferente da motivação extrínseca de ‘aprender para passar de ano’.

Uma das coisas que um jogador de Minecraft aprende é que é possível, por exemplo, fazer construções curvas e até mesmo fazer círculos ou esferas, utilizando blocos cúbicos. Se você der distância suficiente, vários cubinhos dispostos de maneira circular podem aparentar formarem um círculo perfeito. Não seria esse o fundamento dos pixels que formam as imagens digitais?

Templo no deserto. Imagem do site Minemaníacs

Além do senso espacial, os minecrafters também estão acostumados a utilizar as coordenadas espaciais ‘x’, ‘y’ e ‘z’ para se localizarem nesse enorme mundo (que possui uma área total de 3,6 bilhões de quilômetros quadrados – aproximadamente sete vezes a área do planeta Terra). Para se lembrarem de onde fizeram determinada construção ou onde encontraram um bioma raro do jogo, os jogadores registram sua posição espacial nos eixos x, y e z. No dia-a-dia, não é muito comum utilizarmos um sistema como esse para nos localizarmos. Daí advém uma dificuldade que os professores de matemática costumam encontrar: articular esse conhecimento de coordenadas espaciais com o cotidiano dos estudantes.

Há ainda muitas outras habilidades lógico-matemáticas que o game proporciona: o sistema de compra e vendas de itens e recursos; a possibilidade de agrupar muitos dos itens do jogo em pacotes com 64 unidades, obrigando o jogador a fazer cálculos o tempo todo; além da tecnologia de ‘redstone’, um item que guarda algumas semelhanças com a eletricidade e é o que permite a construção de estruturas automatizadas.

Para além de habilidades escolares, o Minecraft oferece constantemente situações-problemas que estimulam o jogador a usar de sua criatividade para solucioná-las e melhorar sua experiência com o jogo. Resolver problemas costuma ser uma motivação muito mais forte e significativa para o aprendizado do que tirar uma boa nota ou passar de ano, porque se trata de uma motivação intrínseca, que vem de dentro do indivíduo, e não uma motivação que lhe foi imposta por outra pessoa.

E é por isso que muitas pesquisas vêm investigando as aplicações do Minecraft na educação e muitas escolas e professores ao redor do mundo já o utilizam. A própria Microsoft, que comprou a desenvolvedora do jogo, Mojang, em 2014 por 2,5 bilhões de dólares, tem investindo muito para tornar o Minecraft uma plataforma educativa e incentivar seu uso em escolas de todo o mundo.

Minecraft: Education Edition - Sala de aula.
Minecraft: Education Edition – Sala de aula.

Por fim, vale acrescentar que esse texto não ignora a possibilidade do uso compulsivo desse e de qualquer outro jogo trazer prejuízos para a saúde física, mental e social do indivíduo. É verdade que as pesquisas científicas nesse campo ainda são incipientes, mas a intuição e a experiência diária nos mostram que vícios, sejam quais forem, não parecem fazer bem. Mas isso é assunto para outro texto.

Se você convive com jovens que jogam Minecraft, não os desencoraje. É possível, sim, aprender muito com o jogo e desenvolver uma série de habilidades. E com o acompanhamento de um educador ou familiar esse aprendizado pode certamente ser potencializado. 


Lucas Miranda
Físico e divulgador de ciências
Colunista na Ciência Hoje e Editor do Ciência Nerd

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