Química

Elementos químicos na ficção

Será que filmes e quadrinhos falam sobre os elementos químicos com a precisão científica do mundo real?

[Esse texto foi originalmente publicado na edição 359 da Revista Ciência Hoje]

Qual foi a última vez que você escreveu um texto? Já parou para pensar na quantidade de palavras que conseguimos formar com apenas 26 letras do nosso alfabeto? Já parou para pensar que você pode mudar a ordem das letras de uma palavra e formar outra de significado completamente diferente?

Na natureza, ocorre algo muito parecido. Toda a matéria que conhecemos é formada por partes muito pequenas chamadas de átomos. Existem átomos de vários tipos diferentes: de hidrogênio, de oxigênio, entre outros. Esses tipos de átomos, que possuem diferentes propriedades, são o que chamamos de elementos químicos.

Assim como as 26 letras do alfabeto podem formar várias palavras, os 118 elementos químicos que conhecemos podem originar um número inimaginável de materiais. Se você unir vários átomos de oxigênio, por exemplo, você obtém o gás oxigênio. Se você unir dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, você obtém uma molécula de água.

Mas será que os filmes e quadrinhos utilizam a ciência dos elementos químicos de forma cientificamente correta?

Tony Stark e a síntese do elemento químico ‘badássio’

Se você acompanha os filmes da Marvel Comics, deve saber que o Homem de Ferro não é apenas um herói que combate ameaças à Terra. Diferentemente do Magneto (que para a nossa segurança não sabe muito de física), Tony Stark é um genial cientista que já fez descobertas de ponta na área tecnológica.

No filme Homem de Ferro (2008), Stark percebe que estava sendo envenenado pelo elemento químico paládio. O paládio era o alimento do reator instalado em seu peito, que gerava energia para suas armaduras. O cientista, então, faz alguns experimentos no acelerador de partículas de sua garagem e consegue sintetizar um novo elemento químico. O ‘badássio’, como foi chamado, já havia sido previamente teorizado pelo seu pai, também cientista. A partir de então, ele começa a utilizar esse elemento e suas armaduras passam a ficar ainda mais poderosas e a consumir mais energia.

Acelerador de partículas para gerar elementos químicos
Tony Stark trabalhando em seu acelerador de partículas

No mundo real, os elementos químicos de fato são sintetizados de uma forma muito parecida. Utilizando aceleradores de partículas, cientistas provocam colisões de átomos de diferentes elementos químicos com a intenção de fundi-los e gerar novos elementos.

Uma das dificuldades de lidar com elementos sintéticos é o fato de eles serem mais pesados e, por consequência, mais instáveis. Na tabela periódica, chamamos os elementos químicos que estão depois do urânio (cujo núcleo possui 92 prótons) de transurânicos. Esses elementos, que são muito pesados, são tão instáveis que praticamente nenhum deles existe mais na Terra. Se, em algum momento, eles existiram, a maior parte já se transformou em outros elementos mais leves.

Assim, quando os cientistas conseguem sintetizar elementos novos (como é o caso dos transurânicos), eles duram frações de segundo.

Tabela periódica dos elementos químicos
Tabela periódica dos elementos químicos

O problema é que a tabela periódica já está totalmente preenchida até o oganessônio (com 118 prótons no seu núcleo). Por isso, os cientistas acreditam que é pouco provável que ainda exista algum elemento desconhecido que seja estável.

Ou seja, se Tony Stark realmente tiver descoberto um elemento químico novo, ele provavelmente seria muito pesado e não teria estabilidade.

A kriptonita no mundo real

Criada a partir dos restos do planeta fictício Krypton, a kriptonita é um mineral, geralmente esverdeado, que tem algum grau de radioatividade. A kriptonita é muito famosa por ser a maior fraqueza do Super-homem. Mas de que esse mineral é feito?

No filme Superman – o retorno (2006), é possível ver, em um recipiente contendo um meteorito com kriptonita, uma descrição com sua composição química. Segundo o recipiente, a Kriptonita é composta de sódio, lítio, boro, silicato, hidróxido e flúor. Isso significa que, ao menos no contexto daquele filme, a kriptonita não é um novo elemento químico. Podemos dizer que ela, na verdade, é um mineral, formado por átomos de vários elementos químicos bem conhecidos.

Após o lançamento do filme, Chris Stanley, mineralogista do Museu de História Natural de Londres, afirmou que existe uma Kriptonita no mundo real! O cientista afirmou à imprensa que o mineral “jadarita” tem uma composição química muito similar à Kriptonita. A principal diferença na composição é que a jadarita não possui flúor.

Visualmente, ambas são bem diferentes. Em vez de verde, a jadarita é branca, não é muito rígida, não é radioativa e, até onde sabemos, não veio do planeta do Super-homem. Será que, se acrescentarmos átomos de flúor a esse mineral, chegaremos à perigosa e radioativa kriptonita? Pouco provável, porque os dois minerais são materiais muito diferentes.

Kriptonita. Química
Kriptonita, a maior fraqueza do Super-homem
Jadarita. Química
Jadarita, mineral de composição química muito semelhante à da Kriptonita, mas com características bem diferentes

Mas, assim como você pode usar um mesmo conjunto de letras para formar palavras diferentes, também é possível usar um mesmo conjunto de elementos químicos para formar materiais diferentes. Quem sabe não é esse o caso da kriptonita?

Além disso, a condição sob a qual um material é gerado influencia na maneira como os átomos irão se agrupar. Certamente, o planeta Krypton tem características muito diferentes da Terra, como pressão atmosférica, temperatura, umidade etc. E essa diferença pode ser o suficiente para que elementos químicos iguais se combinem de formas completamente diferentes.

Se vários átomos de carbono se juntarem, por exemplo, eles podem formar o grafite, um material preto, opaco e bom condutor de eletricidade. Porém, se esse mesmo material for submetido a uma altíssima pressão, os mesmos átomos de carbono formam um valioso diamante, translúcido e extremamente duro.

Assim, é razoável pensar que a kriptonita pode ter sido gerada em condições muito extremas de pressão e temperatura, seja do planeta Krypton, seja do próprio meteorito que a trouxe até a Terra.

Em resumo, é improvável que Tony Stark tenha criado um elemento químico novo e estável, mas sobre a kriptonita nada podemos afirmar. Afinal, se ela de fato existir, há boas explicações científicas que justifiquem o fato de ela ter a composição química mostrada no filme, mas nunca ninguém ter conseguido criá-la na Terra.


Lucas Miranda
Físico e divulgador de ciências
Colunista na Ciência Hoje e Editor do Ciência Nerd

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