Celebrando Marian Cleeves Diamond: a fundadora da neurociência moderna

Publicado por Carolina Francelin em

Marian Cleeves Diamond com um cérebro humano preservado. Foto por Elena Zhukova photos (2010). Todos os direitos reservados.

A busca pelo entendimento de como o cérebro funciona e a relação entre nossos corpos e os processos mentais já estavam presentes nas primeiras organizações antigas humanas. Os filósofos gregos, maiores influenciadores da neurociência ocidental, já teorizavam sobre a função do cérebro, e determinaram-no como órgão responsável pela razão e emoção; e em conjunto com os fisiologistas, tinham plena convicção de que o cérebro era um órgão fixo e imutável. 

Surpreendentemente para alguns, e talvez para outros nem tanto, foi uma mulher que teve um segundo olhar sobre a linha de pesquisa do grupo em que trabalhava e fez a descoberta que revolucionou a neurociência. A vida e a trajetória dela são o tema deste post para o Ciência Pelos Olhos Delas.

Marian Cleeves Diamond, uma estadunidense, era integrante de um time de pesquisadores da University of California in Berkeley (UC Berkeley) quando mostrou pela primeira vez alterações neuroanatômicas no cérebro de camundongos expostos a diferentes ambientes, os ambientes enriquecidos – momentos onde as cobaias de laboratório foram expostas a alta estimulação em comparação com as condições de habitação convencionais. Seus achados são a base para muitas outras teorias da plasticidade cerebral e estão presentes desde os artigos sobre maternidade até o livro acadêmico de neurofisiologia. Ouso ainda dizer que saber que o cérebro é capaz de se transformar ao longo de toda a vida do indivíduo é libertador e nos permite alcançar o infinito

A vida e início da carreira

A história de vida de Marian é bastante diferente de outras mulheres cientistas que eu já trouxe aqui no blog. Diante do que pude obter de informação, ela não passou por problemas de ordem social, financeira ou sexista. 

Marian nasceu em novembro de 1926 na cidade de Glendale, que fica no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Ela foi a filha caçula de um imigrante inglês e de uma estadunidense que abandonou seu doutorado para cuidar dos filhos. A cientista foi para a UC Berkeley em 1946 guiada pelo esporte – ela jogava tênis -, e graduou-se em 1948. 

Após passar o verão na University of Oslo, na Noruega, a pesquisadora retornou para a UC Berkeley como a primeira integrante feminina do Departamento de Anatomia para fazer o doutorado, defendido em 1952. Nesse período ela se casou, e teve o primeiro de seus quatro filhos em 1953. Ainda durante seu doutorado a cientista lecionou anatomia para os alunos da faculdade e semeou ali uma nova paixão

Após adquirir o título de doutora em anatomia humana, Marian foi trabalhar como assistente de pesquisa em Harvard até 1953, quando foi nomeada a primeira cientista e professora mulher na University of Cornell, onde ficou até 1958 lecionando sobre biologia humana e anatomia comparada. Em seguida, ela passou a compor o corpo docente da UC San Francisco para lecionar anatomia para os graduandos em medicina. 

Já em 1960, ao retornar para a UC Berkeley como convidada para continuar seus estudos sobre a anatomia cerebral, Marian se uniu ao grupo de pesquisa composto por David Krech, Mark Rosenzweig, e Edward Bennett. Em 1964, ela obteve a primeira evidência, através da medição da anatomia cerebral de ratos, da plasticidade do córtex cerebral desses mamíferos

A nova descoberta: a plasticidade cerebral 

Naquele tempo, o senso científico era de que a natureza do cérebro tem origem genética e é imutável e fixa. Assim, como toda quebra de paradigma, muitos cientistas receberam a pesquisa de Marian com ceticismo, criticando a pesquisa com murinos dizendo ser boba e uma perda de tempo. Mas a cientista mostrou que o córtex cerebral de ratos jovens que receberam estímulo era 6% mais espesso do que o de ratos isolados, isso baseado nos diferentes estímulos de vida que tiveram. 

Um córtex cerebral enriquecido aumenta a capacidade de aprendizado enquanto que o de um ambiente sem estímulo apresenta menor acúmulo de novos conhecimentos. Essas pesquisas de quebra de paradigma, publicadas em meados de 1964, impulsionaram a carreira de Marian pelos próximos 37 anos e deram base ao desenvolvimento da neurociência moderna. 

Quando entrou para o grupo de pesquisa na UC Berkeley, Marian estava envolvida num trabalho em que precisava manter os ratos vivos por muitos meses. E, por isso, muitos deles morriam antes da data de término dos experimentos. Ela então resolveu tratar um grupo de ratos como animais domésticos, e esses vieram a ser os que apresentaram maior expectativa de vida. Hoje, temos dados científicos mostrando que crianças no período escolar que recebem carinho e atenção plena de seus cuidadores apresentam maior desenvolvimento da região do hipocampo cerebral. Conhecimentos como esse são possíveis porque Marian provou que é possível mudar o cérebro, para o bem e para o mal, de acordo com o ambiente. 

Marian Diamond, em 1985, examinando o cérebro 
de Albert Einstein em seu laboratório.
 Foto por Jerry Telfer/The Chronicle. Todos os direitos reservados.

Apesar dos olhares tortos, naquela época a ciência crescia de forma exponencial diariamente e Marian continuou seus estudos com os cérebros de ratos. Mais um exemplo da resiliência científica. Sua aptidão como professora e seus primeiros achados revolucionários na pesquisa permitiram que ela se tornasse professora assistente de anatomia em 1965 no Departamento de Biologia Integrativa na UC Berkeley, tornando-se professora titular, e mais tardiamente Professora Emérita até 2017.

Foi então que, em 1984, a UC Berkeley recebeu alguns pedaços preservados do cérebro de Albert Einstein. Ao estudar esse material, Marian percebeu que o tecido de Einstein tinha mais neurônios do tipo glia – que são neurônios que nutrem os demais neurônios – do que a média do cérebro das pessoas. Ao perceber que o cérebro de Einstein tinha a proporção de glia maior em relação aos neurônios totais do que outros cérebros humanos, Marian hipotetizou que a razão para isso acontecer era a alta demanda metabólica e estimulação que Einstein colocava em seus neurônios. 

Nesse momento, todas as suas pesquisas anteriores receberam a devida atenção e os artigos começaram a ser mais comentados e visualizados. Marian voou!, virou celebridade. 

Não foi só a pesquisa

Marian não foi somente uma pioneira da pesquisa em neurociência, anatomia e comportamento. Ela também foi uma excelente professora e mentora muito dedicada ao serviço público e à universidade. Dentre seus prêmios e títulos encontram-se menções honrosas por sua dedicação como professora. 

Marian Diamond em sala de aula da UC Berkeley Foto do arquivo da UC Berkeley.Todos os direitos reservados.

A marca registrada da pesquisadora era um caixa de chapéu sempre a tiracolo, contendo um cérebro humano preservado que seria utilizado na aula de anatomia. Arrasando demais, Marian ainda manteve suas aulas de Biologia Integrativa (Integrative Biology 131 [IB 131, Human Anatomy]) em um canal no YouTube.

Ela também trabalhou como assistente e professora associada no College of Letters and Science e foi diretora no Lawrence Hall of Science de 1990 até 1996, onde aplicou seus achados sobre ambientes enriquecidos para o desenvolvimento de programas educacionais de ciência e matemática para estudantes da pré-escola até o ensino médio. 

As seguintes publicações de Marian também foram inovadoras: em 1983 ela relatou pela primeira vez a existência de dimorfismo sexual devido ao hormônio esteróide na estrutura do córtex cerebral, além de alterações anatômicas associadas com a idade. Já em 1985, ela foi a primeira a mostrar que o córtex cerebral de ratos idosos pode mudar em resposta ao ambiente em que se encontra e, por isso, pode ser influenciado pela capacidade de aprendizado. Assim, como uma cereja no topo do bolo, ela ainda publicou sobre a relação do pensamento positivo com o sistema imune, além do papel da mulher na ciência. 

Marian Diamond com sua famosa caixa de chapéu contendo um cérebro humano conservado. Foto do arquivo da UC Berkeley. Todos os direitos reservados.

Marian ainda foi membro da American Association for the Advancement of Science e ganhou diversos prêmios. A lista é extensa, e inclui como destaques: Professora do Ano e Medalhista de Ouro pelo Council for Advancement and Support of Education. Wash. D.C. e Professora Distinta pela US Berkeley em 1975; foi incluída no San Francisco Chronicle Hall of Fame e recebeu o prêmio de Distinta Pesquisadora Sênior pela American Association of University Women. Marian também é autora do livro “Enriching Heredity: The Impact of the Environment on the Anatomy of the Brain” (1988) e co-autora do “The Human Brain Coloring Book” (1985).

História imortalizada

Marian Diamond foi uma educadora e cientista pioneira considerada a fundadora da neurociência moderna. Ela faleceu em julho de 2017 deixando um legado sobre a funcionalidade plástica do cérebro. Sua vida está imortalizada no documentário lançado em 2016:  My Love Affair with the Brain: The Life and Science of Dr. Marian Diamond, de Catherine Ryan and Gary Weimberg. 

O filme foi nomeado para o Emmy Award para Outstanding Science and Technology Documentary (2018, National News and Documentary Emmy Awards), ganhou o PRIX ADAV como Melhor filme educacional do ano no Best Pariscience Festival International du Film Scientifique, e recebeu o  Kavli-AAAS Science Journalism Gold Award como melhor documentário em ciência de 2017. 

Marian Diamond com um cérebro humano conservado. Foto do arquivo da UC Berkeley. Todos os direitos reservados.

Me faltam palavras para concluir a história da Marian Diamond, uma cientista contemporânea que provocou uma revolução na forma que enxergamos o cérebro e sua comunicação com nosso organismo. Os achados dela hoje dão base a estudos de fisiologia e psicologia, saem dos artigos científicos para artigos de revistas populares, ajudam cuidadores a fornecer maior possibilidade de desenvolvimento de crianças, jovens, adultos e idosos; estão presentes na pré-escola e na terapia cognitiva para idosos. Esta pesquisadora, educadora e mentora foi grande e já está eternizada.

Acabo por aqui com sua frase clichê, que acaba sendo uma dica: “Use-o (o cérebro), ou perca-o” – Marian Diamond


Carolina Francelin

Carolina é formada em Biologia e Mestre e Doutora em Imunologia pela UNICAMP, atualmente faz pós-doutorado na Universidade do Alabama em Birmingham -USA. Desde sempre tem avidez pelo testar e descobrir e uma paixão intrínseca pelo ensinar. Sonha com o dia em que todos terão os mesmos direitos de acesso.

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