Mondegreen: o que a gente entende é sempre igual ao que a gente escuta?

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Texto de:
Caroline Barbosa Carmona,
Laura Spina Irano
Mariana Tech Ramos da Silva
3o ano de Fonoaudiologia da Unicamp

Já parou para pensar como ocorre a nossa percepção auditiva?

Ouvir é algo tão rotineiro, que acabamos nem pensando em como isso ocorre. Uma música, uma conversa, um filme… simplesmente ouvimos. Mas o que acontece é que quando escutamos algum estímulo, nosso cérebro busca um significado para ele e ocorre uma organização e interpretação baseada no contexto que estamos inseridos naquele momento. Falando assim, parece até simples né?

Apesar de parecer simples, essa organização envolve diversas estruturas do nosso cérebro que são especializadas na percepção auditiva e no reconhecimento, além de várias etapas até que de fato possamos entender o que ouvimos.

Ao falar, ao mexer a boca língua e as pregas vocais, causamos uma mudança no ar à nossa volta que chega no ouvido da pessoa com quem estamos falando. Se essa pessoa souber a língua que você está falando, ela vai entender esses sons e compreender o que eles querem dizer nessa língua. Só então, conseguimos compreender o conteúdo da mensagem. Tudo acontece em milésimos de segundo, mas uma pequena falha em qualquer parte desse processo pode causar ruídos de comunicação.

Quando desenvolvemos a capacidade de compreender os sons da fala?

Um fato muito importante e que pode parecer até curioso, é que desenvolvemos essa capacidade de perceber sons antes mesmo de nascer.

Um estudo realizado na Universidade de Helsinki na Finlândia definiu que ao longo de todo nosso crescimento, o cérebro vai se desenvolvendo e se especializando em funções como a de percepção auditiva. Quando ainda somos bem pequenos, recém nascidos mesmo, somos capazes de reconhecer vozes familiares. Achou interessante? Então, outros estudos demonstram que ainda antes de nascer, nós já conseguimos disferenciar entre línguas diferentes e informações prosódicas! Por isso, não duvidem quando uma grávida diz que está conversando com seu bebê, porque ele realmente escuta!

O bebê já consegue compreender pelo menos a prosódia da sua língua nativa, antes mesmo do seu nascimento.

Desde essa etapa inicial, nós temos uma vontade inata de querer associar o que ouvimos ao que estamos vendo e isso vai de encontro a relação do significado com o contexto em que estamos inseridos. Ou seja, assim que ouvimos, passamos por etapas de detecção, discriminação, identificação e reconhecimento para, por fim, chegarmos a compreensão.

Ok, e agora que vimos um pouco de como isso acontece, aí vai uma pergunta um tanto instigante:

Provavelmente você já tentou arriscar a cantar o hino nacional, mesmo sem ter certeza absoluta sobre a letra, né?

Algumas pessoas só mexem a boca fingindo cantar, enquanto outras arriscam a letra como a Marina Borges, de 5 anos, na matéria abaixo.

http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2014/06/menina-de-5-anos-faz-sucesso-na-web-ao-cantar-hino-nacional-no-es.html
https://www.youtube.com/watch?v=ZJNp0k5l06Y&ab_channel=farioff

Essas confusões que fazemos na maioria das vezes com músicas e poemas são oriundas de uma pequena falha nesse processo todo de compreensão da fala. Mas caso tenha se identificado, não se preocupe! Esses pequenos desvios de compreensão são normais e, normalmente, não vão causar problemas.

Um fato curioso: em 1954, a escritora americana Sylvia Wright comentou que, quando criança, sua mãe cantava para ela uma música tradicional escocesa chamada “The Bonnie Earl O’ Moray“. Em uma das estrofes, a letra canta “And laid him on the green” (e o enterraram no verde) enquanto ela jura que sempre escuta “And Lady Mondegreen”.

A partir de então, essas trocas ficaram conhecidas pelo nome carinhoso Efeito Mondegreen (Mondegreen effect), mas seu nome científico é: desvio de ouvido (slips of the ear).

Esse fenômeno, portanto, consiste na interpretação errada/mal entendida de alguma palavra e na substituição dela por outra com uma sonoridade semelhante.

Alguns possíveis motivos dos “mondegreens”

Uma das principais razões dos mondegreens é o fato de criarmos uma expectativa sobre o que esperamos ouvir, fazendo com que, quando a palavra não é a que queremos ouvir, não conseguimos trocá-la do que o cérebro pensou antes. Isso acaba mudando a percepção sobre a música ou poema, e fica mais difícil ainda reconhecer que você está cantando/citando errado.  Segundo Sylvia Wright, “there are many mondegreens which give vivid new insights into tired old ideas“, ou seja:

Existem inúmeros mondegreens que dão novas percepções às antigas ideias“.

Sylvia Wright

O que acontece é que somos tendenciosos pelo nosso cérebro a trocar a palavra que não entendemos por outra que seja semelhante sonoramente falando, mesmo que o sentido em si não seja parecido. Isso porque, segundo o literário Steven Connor, ao fazer essa troca o cérebro está tentando dar sentido ao mundo e faz suposições para preencher as lacunas de quando não consegue determinar o que está ouvindo.

Um fato curioso é que, assim como Steven Pinker observou e podemos ter como experiência, geralmente os mondegreens tendem a ser muito discrepantes e menos plausíveis do que a palavra original e, na maioria das vezes é muito difícil conseguir escutar ou cantar a música com a palavra certa pois acabamos nos apegando a esse jeito de cantar/falar.

Até as cantigas populares não fogem dessa… Alguém cantava:

“Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava
Ela brilhar”?

Se você cantava assim, sinto te informar, mas o certo é “eu mandava ladrilhar”

Outra curiosidade é que, no Brasil, esse fenômeno também é conhecido como Virundum devido a um trocadilho em relação ao hino nacional. No trecho em que se canta “Ouviram do Ipiranga” várias pessoas cantam “Virundum Ipiranga”.

Entretanto, aqui no Brasil o virundum seria um mondegreen com um tom mais humorado, pois serve, em muitos casos, como uma forma de brincadeira para músicas que conhecemos e que tem uma interpretação complicada.

Vocaloid BR

Esse aqui com certeza é um dos mais chocantes. Pasmem, mas a maneira correta de cantar o clássico do Rei Leão é:

“A whim away, a whim away”

(Uma fantasia distante, uma fantasia distante)

Um outro exemplo do fenômeno Mondegreen que revela um grande enigma da música, é a letra de “Ragatanga”, do grupo Rouge. Essa música ficou muito conhecida por conter um refrão indecifrável:

“Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi”

Após alguns anos de sucesso dessa música, o grande segredo veio à tona, e nada mais é que a perfeita explicação do fenômeno Mondegreen. A música inicia-se assim:

“Olha lá quem vem virando a esquina
Vem Diego com toda a alegria, festejando
Com a lua em seus olhos, roupa de água marinha
E seu jeito de malandro
E com magia e pura alma
Ele chega com a dança
Possuído pelo ritmo ragatanga
E o DJ que já conhece
Toca o som da meia-noite
Pra Diego, a canção mais desejada
E ele dança, ele curte, ele canta”

E logo depois o refrão. O que essa letra mostra, é que Diego, muito alegre em uma festa, possuído pelo ritmo “ragatanga”, pede para o DJ tocar a música já conhecida, e quando Diego vai cantar qual a “canção mais desejada” ele canta “Aserehe ra de re, de hebe tu de hebere seibiunouba mahabi, an de bugui an de buididipi”.

Aqui vemos um exemplo que Diego tenta cantar, do que ele entende, da canção mais desejada, que na verdade é a música “Rapper’s Delight”, do trio The Sugar Hill Gang, a qual a letra deu origem ao refrão de “Ragatanga”:

“I said-a hip, hop, the hippie, the hippie
To the hip hip hop-a you don’t stop the rock
It to the bang-bang boogie, say up jump the boogie
To the rhythm of the boogie, the beat”

Essa letra original em inglês, contém o mesmo ritmo de Ragatanga, e esse exemplo, mostra exatamente como o sentido que Daniel dá a letra que ele conhece, dá espaço para produções inusitadas.

Pra finalizar…

Além desses exemplos, existem muitos outros que mostram como nosso cérebro é capaz de criar suposições de palavras quando não entendemos e substituí-las por outra parecida. Podemos observar que muitas vezes essas trocas e substituições são feitas da mesma forma, ou de formas muito diferentes entre as pessoas, é comum encontrarmos substituições de um mesmo trecho, mas com diversos sentidos entre as pessoas. A ambiguidade encontrada nessas situações e a maneira como reagimos a elas, nos mostram um pouco da modulação da nossa percepção linguística, e a insistência em buscar um sentido a partir das interpretações auditivas.

SAIBA MAIS:

A verdadeira história da música Ragatanga – Asereje da Rouge. Produção: Dragoso Vlogs.

CONNOR, Steven. Earslips: Of Mishearings and Mondegreens. Listening In, Feeding Back , Columbia University, 14 fev. 2009.

MINAI, Utako, et al. Fetal rhythm-based language discrimination: a biomagnetometry study, 2017

HUOTILAINEN M, NÄÄTÄNEN R. Percepção auditiva e desenvolvimento inicial do cérebro. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância [on-line].

PINKER, Steven. The Language Instinct: How the Mind Creates Language. 1994.

Correio 24 Horas. Veja 40 músicas que você provavelmente canta errado e não sabe.

Sobre Thiago Oliveira da Motta Sampaio 10 Artigos
Professor de Psicolinguística e Processos Cognitivos na UNICAMP; Divulgador da Ciência, Scicaster e "Spiner" (Spin de Notícias) no Portal Deviante (www.deviante.com.br); e Embaixador da Olimpíada Brasileira de Linguística (www.obling.org).

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