A nova geração de chuveiros elétricos é mais econômica?


Trazemos a seguir uma reflexão elaborada pelo pesquisador da International Energy Initiative - IEI Brasil, Rodolfo Dourado Maia Gomes. O professor Gilberto Jannuzzi, docente responsável por este blog, é diretor executivo da ONG internacional IEI Brasil, instituição que se dedica a pesquisas na área de energias renováveis e eficiência energética buscando contribuir com o desenvolvimento sustentável.

A instituição trabalhou com programas de eficiência energética em comunidades de baixa renda na cidade do Rio de Janeiro e em outros municípios do estado. Esses programas têm levado equipamentos mais modernos e eficientes às casas dos moradores. Um dos objetivos desta pesquisa é realizar avaliações sobre os impactos desses programas no consumo das residências, como podemos observar na análise sobre a substituição de chuveiros e o comportamento dos consumidores:

 

Quem já foi comprar um chuveiro elétrico deve ter se deparado com novos tipos de aparelhos sendo vendidos como “chuveiro mais econômico” ou “chuveiro eficiente”. Mas surge a dúvida: econômico na conta de eletricidade ou eficiente no consumo de energia? “Mas existe diferença entre essas duas características?”, alguém pode perguntar. Existe! E ela pode ser fundamental na hora de você tomar uma decisão, seja durante a utilização dos aparelhos, seja quando for adquirir um novo produto.

É o que gostaríamos de mostrar neste post: a diferença entre o uso racional da energia e a eficiência energética do equipamento. Ilustraremos isso compartilhando alguns resultados de medições de campo feitas em chuveiros elétricos residenciais. Vamos começar?

O chuveiro elétrico é um velho conhecido do brasileiro. Visto como um vilão devido ao elevado consumo de eletricidade, que todo mês dá aquele peso na conta de energia elétrica, ele continua sendo o “malvado predileto” dos nossos lares. Ao longo do tempo ele veio mudando o seu “look” para acompanhar os ares mais modernos, mas sem abrir mão da tradição das famosas três opções de posições (temperatura): “verão”, “inverno” e desligado.

No entanto, há alguns anos, essa histórica tradição foi flexibilizada (ainda bem!), quando os chuveiros com quatro, oito e até “incontáveis” posições conquistaram espaço no mercado. O maior número de posições oferece ao banhista um cardápio mais extenso de temperaturas de banho para escolher, sem a limitação de apenas duas. E os consumidores fazem uso disso muito bem, como podemos observar nas duas figuras abaixo, que apresentam resultados de medições realizadas em 23 chuveiros. Nas imagens, é possível observar um maior “espalhamento” das potências (temperaturas) para os chuveiros que passaram a contar com mais posições (Figura 2) em comparação com as tradicionais (Figura 1).

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Figura 1: Distribuição do número de banhos e do tempo de banho por intervalo de potência do chuveiro elétrico tradicional do cliente (para ver a imagem ampliada, clique com o botão direito do mouse e clique em abrir em nova aba)

 

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Figura 2: Distribuição do número de banhos e do tempo de banho por intervalo de potência do chuveiro elétrico tradicional do cliente com a incorporação do controlador de temperatura (para ver a imagem ampliada, clique com o botão direito do mouse e clique em abrir em nova aba)
Novos aparelhos permitem maior controle por parte do usuário

O oferecimento desse maior número de posições evita que o consumidor tome aqueles banhos mais quentes (maior consumo de energia) ou menos quentes (menor conforto) do que gostaria no “oito ou oitenta” das tradicionais posições de inverno e verão. Não é preciso, também, controlar a vazão para um banho quente debaixo de um “filete” d’água (com menor conforto) ou um banho frio numa “cascata” (maior consumo de água e energia). O usuário pode, enfim, escolher melhor a temperatura mais confortável para seu banho.

Esses novos tipos de chuveiros elétricos fazem parte do rol de tecnologias “mais eficientes” dos programas compulsórios de eficiência energética de diversas distribuidoras de eletricidade no país[1]. Milhares deles vêm sendo instalados nas residências no lugar dos chuveiros tradicionais de três temperaturas, com o objetivo de reduzir o consumo de energia e a demanda por potência no horário de pico. Mas, fica a pergunta: eles são mesmo mais eficientes?

Vejamos o caso dos 23 chuveiros apresentados nas figuras acima, cujas famílias medidas participaram de um desses programas de eficiência energética, para o qual a medição e a verificação de seus resultados ficaram a cargo da IEI Brasil sob a coordenação do Prof. Gilberto De Martino Jannuzzi (FEM/Unicamp).

Os banhos quentes dessas famílias, nos chuveiros tradicionais, foram medidos durante sete dias corridos e seus consumos, potências, datas e horários foram registrados automaticamente na memória dos próprios medidores. Os banhos continuaram a ser medidos também durante sete dias após seus chuveiros tradicionais serem acoplados a aparelhos, os chamados “controladores de temperatura” (Figuras 3 e 4), que os transformaram em multiposições além das tradicionais inverno e verão.

Figura 3: Um dos modelos de controlador de temperatura utilizado no programa de eficiência energética
Figura 3: Um dos modelos de controlador de temperatura utilizado no programa de eficiência energética

Figura 4: Um dos modelos de controlador de temperatura utilizado no programa de eficiência energética
Figura 4: Um dos modelos de controlador de temperatura utilizado no programa de eficiência energética

Os resultados dessas medições mostraram que houve uma economia de eletricidade de 6,4%, devido ao melhor ajuste de temperatura proporcionado ao usuário. Em outra localidade, na qual 41 famílias também participaram do mesmo programa e receberam os mesmos controladores de temperatura, também houve redução no consumo de energia (19,9%). Mas podemos esperar que isso aconteça sempre?

A resposta é: não. Quando se trata de consumo de energia nos equipamentos de uso final (chuveiro elétrico, geladeira, lâmpada, ar-condicionado, televisão e outros), a economia que vai ocorrer depende muito dos próprios equipamentos, dos hábitos de consumo das pessoas e das localidades em que elas estão, por exemplo.

A economia gerada também depende dos hábitos de consumo

Prova disso é que, na mesma análise, foi identificado um caso de 12 famílias de uma das localidades pesquisadas, que optaram pelo uso do controlador da Figura 3, em que foi registrado um ligeiro aumento de 1,4% no consumo. Por isso, note o importante papel que os hábitos das pessoas exercem no consumo de eletricidade, mesmo quando há o uso de um equipamento que oferece opções mais racionais no uso da energia.

No resumo geral de todas medições realizadas em 64 clientes, houve uma redução média no consumo de eletricidade de 17,2%.

Podemos agora voltar à pergunta do título: essa geração de chuveiros com mais posições de temperatura é mais econômica? Os resultados ilustram que esse aumento do “cardápio” das temperaturas faz com que o chuveiro multiposições seja mais racional no uso da eletricidade, trazendo economia na conta do cliente e, portanto, são econômicos.

Assim, você passa a entender que, ao adquirir ou utilizar esse tipo de chuveiro, está oferecendo um uso mais racional ao seu banho, do ponto de vista energético. Mas racionalidade não significa necessariamente eficiência energética: esses chuveiros continuam utilizando a mesma quantidade de eletricidade para elevar a temperatura da água de banho até àquela desejada pelo cliente e não menos quantidade de energia. Se ele utilizasse menos eletricidade para atingir a mesma temperatura desejada, isso sim faria com que ele, de fato, fosse caracterizado como um chuveiro mais eficiente.

Então, quando for escolher um chuveiro elétrico, você poderá fazer uma escolha mais consciente por saber que há esses dois aspectos a serem observados para as diversas tecnologias oferecidas no mercado: equipamentos que promovem o uso mais racional da energia e equipamentos mais eficientes energeticamente (ou ambos num só).

Apresentaremos num próximo post uma outra tecnologia de chuveiro elétrico, dessa vez mais eficiente energeticamente: usa menos eletricidade para fornecer a mesma temperatura desejada pelo cliente. E não é usando energia solar, gás ou outra fonte de energia.

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[1] Esses programas, regulados pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), existem desde 1998 dado o processo de privatização das empresas do setor elétrico que passaram a ser obrigadas a investir 1% de suas receitas em programas de eficiência energética e pesquisa e desenvolvimento. Esses valores estão provisionados nas tarifas de eletricidade, ou seja, são recursos coletados dos consumidores. De acordo com a própria ANEEL, foram investidos mais de R$ 6,3 bilhões em projetos de eficiência energética de 1998 a setembro de 2015. A título de comparação, o Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica) investiu nos últimos 30 anos um total de R$ 2,7 bilhões. (informações apresentadas no 1° Workshop “O Papel da Eficiência Energética na Economia de Baixo Carbono do Brasil: Desafios para os Compromissos da iNDC”)

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Sobre rodolfo

Formado em engenharia mecânica e com mestrado em Planejamento de Sistemas Energéticos, atua como pesquisador no International Energy Initiative - IEI Brasil. As áreas de interesse são em política energética, científica e tecnológica para eficiência energética e fontes renováveis de energia e também nos estudos sociais da ciência e tecnologia.

3 pensou em “A nova geração de chuveiros elétricos é mais econômica?

  1. Olá ! Meu banheiro foi projetado para uso de cardal para aquecimento da agua do chuveiro e torneiras. Gostaria de saber qual sistema é mais econômico: cardal ou chuveiro elétrico tradicional?

    1. Oi, Elizabeth! Segue a resposta do nosso pesquisador Rodolfo Dourado Maia Gomes:

      “Olá, Elizabeth. A Cardal é uma fabricante de aquecedores de água, como chuveiro elétrico, aquecedor central ou individual. Poderia ser mais específica sobre o equipamento? De toda forma, seja qual for a tecnologia de aquecimento empregada que usa resistência elétrica pra aquecer a água, se ela não tiver muitas posições para escolha da temperatura da água e/ou um sistema que recupere parte da temperatura da água que sai pelo ralo, ele não será econômico frente aos chuveiros tradicionais de 3 ou 4 posições. Um outro ponto importante é que se o seu sistema for central, com um reservatório de água quente (onde a água é aquecida aí dentro e depois distribuída às torneiras – pia ou chuveiro), pode ser menos econômico que os chuveiros tradicionais. Por que “pode ser”? Porque dependerá da quantidade de água desse reservatório e do quanto sua família usa por dia. Por exemplo, se for um reservatório de 500 litros, todos esses 500 litros serão aquecidos pela resistência elétrica que existe dentro desse reservatório até a temperatura de banho que vocês escolheram quando o instalador foi na sua casa. Aí todos da sua família usam, por exemplo, 300 litros de água quente. Os 200 litros aquecidos por eletricidade que sobraram ficam ali armazenados e vão se esfriando até o próximo dia (perdendo calor pro ambiente, porque não existe reservatório térmico com isolante térmico que “segure” todo o calor da água, ela vai esfriar porque a temperatura do lado de fora do reservatório é mais baixa que a de dentro). Em outras palavras, é dinheiro jogado fora. Por fim, se seu banheiro foi projetado pra receber água quente vinda de outro lugar (com tubos de cobre) que não do próprio chuveiro elétrico tradicional, talvez seja interessante pensar em coletores solares (de aquecimento d’água, não as fotovoltaicas). Se bem dimensionados, eles substituem uma grande parcela da eletricidade usada para aquecer sua água do banho ou da pia pelo “calor” que vem do sol gratuitamente. Outra opção é usar chuveiros ou aquecedores a gás natural para aquecer a água (pra isso precisa saber se há fornecimento de gás natural na sua rua, normalmente encanado, ou no prédio em grandes “botijões”). Veja que há muitas opções, precisa colocar na ponta do lápis. Cada fabricante ou fornecedor vai querer “puxar a sardinha” pro seu lado. Por isso (não sei qual a composição de sua paciência, tempo, interesse e recurso disponível) valeria a pena conversar com vários representantes e fabricantes pra você ir conhecendo melhor e tomar uma decisão mais segura da melhor opção”

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