Dr. Unger: ciência marota e 36.500 estralar de dedos para testar uma clássica teoria materna. (Foto de Karen Quincy Loberg)

Uma das características básicas da pesquisa científica é que experiências pessoais não são vistas como confiáveis. No entanto, há uma curiosa exceção que envolve artrite, estalar de dedos e uma vontade imensa de contrariar a mãe. Tudo começa com a mãe do médico californiano Donald L. Unger.

Como quase todas as mães, ela vivia dizendo que se o menino continuasse estralando os dedos constantemente, acabaria com artrite. Apaixonado por ciência desde cedo, Unger resolveu testar a sabedoria materna da forma mais cientificamente rigorosa que pôde. Como não podia ter um laboratório nem dois grupos para observar, usou as próprias mãos.

Durante 50 anos, o menino que se tornou médico alergista estralou os dedos da mão esquerda pelo menos duas vezes ao dia, totalizando mais de 36.500 estraladas. A mão direita foi mantida intocada, como controle. Quando o tempo do experimento se esgotou, Dr. Unger escreveu aos editores da Arthritis & Rheumatism para reportar um “estudo controlado, com um único participante.” A conclusão: depois de meio século, ele não encontrou artrite em nenhuma das mãos, nem qualquer outra diferença significativa entre elas. “Esse resultado”, escreveu o médico, “levanta a questão sobre se outras crenças parentais, e.g., a importância de comer espinafre, também são equivocadas.”

A experiência era excepcionalmente interessante, mas passaria pelo crivo científico da revisão pelos pares? O editores da Arthritis & Rheumatism pediram uma revisão de Robert L. Sweazey, que já havia publicado uma investigação pioneira sobre o assunto no Western Journal of Medicine. Sweazey disse que seu próprio estudo havia sido inspirado quando a avó do seu filho de 12 anos havia alertado o menino de que estalar os dedos lhe causaria artrite. Segundo Sweazey, “já se passaram agora 22 anos e ele continua a praticar frequente ED [Estalar de Dedos] sem qualquer manifestação de artrite.”

Depois de desbancar os conselhos maternos, Sweazey passou a pensar que, ao contrário do que creem as mães, estalar dos dedos pode até prevenir a osteoartrite. “A possível utilização de ED por provedores de auxílio à saúde como um tratamento preventivo doméstico, econômico e não-invasivo deveria merecer maior consideração.”, concluiu o revisor do inusitado estudo.

Embora tenha sido o segundo experimento sobre o tema, a experiência pessoal do Dr. Unger com as próprias mãos acabou sendo reconhecida e publicada: Does knuckle cracking lead to arthritis of the fingers? Unger DL. Arthritis Rheum. 1998 May;41(5):949-50. Dez anos depois da publicação de seu estudo, o esforço diligentemente científico não foi esquecido: ele foi o vencedor do Prêmio IgNobel de Medicina em 2009.


0 comentário

Juliana Morbec · 4 de abril de 2012 às 22:07

Legal o post. Parabéns!

Elis · 5 de abril de 2012 às 0:03

Já ia dizer: Merece o premio do IgNobel! ahahahah

“Revista de Megapodologia” | hypercubic · 24 de fevereiro de 2013 às 22:01

[…] da lição de que não se faz ciência com as próprias mãos (a não ser literalmente), o caso Ketchum também ensina como não fazer uma fraude do tipo. Se for pra fraudar, fraudem […]

Ciência com o próprio fígado | hypercubic · 10 de março de 2014 às 12:01

[…] de um único voluntário na História da Ciência. Nem experimentos em que a linha entre pesquisador e pesquisado é bem tênue. Também não são poucos os créditos mal-atribuídos pela participação em uma […]

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