in musicologia

A Ciência da Música Pop

José Fornari (Tuti) – 15 de maio de 2019

fornari @ unicamp . br


É comum escutarmos uma música que literalmente “gruda” em nossa mente, independente de gostarmos ou não daquele estilo ou gênero musical. Nos surpreendemos ao perceber que esta música continua revisitando a janela de nossa consciência e competindo por nossa atenção com outros pensamentos circunstanciais. Esse tipo de música é conhecido pela palavra alemã “ohrwurm” cujo significado é “verme de ouvido” (em Inglês, “earworm”). Este fenômeno é estudado pela musicologia sistemática sob o nome de INMI (INvoluntary Musical Imagery), ou seja, músicas que fazem ouvintes pensarem nelas (as escutarem-na em seus pensamentos) involuntariamente. Existe uma tendência estatisticamente relevante de que músicas pop (músicas comerciais) que se tornam “hits” (músicas de grande popularidade, campeãs de vendas) sejam INMI.

Diz a lenda que a música pop intitulada “Fácil”, do grupo musical nacional “Jota Quest”, foi feita a partir de uma sugestão da mãe do vocalista (Rogério Flausino) aconselhando os membros dessa banda a comporem músicas pop fáceis para que isso aumentasse suas chances de criarem hits. O refrão da música descreve este conselho, ao dizer que a música deve ser “Fácil, extremamente fácil. Pra você, e eu e todo mundo cantar junto”. A mãe do vocalista intuiu assertivamente o que estudos em INMI vem constatando. Melodias INMIs tendem a apresentar mais notas longas e com menor variação de intervalo do que as não-INMI, o que faz com que estas sejam mais fáceis de serem assimiladas pela maioria dos ouvintes e desse modo por estes cantadas. Estudos apontam que cerca de 74% das INMIs são canções, ou seja, músicas com letras.

A música pop pode ser definida como “música comercial”. Ela é feita com a intenção de se tornar em produto para ser comercializado e consumido por uma grande quantidade de pessoas. Assim, música pop não é um gênero musical em si mas um processo de estratificação de diversos gêneros musicais populares no sentido de maximizar seus aspectos mais sedutores às audiências num produto de sucesso comercial. Isto é feito pela chamada “indústria de cultura” (culture industry), termo definido por Theodor Adorno que tenta descrever os processos comerciais de propaganda, mercantilização e massificação de bens culturais (ex: teatro, filme, dança, poesia, música) no sentido destes serem utilizados não apenas como produto de consumo mas também como eventuais mecanismos de controle da população através de um processo quase subliminar de alienação e persuasão que convida o ouvinte a adotar um determinado padrão de comportamento. Steven Brown, autor do livro “Music and Manipulation: On the Social Uses and Social Control of Music”, 2006, define música como uma prostituta, uma vez que esta vem sendo usada ao longo da história como uma forma de controle para o comportamento social, promovendo tanto solidariedade quanto competição, agindo como manipulador emocional das massas, frequentemente empregada em situações moralmente questionáveis (como em cativeiros e campos de concentração), divorciando assim a sua estética da sua ética. De uma forma mais branda, outros autores, tais como Robert Bostrom, definem a música como uma forma de persuasão, onde uma peça musical é composta com o objetivo de convencer o ouvinte de alguma opinião, influenciar nele um certo estado emocional ou incutir um padrão comportamental. A música pop advém assim da maximização deste processo, onde a produção musical dos diversos gêneros que a compõe é utilizada como uma forma “commodity cultural” para a manufatura de um produto comercial eficiente.

Como qualquer outro produto comercial, a música pop tem sido cada vez mais produzida dentro de critérios industriais estritos, que garantam a sua maior eficiência e portanto homogeneidade, em detrimento de variações devidas a diferentes processos criativos. Assim, como acontece com outros produtos, a música pop vem se tornando cada vez mais cognitivamente acessível e esteticamente autocorrelata. Em outras palavras, a música pop tem se tornado mais simples e previsível. Segundo uma matéria da revista Forbes, em 2017, o consumo de música pop tem crescido. Os estadunidenses estão atualmente escutando mais música do que antes; cerca de 32 horas por semana (em 2017) e só neste mesmo ano, pagaram por 184 bilhões de streamings de músicas, em sites como Spotifye Apple Music (o que representou um aumento de 62% em relação ao ano anterior, de 2016). Um dos muitos exemplos da simplificação da música pop pode ser observada no fenômeno conhecido como “4 acordes” (4 chords). Uma quantidade impressionante de músicas pop é feita baseada na mesma sequência de 4 acordes: tônica (I), dominante (V), sexta menor (VIm) e subdominante (IV). Por exemplo, na tonalidade de C, esta sequência de acordes é: C, G, Am, F. O arquivo de áudio abaixo mostra 4 variações possíveis dessa sequência de 4 acordes. Note que esta sequência nos soa familiar e muitas vezes inclusive nos faz lembrar de músicas pop que conhecemos.

O video abaixo mostra, de modo cômico, um potporri de algumas dessas conhecidas canções.

Em 2017, a BBC lançou um documentário chamado, “The Secret Science of Pop” onde conta, na forma de documentário, a pesquisa em música realizada por um biólogo evolutivo; Armand Leroi. Narrada pelo próprio pesquisador, este documentário apresenta as bases acústicas para a criação de um algoritmo que tem como propósito a extração das características sonoras de músicas pop que foram grandes hits. Desse modo, este algoritmo tem por objetivo catalogar quais são as características sonoras de um hit. Com isso, Leroi propõe a criação de um modelo computacional de inteligência artificial (machine learning) que seja capaz de indicar qual é o potencial de uma canção se tornar um hit (onde ele conclui que há maior incidência de hits nas músicas mais próximas da média em todos os critérios acústicos estudados). Por fim, o documentário mostra um experimento realizado por Leroi em companhia com o produtor musical Trevor Horn, no sentido de produzir uma canção de uma cantora desconhecida no sentido de tentar tornar esta música pop anônima num hit.

Mesmo sem a utilização de sofisticados algoritmos, é certo que a indústria fonográfica apesar de não ter certeza de qual música será de fato um hit, vem trabalhando no sentido de estabelecer critérios que possam aumentar sua chance de ocorrência bem como de criar estratégias de acertos no artista e na sua música, seja o gênero musical que esta descenda, a fim de potencializar o seu impacto comercial na forma de música pop.

 

Referências:

[1] Jakubowski, Kelly; Finkel, Sebastian; Stewart, Lauren; Müllensiefen, Daniel (2017). “Dissecting an earworm: Melodic features and song popularity predict involuntary musical imagery” (PDF). Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts. American Psychological Association (APA). 11 (2): 122–135. doi:10.1037/aca0000090. ISSN 1931-390X.

[2] Müllensiefen, D. (2009). FANTASTIC: Feature ANalysis Technology Ac- cessing STatistics (In a Corpus; Technical report). Retrieved from http:// www.doc.gold.ac.uk/isms/m4s/FANTASTIC_docs.pdf

[3] Hoffman, Carey (2001-04-04). “Songs That Cause The Brain To ‘Itch’: UC Professor Investigating Why Certain Tunes Get Stuck In Our Heads”. University of Cincinnati. Retrieved 2012-08-06.

[4] Robert N. Bostrom, Derek R. Lane, & Nancy G. Harrington. “Music as Persuasion: Creative Mechanisms for Enacting Academe”. ACJ Journal. Volume 6, Issue 1, Fall 2002. http://ac-journal.org/journal/vol6/iss1/special/bostrom.htm

[5] Reinhard Kopiez, Friedrich Platz, Anna Wolf. “The overrated power of background music in television news magazines: A replication of Brosius’ 1990 study”. Musicae Scientiae. Volume: 17 issue: 3, page(s): 309-331. 2013. https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1029864913489703

[6] https://www.forbes.com/sites/hughmcintyre/2017/11/09/americans-are-spending-more-time-listening-to-music-than-ever-before/#65735cd2f7f8

[7] The Secret Science of Pop

https://www.bbc.co.uk/rd/blog/2017-02-secret-science-of-pop

BBC – The Secret Science of Pop (2017)

[8] I analyzed the chords of 1300 popular songs for patterns. This is what I found. http://www.hooktheory.com/blog/i-analyzed-the-chords-of-1300-popular-songs-for-patterns-this-is-what-i-found/

 


Como citar este artigo: 

José Fornari. “A Ciência da Música Pop”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 15 de maio de 2019. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2019/05/15/20/

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