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Música e Amor

ESPECIAL

José Fornari (Tuti) – 12 de junho de 2019

fornari @ unicamp . br


Hoje, dia dos namorados no Brasil, resolvi escrever algo diferente. Algo sobre a música e a sua interação com o amor. Este tema com certeza daria pra escrever diversos livros, mas aqui como sempre tratarei rapidamente, como é de se esperar de um blog, dando rápidas pinceladas sobre algumas interessantes nuances dessa intersecção, tão bem sentida e no entanto tão pouco compreendida.

A meu ver, um excelente exemplo dessa interação encontra-se na famosa abertura do prelúdio da ópera Tristan und Isolde (Tristão e Isolda), de Richard Wagner. Nesta obra é apresentada uma progressão de 2 acordes que é considerada por diversos teóricos musicais como aquela que representa o momento na história da música européia onde esta transcende a tonalidade. A famosa sequência é mostrada abaixo:

Esta progressão de dois acordes foi estudada por diversos teóricos, desde Carl Mayrberger a Jean-Jacques Nattiez. Apesar de utilizada em obras anteriores, como a Sonata de Dó menor Op. 4, de 1828, composta por Chopin, sua apresentação, na abertura desta ópera, em 1865, imediatamente chamou a atenção pela sua ambiguidade harmônica. O primeiro acorde é conhecido como Tristan chord (acorde de Tristão). No entanto, é a progressão deste acorde para a sua resolução ambígua que de fato traz um novo contexto harmônico que transcende o tonalismo. Ao invés desta progressão representar uma resolução, um relaxamento tonal, normalmente esperado após uma tensão (no caso, o trítono, nas notas mais graves do acorde de Tristão), este progride para outro acorde também com tensão (que também possui trítono, entre a segunda e a terceira nota do segundo acorde), como se este representasse a permutação de um conflito, como algo que a princípio inquieta e que parece tentar se resolver mas que na verdade apenas transmuta de natureza, para outros contexto tanto quanto ou ainda mais inquietante. Esta progressão cabe como uma luva para a estória de amor de Tristão e Isolda.

Apesar do libreto da ópera ter sido escrito pelo próprio Wagner, a estória de Tristão e Isolda é mitológica e remonta os séculos. Os primeiros registros desta estória despontam no período medieval europeu, mais precisamente no século 12 D.C. Esta conta, com pequenas variações entre fontes, a estória de Tristão, um cavaleiro, que é incumbido pelo seu tio, rei Marcos, de ir até a Irlanda numa embarcação para trazer Isolda, com quem o seu tio pretende se casar. Isolda é conhecedora de feitiços, poções e curas. Na viagem, sem querer, Tristão e Isolda tomam uma poção mágica (a poção do amor) que havia sido preparada para que Isolda a tomasse junto com o rei Marcos, a fim de que estes se apaixonassem para toda a vida, já que estavam combinados de se casar. O efeito da poção do amor é irreversível. Com este acidente, Tristão e Isolda ficam perdidamente apaixonados. Ao chegarem no reino, Isolda se casa com o rei, porém continua apaixonada por Tritão. Tristão ama o seu tio como a um pai e tenta a todo custo resistir ao amor que sente por Isolda, mas acaba por não conseguir se conter. Tristão e Isolda se engajam num intenso caso amoroso às escondidas mas que num dado momento acaba sendo descoberto. Tristão é banido por seu tio do reino e no seu exílio termina por se casar com outra mulher também chamada Isolda (a Isolda das mãos brancas). Após muito tempo, Tritão é mortalmente ferido por uma lança e, percebendo que está para morrer, pede à sua esposa que chame a antiga Isolda, conhecedora de curas miraculosas, para saber se ela pode tentar curá-lo. Ao ouvir tal pedido, Isolda põe-se a caminho, porém a outra Isolda (das mãos brancas), esposa de Tristão, por ciúmes o engana e diz que a outra Isolda não virá. Desolado, Tristão morre. Ao chegar no local onde Tristão está, Isolda o encontra já morto. Com isso, Isolda também acaba morrendo, de amor.

Esta estória traz em si os 3 tipos de amor que a filosofia da Grécia antiga já havia catalogado: Ágape, Philia e Eros. No caso do amor recíproco que Tristão sentia pelo seu tio, o rei Marcos, temos um bom exemplo de amor mais puro, incondicional, confiante e benéfico, que é o amor ágape. Este é considerado o mais perfeito tipo de amor, onde o que ama não tenta tolher a liberdade da pessoa amada mas apenas quer o seu melhor; algo que se aproxima do amor que alguns pais conseguem ter por seus filhos. O caso do amor que Tristão sente por Isolda é um exemplo típico de amor eros. Este é comparado à uma fogueira que queima, consome e, ao ser consumado, muitas vezes se acaba. Por causa deste amor erótico por Isolda, Tristão é consumido. Ele é banido, perde o amor ágape do seu tio (como que numa analogia da passagem bíblica onde o criador expulsa Adão e Eva de seu paraíso). Por fim, o amor que Tristão sente pela mulher com quem ele se casa, a Isolda das mãos brancas, é um exemplo de amor philia. Este ocorre nas amizades em geral, onde ainda que exista um certo grau de possessividade e até ciúmes, nem de perto se comprara ao que se tem no amor eros. Na minha opinião, a progressão do prelúdio de Tristão e Isolda descreve a transmutação desses tipos de amor, onde os 2 acordes como que representam a passagem de eros a philia e o contexto harmônico, que dá sentido perceptual a todo o contexto da progressão, representa o ágape.

Das estórias modernas que se tornam mitológicas, temos como bom exemplo o filme original Star Wars, lançado em 1977. Este também traz representado em sua trama os 3 tipos de amor. Inicialmente fadado ao desastre, tanto na opinião do seu criador, George Lucas, quanto do diretor Steven Spielberg, este filme ganhou outra roupagem após uma total re-edição e principalmente após a inclusão de uma trilha sonora orquestral brilhantemente, composta por John Williams. Na trilha sonora de Star Wars, que se tornou um dos maiores best sellers de todos os tempos, temos excertos musicais compostos por Williams com a intenção de representar as 3 formas de amor acima descritas. No próximo artigo, que corresponde à segunda parte desta discussão, falarei brevemente sobre esta trilha sonora, onde irei contrastá-la com estudos sobre a capacidade que a música tem de nos provocar reações emotivas e sensoriais, como é o caso do frisson (o arrepio cutâneo ocasionado devido a uma intensa emoção), fator este fundamental para que uma trilha sonora cumpra a sua principal função; a de potencializar o impacto emotivo de uma obra cinematográfica.

Fonte: https://i.redd.it/snut9r9qnlzz.jpg


Como citar este artigo:

José Fornari. “Música e Amor”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 12 de junho de 2019. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2019/06/12/23/

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