in musicologia

Complicação, complexidade e criatividade musical

Parte 1

José Fornari (Tuti) – 27 de novembro de 2019

fornari @ unicamp . br


Na semana passada assisti um filme britânico, lançado recentemente. O nome do filme é Yesterday e se refere à famosa canção dos Beatles. Este misto de fantasia e comédia romântica (conto a seguir apenas a sinopse oficial, portanto sem correr risco de spoilers) conta a estória de um músico anônimo, desses que tocam em praças, feiras e estações (em Inglês, esse tipo de artista de rua é chamado de “starving musician”, ou “músico faminto”). Após um inexplicável e breve apagão mundial, este passa a ser o único músico no mundo que lembra dos Beatles e de suas canções. Após perceber isso, ele passa a tocar o repertório dos Beatles como se fossem suas próprias canções, o que lhe confere súbito e estrondoso sucesso midiático. Esta ficção se baseia na conjectura de que existe um valor hedônico absoluto e intrínseco, atrelado à uma obra artística (no caso, às canções dos Beatles), que pode ser detectado e apreciado pela maioria dos ouvintes, independente de sua familiaridade com a música e o seu contexto sociocultural.

Lembrei de um tipo de brincadeira (que foi para mim, também um interessante experimento social relacionado à música) promovida por volta de 2015, pela equipe do programa Tonight Show apresentado pelo comediante estadunidense Jimmy Fallon. Eles colocaram o U2, a famosa banda irlandesa de Rock, para tocar anonimamente (todos disfarçados) numa estação de metrô em Nova York. As pessoas passavam por eles, que tocavam as famosas músicas do U2, e não se importavam tanto assim com a música, que aquele grupo anônimo tocava surpreendentemente tão bem. Somente quando eles removeram os disfarces foi que o público se alvoroçou e passou a se entusiasmar com o espetáculo.

Este experimento contraria a premissa da ficção britânica acima citada (apesar de que eu gostei do filme e o recomendo, especialmente aos músicos). O experimento com o U2 tocando disfarçado corrobora minha conjectura de que, apesar do valor estético intrínseco de uma canção, em termos de sua boa forma e estrutura, tanto musical quanto poética, seu aspecto sociocultural é também um fator determinante para que ocorra a aceitação devocional de uma canção ou músico, pelas grandes massas. Porém, não basta fama para criar mais fama. Se assim fosse, a industria cultural fonográfica não teria maiores dificuldades em gerar sucessos.

No K-pop, por exemplo, o famoso gênero de música pop coreano, adolescentes com grande potencial para se tornarem celebridades deste gênero são selecionados por empresários (que, em teoria sabem as qualidades que estes indivíduos devem possuir) e são literalmente criados em cativeiros de luxo, com o propósito de se tornarem grandes sucessos. No entanto, nem sempre isto ocorre. Mesmo tendo sido escolhidas por profissionais da área, e diariamente treinados em diversas áreas de relevância (canto, dança, música, moda, esportes, etiqueta, etc.), existe uma chance significativa de que, apesar de todo o esforço de ambos os lados, o investimento seja em vão (há inclusive muitos casos de candidatos e até de celebridades do K-pop, que cometem suicídio, por não aguentarem a intensa pressão a qual são submetidos). Por alguma razão inexplicável, aquele indivíduo, com todos os potenciais inatos e devidos treinamentos (ou seja, com todo o nurtureque se pode ter e aparentemente também com o nature) pode simplesmente não despertar a atenção esperada do público-alvo e assim não se torne uma celebridade desta música pop. Por “nurture” (nutrir) quero me referir a todo o aparato de apoio que técnica e recursos podem oferecer. Por “nature” (natureza) me refiro ao potencial intrínseco e inato de sucesso, que está lá dentro daquele indivíduo, como que escondido. O “aparente” colocado na frente do nature, como escrevi acima, foi intencional. A prática mostra que, apesar de toda extensa experiência e corpo de profissionais, ninguém sabe ao certo quando um indivíduo possui esta essência em seu âmago, este carisma, este “nature” que garantirá seu sucesso. O “nurture” apenas irá surtir efeito se o inefável e indefinível nature estiver presente Tanto artista quanto obra de sucesso tem que ter em si o potencial que é dado pelo nature e que pode ser decomposto no que eu chamo aqui de “criatividade musical”.

Ao que me parece, existem 3 estágios da criatividade musical. Estes estão relacionados aos modos de interação com a arte musical, que são: 1) apreciação, 2) performance e 3) composição. A grande maioria das pessoas interage com a música apenas no primeiro estágio; a apreciação, através do ato de escutar música. Neste estágio apreciamos a música como quem aprecia uma estória que nos é contada, participando ativamente da narrativa de modo pessoal e subjetivo, através das identificações, expectativas, antecipações, constatações e surpresas que ocorrem automaticamente e inexoravelmente (a menos que não estejamos conscientes ou prestando atenção) enquanto apreciamos música. Através dessa interpretação autônoma da estrutura musical, fortemente atrelado ao tempo, o ouvinte estabelece o que chamo aqui de significado musical.

Exemplo de áudio contendo uma possível quebra de expectativa.

Num segundo estágio de aprofundamento, tem-se a performance, onde o indivíduo aprende a tocar um instrumento musical, ou a cantar (ou mesmo a assobiar) e assim este se torna um “músico”. Este interpreta um discurso de eventos sonoros organizados numa sequência ao longo do tempo. A pequena (quase que imperceptível) variação do momento de ocorrência de cada nota e a sua duração (bem como a variação de sua intensidade, se bem que esta, segundo artigo de Daniel Levitin, tem menor impacto expressivo) estão diretamente relacionadas ao aspecto criativo da performance, ou seja, a interpretação expressiva de uma peça musical. Na performance não basta tocar as notas certas nos momentos, durações e intensidades certos. É também fundamental interpreta-las através da inserção de pequenas variações (nuances) destas 3 variáveis, para assim poder acrescentar um significado expressivo, que é próprio de cada músico e chega a identificar o músico pelo público ouvinte, através do que se chama de seu “estilo musical”.

Beethoven : 32 Variations in C minor, WoO 80 (primeiros 8 compassos). Execução técnica, sem interpretação humana, como está originalmente escrita na partitura. 

Beethoven : 32 Variations in C minor, WoO 80 (primeiros 8 compassos). Execução com interpretação humana, conforme extraída de um arquivo MIDI, no link http://www.kunstderfuge.com/beethoven/variations.htm

Poucos são os que chegam ao terceiro estágio da criatividade musical, onde o indivíduo se aventura a criar as estruturas sonoras que compõem uma sequência de eventos que será depois interpretada pelos músicos e apreciada pelos ouvintes; a composição musical. Diferentemente da performance e da apreciação, a composição ocorre em tempo diferido, ou seja, a estrutura musical é criada pelo compositor em tempo e ordem distintos daquilo que esta será posteriormente executada e escutada. Isto habilita o compositor a ter uma perspectiva atemporal de sua obra, como um escritor, que pode escrever ou refazer o seu texto em velocidade e ordem diferentes do que este será posteriormente lido (como estou fazendo agora, enquanto escrevo este texto) ou mesmo no caso de um programador, que cria e depura um código que desenvolve, em ordem e velocidade diferente da que este será posteriormente executado pelo processador de um computador.

Penso assim que a criatividade musical ocorre de modo particular, em cada um dos estágios acima mencionados. No ouvinte, o processo criativo ocorre de modo involuntário, onde este é atrelado à sua bagagem sociocultural. Seu impacto é subjetivo e simultâneo, ou seja, ocorre apenas para si, ao ouvir com atenção (ou seja, escutar) e assim ser capaz de identificar o conteúdo emocional da obra e até mesmo ser por este afetado (os quais ocorrem independentemente). No músico, a criatividade ocorre de modo semi voluntário, onde este é fruto da sua prática musical baseada em repetições de gestos musicais, onde o músico vai desenvolvendo em si mesmo como que pequenos reflexos condicionados de modo a ser capaz de interpretar posteriormente, numa performance ao vivo ou sessão de gravação, as mesmas sequências musicais previamente programadas por ele, que são voluntariamente escolhidas mas executadas de modo automático e com a expressividade (dada pela modulação de variações quase imperceptíveis do momento, duração e intensidade de cada nota executada) que ele próprio considera correto, ou do modo que foi solicitado a realizar). Seu impacto é objetivo e semi simultâneo, ou seja, é programado durante o ensaio mas ocorre na performance tanto para si quanto para os outros que o escutam, seja durante sua performance ou a gravação de sua performance. No compositor, a criatividade ocorre de modo voluntário, onde este projeta a macroestrutura musical e normalmente deixa indicações do modo como quer que a microestrutura interpretativa, a cargo de ser executada durante a performance, seja desenvolvida. Seu impacto objetivo e diferido, ou seja, muitas vezes construída e revisitada em ordem e duração de tempo totalmente descorrelacionados daqueles que a composição musical após finalizada será interpretada pelos músicos e escutada pelos ouvintes. Estes constituem, pelo menos em parte, o que eu chamei acima de “nature” da criatividade musical, o âmago da complexa estrutura tripartite que, se adequadamente moduladas, permitem com que uma composição e/ou interpretação musical venha a se tornar um sucesso, para uma grande quantidade de ouvintes, e reverenciada por futuras gerações de ouvintes.

Irei para por aqui, pois este artigo já passou bastante do tamanho máximo adequado para um blog. No próximo artigo, continuarei esta interessante discussão sobre criatividade musical. Tratarei da influência da complexidade na criatividade musical, sob a ótica da estética experimental, conforme definida por Gustav T. Fechner. Falarei sobre a famosa curva psicofísica de Wundt e Berlyne que relaciona a novidade com a complexidade (não apenas em música mas para todas as formas de comunicação). Por fim, acrescentarei um novo conceito que acho importante e que me parece ter ainda passado desapercebido pelas discussões dessa área de estudos, que é o conceito de “complicação musical”. Terminarei fazendo um contraponto entre complicação e complexidade, e como a diferenciação entre ambos os conceitos parece, a meu ver, influenciar decisivamente a criatividade musical; do ouvinte, do interprete e do compositor, e assim influenciar o interesse ou a indiferença a uma obra musical por sua audiência.

 

Como citar este artigo:

José Fornari. “Complicação, complexidade e criatividade musical – parte 1”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 27 de novembro de 2019. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2019/11/27/36/

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