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Música e surdez: uma rápida introdução

ESPECIAL

José Fornari (Tuti) – 02 de dezembro de 2019

fornari @ unicamp . br


Neste domingo o pessoal da coordenação dos blogs de ciência da Unicamp me enviou este link de uma coluna da UOL da semana passada falando que um DJ fez, no último dia 30/11, o primeiro show de música eletrônica para surdos (ou seja, com tradução simultânea para a linguagem de sinais brasileiros, Libras).

Lembrei que em março deste ano fui convidado por alguns amigos músicos da Orquestra Rock a assistir um ensaio da banda Melim que se apresentou com a orquestra rock na Red, em Jaguariúna. Acabei ficando para a apresentação e me sentei num mezanino ao lado do palco, onde tinha visibilidade tanto do palco como de toda a plateia. De lá pude ver que existia uma grande quantidade de surdos assistindo aquele show. Num canto do palco ficavam 2 tradutores de Libras, que se revezavam para traduzir simultaneamente tanto o que os artistas diziam para o público como as letras das canções, enquanto eram cantadas pelos integrantes da banda. Fiquei particularmente interessado em observar os grupos de surdos, próximos do palco, que conversavam animadamente entre eles, em Libras, enquanto alguns deles olhavam languidamente para os artistas (obviamente eram fãs) e balançavam o corpo como que numa leve dança surpreendentemente dentro do andamento das canções que não escutavam, mas sentiam, e repetiam em gestos mais brandos e curtos os mesmos gestos que os tradutores de Libras estavam realizando, que eram referentes à letra da música que estava sendo cantadas pelos artistas. Ou seja, estes fãs surdos estavam cantando as canções que tanto gostavam, não em sons mas em gestos, do mesmo modo que fãs que ouvem balbuciam as letras das músicas que os seus ídolos cantam num show.

Alguns músicos da orquestra rock, depois me disseram que esta prática, de tradução simultânea de shows pra Libras, tem sido comum em diversos shows. A canção, que é sem dúvida a forma musical mais importante da música pop, é composta por música e letra, normalmente melodia com andamento e tonalidade regular, bem como poesia regular, em termos de métrica, rimas, prosódia e significação emotiva, todos sincronizados com os elementos sonoros que compõem a melodia da canção (e que assim acaba tomando emprestado o significado da sua letra). Traduzir a poesia da letra para Libras é uma tarefa relativamente fácil já que ambas formas de comunicação permitem conter significado semântico (definição de objetos, qualidades e ações). Já a música pura, sem letra, como é o caso de uma sinfonia ou de grande parte da produção de música eletrônica pop, não tem o respaldo da significação semântica dada pela letra. Sua significação musical extende-se da sintaxe (frases melódicas, acordes, cadências, andamento, estruturas rítmicas, arranjos timbrísticos, etc.) à significação emotiva (os estados emocionais que a prosódia sonora que compõe a música representa e tenta evocar no ouvinte). Neste caso, imagino que a tradução da música pura, sem letra, deva ser relacionada à qualidades perceptuais sonoras e cognitivas musicais.

Obs: Este video não tem áudio, mas tem legenda (em Inglês)

Todos os sentidos humanos (que são mais do que cinco, como se costuma catalogar, contendo outras sensações além da visão, audição, paladar, tato e olfato, como por exemplo, a sensação de calor, aceleração, dor e outros) são basicamente sensores biológicos (na maioria dos casos compostos por neurônios especializados para reagir à variação de um dado estímulo) e trazem informação ao cérebro, na forma de potenciais de ação que caminham por nervos aferentes (feixes de axônios neurais que transportam a informação das células sensoras ao cérebro). Alguns desses estímulos são interpretados pelo cérebro como visão, outros como audição ou tato mas todos tem a mesma natureza biológica, pois são todos compostos por pulsos elétricos que caminham por nervos e chegam ao mesmo destino; o cérebro. Assim, por exemplo, quando um indivíduo está num estado alterado de consciência, os diferentes sentidos podem se mesclar, o que é chamado de “sinestesia”; onde há relatos de indivíduos neste estado alterado de consciência “vendo sons” ou “escutando cores”. Também observa-se cotidianamente como naturalmente usamos, sem perceber, adjetivos de um sentido pra descrever qualidades de outra natureza; por exemplo, ao dizer que um som é brilhante ou opaco, uma voz é áspera ou aveludada, ou que uma pessoa é iluminada. Isto para mim é indicador de que os sentidos talvez possuam uma natureza fundamental em comum e que a sua catalogação distinta, em diferentes naturezas, ocorre em níveis processuais superiores, relacionados aos processos cognitivos da mente humana.

Então, penso ser possível, até certo ponto, traduzir para Libras informação musical pura, desprovida de letra. Muitos dos estímulos sonoros já são percebidos por outras vias neurais além da audição, como o tato que é composto por mecanoreceptores (neurônios localizados na pele, especializados em responder a estímulos mecânicos, como pressão, deslocamento e vibração). A audição é processada pelo mesmo princípio, onde tais sensores estão também dispostos numa região específica das 2 cócleas (localizadas nas 2 orelhas internas) onde o estímulo mecânico provocado pelas ondas acústicas que compõem o som são convertidos em estímulos elétricos dos potenciais de ação neurais que são interpretados pelo cérebro como som. Aprendemos a interpretar este estímulo específico como som. O mesmo ocorre com um surdo, através de um fenômeno conhecido como neuroplasticidade, onde o seu cérebro se adapta e passa a utilizar as áreas ociosas, que normalmente processariam informação sonora (como o córtex auditivo), para processar informação de outros estímulos (como o visual, ou tátil) que pode assim permitir a reinterpretação de um estímulo mecânico cutâneo (provocado pela variação de pressão acústica que compõem as ondas sonoras na atmosfera) em som e desse modo em música.

Tem muito, muito mais para se falar sobre estes assuntos que considero tão interessantes, mas deixarei para futuras postagens maiores aprofundamentos sobre o temas da audição, percepção, acessibilidade e neuroplasticidade, em sua relação com a música.

 

Como citar este artigo:

José Fornari. “Música e surdez: uma rápida introdução”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 2 de dezembro de 2019. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2019/12/02/37/

Pesquisador, carreira Pq-B do NICS / UNICAMP. Professor pleno da Coordenadoria de Pós-graduação do Instituto de Artes da UNICAMP. Pós-doc em Cognição Musical na Universidade Jyvaskyla, Finlândia. Visitante escolar no CCRMA / Stanford University. Doutorado e Mestrado na FEEC / UNICAMP. Formado em Música popular (piano) e Engenharia elétrica na UNICAMP.

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