in filosofia da música, musicologia

Musas, música e o mundo mental – parte 1

 

José Fornari – fornari@unicamp.br

24 setembro 2022

 

Uma das características fundamentais da espécie humana é a sua capacidade de filosofar, ou seja, de ter prazer em pensar. A mente humana é única em estabelecer e ponderar conceitos éticos e estéticos, científicos e artísticos, linguísticos e musicais. Apesar das outras espécies possuírem formas de comunicação sonora intrincadas e expressivas, que inferem uma forma de pensamento, estas nunca atingem o grau de requinte semântico da linguagem ou expressivo da música, o que as deixa definitivamente aquém da capacidade humana de filosofar. Segundo Steven Mithen, em seu livro The Singing Neanderthals (2007), uma das conclusões mais frustrantes de estudos realizados com outras espécies, mesmo as bem próxima de nós (como os gorilas e os chimpanzés) é o fato de que indivíduos dessas outras distintas espécies, treinados e devidamente capacitados a se comunicar semanticamente (por exemplo, através de linguagens de sinais ou por meio de tabuleiros com símbolos) demonstraram uma total ausência de questionamentos filosóficos. Indivíduos de outras espécies (e talvez muitos da nossa própria) podem até ser treinados em formas básicas de linguagem e assim ser capazes de se comunicar semanticamente, o que demonstra uma grande capacidade mental para diversas tarefas executadas por humanos (existem, por exemplo, até orangotangos capazes de dirigir veículos), porém estes nunca demonstram capacidade de ponderar sobre o desconhecido (por exemplo, sobre sua origem, futuro, ideal, etc.). Para estes, não há comunicação sem que haja uma necessidade biológica direta e fundamental para tal, como a necessidade de se defender, de se alimentar ou de se reproduzir. 

A meu ver, filosofia é a atividade humana anterior à própria ciência, que se dedica em definir as perguntas fundamentais (tanto objetivas quanto subjetivas) que podem vir a ser posteriormente estudadas pelas ciências exatas, humana e biológicas de modo a tentar entender como estas funcionam e quais são as suas implicações. Para isso, a ciência usa recursos da cultura predecessora, da lógica, da matemática e da tecnologia. Desse modo, a filosofia não tem a finalidade de responder as perguntas que formula, da mesma forma que as ciências não têm a obrigação ou sequer a capacidade de explicar a essência dos fenômenos que estuda. A filosofia se dedica a ponderar sobre a essência dos fenômenos e conceitos, enquanto que a ciência trata de estudar sua função e modelar seu comportamento. Por exemplo, não se sabe qual é a essência da gravidade, mas há muitos séculos a ciência vem estudando e sabendo cada vez mais sobre o seu comportamento e a sua atuação. Pelo menos desde a “Lei da gravitação universal”, de Isaac Newton, publicada a mais de três séculos, até a recente medição das “ondas gravitacionais“, em 2017, pelo LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) a ciência sabe cada vez mais sobre como a gravidade se comporta, mas bem pouco (ou quase nada) sobre a sua essência (e o mesmo vale, entre outras, para a matéria, a luz, o tempo e espaço e para a nossa consciência ou mente).

Desde os tempos da Grécia antiga (talvez até antes disso), a filosofia parece ter naturalmente se dividido em duas correntes principais, aqui, por simplicidade, chamadas de: Idealismo e Realismo. Em linhas gerais, o idealismo defende a ideia de que não temos acesso direto à verdadeira realidade constituinte do mundo (no caso, “mundo” aqui se refere a tudo que existe, ou seja, o universo, tanto objetivo quanto subjetivo, extrínseco ou intrinseco). Já o realismo defende que a realidade é exatamente como a observamos e interagimos; que não existe algo de misterioso ou intangível por trás daquilo que observamos, medimos e manipulamos, ou seja, não há uma “metafísica” (significando a verdadeira realidade por trás da “física” que percebemos). A famosa pintura “Escola de Atenas” (Scuola di Atene, de 1510)  do pintor renascentista italiano Rafael, descreve bem esta dualidade filosófica, com diversos grandes pensadores (entre muitos outros, Sócrates, Pitágoras, Boécio, Diógenes, Arquimedes, Ptolomeu, Platão e Aristóteles).  No centro desta pintura, estão Platão, em vermelho, representando o idealismo, apontando para cima, referindo-se à metafísica por trás da física, e Aristóteles, em azul, representando o realismo, com o gesto de mão para baixo, referindo-se à existência apenas da física.

A existência de um mundo além do físico, um mundo das idéias, ou como é aqui chamado, um “mundo mental”, do qual a realidade como a percebemos deriva e depende, foi defendido por Platão e muitos outros pensadores idealistas, ao longo da história, tais como: Vasubandhu, Utpaladeva, Kant, LeibnizSchopenhauer e mais recentemente Timothy Sprigge. No lado oposto, os pensadores que defendem o realismo, posteriormente chamado de “materialismo” e mais recentemente, de “fisicalismo” (termo cunhado por Otto Neurath) vem desde Aristóteles (chamado de “pai do realismo”), Francis Bacon, Max Weber, e até Bertrand Russell, fundador da chamada “filosofia analítica”, que utiliza o formalismo da lógica e da matemática para embasar ponderações filosóficas. Interessante notar que seu orientador, Whitehead, com quem Russell escreveu Principia Mathematica, uma das obras mais importantes da filosofia analítica, foi um importante filósofo idealista. Além da similaridade com Platão e Aristóteles (que foi seu discípulo), um outro caso parecido, pelo menos a meu ver, tratando da diferença de entendimento sobre o conceito de mente, ocorreu entre Sigmund Freud e seu discípulo, Carl Jung. Freud, de viés notadamente realista, considerava a mente como uma atividade puramente cerebral de cada indivíduo. Já Jung, com pensamento notadamente idealista, defendia a existência de uma mente estendida, que permeia toda a humanidade, por ele chamada de inconsciente coletivo

Devido ao seu aspecto reducionista, que descarta a existência de uma metafísica intangível porém interveniente à nossa realidade perceptual, o pensamento filosófico realista se tornou mais adequado à experimentação, sendo mais fácil de ser definido pela lógica e modelado pela matemática. Além disso, ao que se supõe, a lenta e penosa separação do estado e da igreja no ocidente, juntamente com os traumas advindos do seu prolongado domínio social durante todo o período medieval e até mesmo moderno (para se ter uma ideia, no Brasil, a criação do estado laico só foi promulgada em 1890) também incentivou o realismo/materialismo/fisicalismo filosófico a se tornar a fundamentação norteadora da ciência atual e até mesmo de parte significativa das artes, como a música, especialmente em termos de sua teoria, do seu ensino e da sua análise. 

No entanto, os avanços científicos contemporâneos, em especial no que concerne a realidade objetiva (com o advento da física relativística, seguido da física quântica) e a realidade subjetiva (com os avanços da psicologia, da cognição e posteriormente da neurociência) trouxeram cada vez mais inquietantes evidências (em termos de constatações empíricas misteriosas) que têm desafiado a base fisicalista da ciência. A curvatura do tempo-espaço, comprovado pela relatividade, o entrelaçamento quântico, comprovado pela mecânica quântica, o problema difícil da consciência (que elude a neurociência a explicar como quantidades de processamento neural compõem qualidades perceptuais), são apenas alguns exemplos dos muitos mistérios que se manifestam e aglutinam na ciência atual, ainda que exaustivamente comprovados e replicados por experimentos científicos, mas que parecem impossíveis de serem explicados pela ciência embasada no reducionismo fisicalista. Isso tem trazido um ressurgimento do pensamento filosófico idealista, porém desta vez embasado no rigor sistemático do processo analítico. Análogo ao que ocorre com o eixo magnético terrestre, que a cada intervalo de dezenas ou centenas de milhares de anos, misteriosamente inverte de polaridade (ver geomagnetic reversal) talvez, na micro escala da nossa breve sociedade humana, estejamos prestes a presenciar uma inversão no polo filosófico que norteia a nossa ciência e arte, indo do atual fisicalismo a uma vertente mais formal de idealismo. Com isto, talvez, perguntas fundamentais e aparentemente insolúveis, como as que mencionei acima e tantas outras, que pululam tanto na ciência quanto nas artes, possam, quem sabe, vir a ser desvendadas, talvez até de forma óbvia e ululante. Este artigo pretende discorrer sobre as questões relacionadas a este viés que tocam em particular a “arte das musas”, a música, e suas elusivas e intangíveis abstrações no omnipresente mundo mental. 

Até a próxima parte

 


Como citar este artigo:

José Fornari. “Musas, música e o mundo mental – parte 1”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 24 de setembro de 2022. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2022/09/24/musas-musica-e-o-mundo-mental-parte-1/

 

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