in filosofia da música, musicologia

Musas, música e o mundo mental – parte 2

José Fornari – fornari@unicamp.br

02 outubro 2022

link para a parte 1

Na virada do milênio, um filme chamou muito a atenção, tanto do público quanto da crítica. The Matrix (1999) cativou tanto pelos efeitos especiais revolucionários quanto pela densa argumentação filosófica. A trama aponta para o “mito da caverna” de Platão, que tenta descrever através desta famosa parábola, o idealismo platônico, de como estamos afastados da verdadeira realidade e o que percebemos e atuamos é como que um simulacro; no caso deste filme, uma simulação computacional (argumento também defendido por diversos pensadores atuais, como professor de filosofia de Oxford, Nick Bostrom que considera, em sua “hipótese da simulação“, a enorme possibilidade de já estarmos vivendo numa simulação).

Em 2005, um ensaio peculiar, de uma única página, foi publicado na renomada revista científica Nature, com o título “The mental Universe“. O autor, Richard Conn Henry, físico e astrônomo, defendeu aberta e diretamente que vivemos num universo que não é essencialmente físico (feito de matéria e energia) mas puramente mental. Este ensaio inicia com a seguinte afirmação: “A única realidade [que existe] é mente e observação, porém [nossas] observações não são de coisas [materiais]” (“The only reality is mind and observations, but observations are not of things”). O autor explica que o universo é quântico, portanto imaterial e se assemelha mais com uma mente do que com uma máquina. No livro “Our Mathematical Universe” (2014), o cosmólogo Max Tegmark defende que conceitos materiais, como átomos, células ou estrelas são redundantes uma vez que são apenas percebidos através de modelos matemáticos, o quais são idealizações, ou seja, padrões mentais. Em 2021, o artigo “The autodidactic universe“, do físico teórico Stephon Alexander e colegas, mostra como as leis da física se manifestam de modo equivalente a um modelo computacional de rede neural em aprendizado, ou seja, como que formando hábitos peirceanos de um mundo mental. Em suma, na esfera da física, que tenta descrever o comportamento macroscópico e microscópico do universo, o fisicalismo parece estar cada vez mais em conflito devido à incapacidade de explicar os fenômenos cientificamente observados atualmente.

O mesmo ocorre na esfera do mundo subjetivo. A esperança de que o atual processo científico tradicional, norteado pelo pensamento fisicalista (em grande parte, ainda na lógica aristotélica), será capaz de explicar nossos processos cognitivos, como a identificação, a atenção, a intenção, a emoção e a consciência (atividades qualitativas normalmente atribuídas à noção de mente), parece cada vez mais distante. Segundo a neurocientista Sarah Durston, até recentemente supunha-se que, conforme a tecnologia fosse avançando, a neurociência seria capaz de explicar cada vez mais sobre os processos qualitativos da mente humana. Porém, após quase meio século de evolução metodológica (por exemplo, o MRI – de Magnetic Resonance Imaging – foi inventado no final da década de 1970) a neurociência parece cada vez mais distante de responder formalmente (ou seja, de modo quantitativo) os processos qualitativos que constituem a mente humana. Outra neurocientista, Jill Bolte Taylor, autora do livro My stroke of insight (2008) conta neste a sua própria experiência, com um severo aneurisma cerebral que momentaneamente “desligou” todo o processamento do hemisfério esquerdo de seu cérebro, o que a fez experimentar um profundo silêncio mental, como nunca antes tinha sentido, seguido por uma enorme sensação de paz, felicidade e união com todo o universo, que Taylor considera como tendo sido equivalente ao nirvana. Experimentos recentes da neurociência com alucinógenos (como o DMT e o LSD), que são conhecidos por provocarem uma imensa atividade mental (como visões, sinestesias, intensificação de percepções, etc.) têm paradoxalmente sido atualmente comprovado que tais substâncias na verdade diminuem a atividade cerebral. O mesmo ocorre em estados mentais alterados por sonhos intensos, meditação profunda ou até asfixia induzida. Nessas condições mentais alteradas, onde a consciência tem uma enorme exuberância e profusão de experiências qualitativas,  o cérebro se encontra quantitativamente (em termos de atividade neural) bem menos ativo do que no seu estado normal, de vigília. Isto contradiz a noção fisicalista de que a atividade mental qualitativa está diretamente relacionada à atividade quantitativa cerebral. Tal evidência vem sendo repetida por diversos estudos científicos, como por: Carhart-Harris e colegas, no caso de alucinógenos; e Jennifer Windt, no caso de sonhos e meditação. O mesmo também vem sendo estudado para casos de experiências místicas após acidentes cerebrais (como o caso acima citado, de Jill Bolte Taylor, entre outros) e NDA (Near Death Experiences, ou “experiências próximas da morte”). Em suma, como explicar pelo fisicalismo científico que em momentos em que o cérebro está quase que ausente de atividade neural, a mente está extremamente ativa, com percepções, concepções e emoções profundamente significativas?

Existem diversas propostas atuais para novos frameworks filosóficos que possam orientar a ciência de modo a permitir que esta eventualmente avance o conhecimento humano em questões fronteiriças fundamentais, tanto objetivas (dos enigmas do microcosmos quântico aos do macrocosmos relativista) bem como sobre o universo subjetivo da mente e de sua emergente consciência. Ao que eu saiba, o pesquisador atual que tem mais advogado esta frente, formalmente organizando estas propostas, desde a antiguidade até a atualidade, bem como propondo a sua síntese, é Bernardo Kastrup, doutor em filosofia e também doutor em ciência da computação. Sua argumentação vai no sentido de propor um framework idealista para uma nova filosofia da ciência, que Kastrup chama de “idealismo analítico”. A meu ver, Kastrup propõe uma retomada do pensamento metafísico porém com o rigor analítico da lógica e da matemática, se afastando simultaneamente tanto do fisicalismo quanto do “pampsiquismo” (panpsychism), uma corrente filosófica que muitas vezes é confundida com o idealismo, ao sugerir a existência fragmentada da consciência em cada partícula física que compõe o universo físico. O idealismo analítico é baseado na seguinte argumentação (conforme eu entendi, do curso online de idealismo analítico). Existe apenas uma única mente universal (que eu chamo aqui de “mundo mental”) com suas próprias (intrínsecas) regularidades e padrões (ou excitações), similares às nossas ideias e emoções. Estes padrões mentais compõem tudo que existe e é percebido, seja na forma de matéria ou de energia (e que percebemos e atuamos como sendo o mundo físico). Os seres vivos são “dissociações” (ou “alters“) do mundo mental, mas que nele habitam e atuam, e por este são afetados (já que mesmo dissociados, ainda assim são parte integrante deste, similar à diferentes partições do mesmo HD  de um computador), mas que percebem conscientemente outros alters e demais padrões (objetos inanimados, matéria, energia, etc.) somente através dos sentidos (visão, audição, olfato, tato, paladar, etc.), como padrões extrínsecos.

Nesta perspectiva, seríamos como que identidades dissociadas do mundo mental; de um modo simplista ou até exagerado, similar aos casos clínicos de DID (Dissociative Identity Disorder) antes conhecido como os casos de “múltipla personalidade”. Para mim, este parece ter sido o caso de muitos artistas geniais, como o grande poeta da língua portuguesa,  Fernando Pessoa e as suas “dissociadas” máscaras poéticas. Como eu disse, casos de DID são exemplos extremos. Porém, de modo mais brando, todos nós temos episódios similares a dissociações, seja em momentos de insight, inspiração, ou abdução, em sonhos ou mesmo em vigília, quando ideias nos ocorrem subitamente como se tivessem vindo de outra mente. Músicos e demais artistas criadores conhecem este fenômeno de perto. Na próxima parte deste artigo eu irei tratar especificamente do conceito estético; das musas das artes e da música (a “arte das musas”) como possíveis processos emergentes do mundo mental.

Até lá!


Como citar este artigo:

José Fornari. “Musas, música e o mundo mental – parte 2”. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas. ISSN 2526-6187. Data da publicação: 02 de outubro de 2022. Link: https://www.blogs.unicamp.br/musicologia/2022/10/02/musas-musica-e-o-mundo-mental-parte-2/

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