DiƔrio de Israel #3 A baleia Ʃ mais segura que um grande navio

Para dar o tom: ā€œMestre Jonasā€, de SĆ”, Rodrix e Guarabyra

 

Montanhas, Ć”rvores, casas, postes de iluminação passavam em perspectiva pela janela do automóvel. Tudo tingido de dourado reluzente do aeroporto atĆ© Rehovot. O brilho era tĆ£o intenso que a posição do sol era difusa e probabilĆ­stica. 

O pÓr-do-sol é mÔgico em Israel. Até o tempo para para contemplar. Nesse estado de transe, foi difícil perceber que entravÔmos no centro de Rehovot e adentravÔmos o portão principal do Instituto Weizmann de Ciências. Dali, o carro foi escoltado por seguranças em motocicletas até a Residência Ruthie & Samy Cohn. Uma entrada pomposa para quem assistiu da calçada, quase como um desfile.

Eu e as malas fomos colocadas para dentro do prĆ©dio com uma Ćŗnica indicação: “VĆ” para o quarto!”. Com a eficiĆŖncia e a precisĆ£o robótica de um sabujo mecĆ¢nico (Fahrenheit 451, Ray Bradbury), encontro o quarto n. 103, agarrando a maƧaneta delicadamente e projetando a probóscide (a chave) na fechadura.

Uma vez fechada, a porta só seria aberta 14 dias depois. 

Com o sol jĆ” na linha do horizonte e passado o transe, nĆ£o sei bem onde estou no tempo e no espaƧo. Meu mundo tem 16 metros quadrados e uma pequena sacada com vista para um elevado feito de pedras hexagonais cor areia, que esconde uma praƧa, prĆ©dios altos e uma estação de trem. 

Acompanho o ir e vir de alguns poucos pedestres logo cedo e no entardecer. Raramente vejo um carro. Os trens sĆ£o frequentes. ƀs vezes o barulho Ć© ensurdecedor, quando helicópteros militares sobrevoam a Ć”rea. Muito ao longe, escuta-se barulho de trĆ¢nsito e buzina. HĆ” luzes que piscam como vagalumes.

A natureza também é visita frequente. Os pÔssaros fazem das Ôrvores dormitório e são muitos. HÔ também pequenos lagartos que escalam o paredão e se escondem entre as pedras. Além de minúsculas e inteligentes baratinhas que encontrei duas noites seguidas no banheiro.

A primeira semana foi marcada por uma dor de cabeƧa Ć  britadeira. O serviƧo comeƧava no meio da tarde com vibraƧƵes intensas e pontiagudas no topo da cabeƧa, que desciam ressoando por cada membro. O corpo autĆ“mato deixava-se cair aos pedaƧos sobre a cama. O sono era interrompido para comer, quando o corpo criava nova forma para, entĆ£o, voltar para a cama em uma versĆ£o mais leve. 

Os raios de sol temem o interior do cubĆ­culo. Os dias passam entre trĆŖs quinas – cozinha, escritório e quarto – cada uma separada por oito peƧas de piso cerĆ¢mico antigo. A sacada Ć© o lazer e respiro entre uma tarefa e outra ou o refĆŗgio quando me sinto entediada. 

O ciclo circadiano adaptou-se ao claro e escuro, e entrei na segunda semana mais consciente do entorno. Cada detalhe e objeto do apartamento me interessam. Na cozinha, impressiona a qualidade das matƩrias-primas, e misturo ingredientes e temperos em criaƧƵes culinƔrias duvidosas, apesar de nutritivas.

Pega na tempestade da Covid-19, como Jonas, resta-me apenas contar os dias.

Camila Pinto da Cunha, engenheira agrÓnoma, jornalista científica e pesquisadora de pós-doutorado no Instituto Weizmann de Ciências, escreve sobre vivências pessoais e experiências científicas em Israel.

CrƩdito imagem: DALL*E
Revisão de texto: NatÔlia Flores


Texto publicado originalmente em 18 de novembro de 2020